Da “ateia firme” à muçulmana “com orgulho”: quatro jovens mulheres perante a religião

| 16 Jan 19

Como se descrevem quatro jovens mulheres perante a religião? E como encaram o papel desta na sociedade? Poucos dias antes da Jornada Mundial da Juventude, que se realiza no Panamá entre 22 e 27 de Janeiro, e depois do Sínodo dos Bispos católicos que, em Outubro, debateu o tema dos jovens e da sua relação com a fé, o 7MARGENS foi tentar perceber o que pensam os jovens portugueses acerca da religião. Uma ateia, uma escuteira católica e uma muçulmana explicam aqui as suas motivações.

Mariana Nascimento, 24 anos, é alentejana, de Vila Viçosa. Mudou-se para Lisboa para estudar e, depois da licenciatura e do mestrado, permaneceu na capital para trabalhar em microbiologia. Descreve-se a si mesma como “ateia firme”, mas recorda que nem sempre o foi, já que cresceu no seio de uma família católica. Foi à catequese, foi crismada e teve muito contacto com a religião, apesar de manter um pensamento crítico em relação à mesma – algo que a levou a querer sempre saber mais.

Atribui o seu afastamento religioso às vivências dentro da religião e à sua formação científica: “Por vir de uma comunidade e vila muito pequena, existem aqueles chavões sobre as pessoas religiosas, que só praticam os valores católicos ao domingo. Sentia alguma hipocrisia quando via padres com carros de boas marcas e casas enormes, por exemplo.” Por outro lado, questões como a origem da vida e do universo, para as quais estava mais sensível por ser da área científica, considerando que “hoje em dia, muita gente sabe que, em termos religiosos, são uma alegoria e não factos”. Ainda assim, não encontrando sentido de vida na religião, encontra-o no seu dia-a-dia:

Apesar do que afirma, Mariana continua a interessar-se muito pelo tema e quer estar sempre mais informada sobre o mesmo: “O meu fascínio pelo tema da religião prende-se com o que as pessoas nela encontram. Nós somos talvez a primeira espécie que tem consciência da sua efemeridade. Ou seja, vivemos com noção de que vamos morrer, algo que é uma pressão enorme para o ser vivo. Muitas pessoas procuram na religião algo que dê sentido a essa pequena janela de tempo em que estamos vivos.”

Também educada na fé católica foi Mafalda Mendes, de 21 anos, licenciada em gestão no ISCTE, em Lisboa. Nasceu e cresceu no seio de um ambiente muito católico e, desde que se lembra, sabe “fazer o sinal da cruz”:

 

No percurso de Mafalda, o escutismo também foi algo que sempre a acompanhou. Primeiro no Lumiar, com missas todas as semanas, algo que não desgostava “porque era uma missa muita alegre” e porque era a altura do dia em que podia conviver com os escuteiros mais velhos e “aprender com eles”. Hoje, em dia, insere-se noutro agrupamento mas continua a ter um papel ativo nesse meio. Vai à missa todos os domingos e fala com Deus a toda a hora, porque sente que ele está sempre disponível para ela.

Quando chegou à faculdade, sentiu o “rebentar da bolha” onde se encontrava inserida e o embate com outra realidade: “Na minha escola, éramos apenas 21 alunos de três áreas (economia, humanidades e ciências). Quando saí para a faculdade, os meus colegas eram sobretudo pessoas que não sabiam se algo existia, que nunca tinham pensado nisso sequer.”

Descreve que era conotada como “queque” por andar de cruz ao peito e se considerar católica. Mas, “a partir do momento em que começaram a conhecer-me, viram que não era um bicho de sete cabeças acreditar em Deus.”

Mafalda acha que a Igreja é “acolhedora q.b.”, que o Papa Francisco tem trazido ideias boas e “aberto portas e olhos a muitos jovens e adultos”: “O Papa Francisco anda a revolucionar, com ideias como ‘se a pessoa é gay, quem sou eu para julgar?’. Está a acabar com muitas das imperfeições da igreja e a desmascarar tudo. O mundo evoluiu um bocadinho mais depressa que a Igreja mas ela está a tentar acompanhar.”

De convicções igualmente fortes é Maryam Alidina, que começou em setembro o seu percurso universitário. Aos 17 anos, estuda na Faculdade de Direito em Lisboa. Para ela, a fé muçulmana acaba por ser tema de conversa para onde quer que vá: “Um dos meus primeiros cartões de visita sempre é a minha crença, porque perguntam de onde vem o meu nome, sendo que é um nome árabe. É interessante porque eu própria tenho sempre alguns requisitos no grupo de pessoas que está ao pé de mim e todas elas são muito curiosas, querem sempre saber mais e acho que isso é importante.” Confirma que tem amigos que por vezes não concordam com alguns dos seus pontos de vista mas salienta que a sua geração está muito mais aberta ao outro por estar muito mais informada: “Acaba por ser um tópico que não afasta mas sim que nos aproxima.”

Maryam Alidina, 17 anos.

A religião sempre teve um papel relevante no seu crescimento: foram-lhe ensinados os cinco pilares do islão, aprendeu a ler árabe para poder ler o Alcorão, faz o Ramadão (mesmo que por vezes choque com a vida de estudante) e ora cinco vezes ao dia, sempre que consegue. “Atualmente vejo a minha religião como um modo de me orientar e ela acaba por aplicar-se em todas as minhas relações, seja a nível social seja até pela maneira como eu apreendo as coisas. Há certos valores que vêm da minha religião e acabam por fazer parte até da minha própria personalidade”, continua.

Maryam nunca sentiu preconceito em relação ao islão: “Se nós estivermos conscientes que somos diferentes na pele ou na confissão religiosa, nunca poremos isso em causa: a nossa insegurança acaba por ser metade do caminho para o preconceito. Eu nunca senti preconceito exatamente porque sempre tive orgulho naquilo que sou. Não uso lenço, mas também não tenho problemas nenhuns em sair de casa com uma veste para ir rezar e ir para o metro. Sinto-me bem e confiante porque faz parte daquilo que sou.”

Também se observa alguma confiança em Marta (nome fictício), 30 anos, que está a atravessar uma fase de reconstrução da sua vida. A viver sozinha há dez anos, admite que fez “algumas coisas que não foram muito certas”. Foi parar a uma instituição de apoio a mulheres em contexto de prostituição e vítimas de tráfico, que a direcionou para “uma solução mais certa”. Tem tido atendimento psicológico, social e ajuda em termos alimentares, e agora, depois de ter um bebé nascido em Junho, trocou o quarto onde vivia por uma casa e, neste momento, não trabalhar por estar em licença de maternidade.

 

“Marta”.

Criada por pais não batizados, Marta nunca teve qualquer contacto com a religião até ter passado a viver, aos 16 anos, numa instituição católica: “Fazíamos visitas a Fátima e a outras igrejas, todas as noites rezávamos antes de jantar e havia voluntárias que vinham cantar à capela da instituição.” Nessa altura, Marta ficou com uma ideia melhor acerca da religião. Apesar de não ser praticante, conta que se identifica bastante com os valores com os quais teve contacto.

“Talvez os jovens com mais capacidade monetária tenham mais contacto com a religião, porque é algo que os pais ou avós incutem neles. Ou porque têm possibilidade de ir à catequese.”

Marta sente que, se tivesse tido uma educação católica, teria tido uma vida diferente: “Tudo o que é transmitido nessa base, e ninguém pode dizer o contrário, é o bem. O mal está à porta quando saímos, e o bem precisa de ser ensinado, de um certo encaminhamento.”

Com diferentes sentidos de pertença ou de vida em relação à religião, também o papel da mesma na sociedade é encarado de formas diversas por estas quatro jovens.

 

 

Mariana afirma ainda que não é por ser ateia convicta que desvaloriza ou menospreza tudo o que a religião faz: “Reconheço que a religião é um sistema de apoio, crenças e um guia para muita gente, simplesmente não me ajuda a mim. Não é por não acreditar que não vejo utilidade.”

Maryam tem a mesma opinião acerca do papel da religião na sociedade. A jovem muçulmana vê ainda um grande peso na moral e pensa mesmo que “todas as religiões acabam por ter o objetivo de realizar o bem e orientar uma pessoa”, trazendo harmonia.

A escuteira Mafalda Mendes foca mais os exemplos práticos, no bem que vê que a sua religião faz aos que a rodeiam:

 

 

Marta acrescenta que apenas se houver interesse das pessoas e das instituições religiosas é que a religião poderá continuar a ter um papel moral e condutor: “As pessoas só vão à igreja se quiserem, ninguém as vai obrigar. Portanto é preciso que a necessidade de encontro venha das pessoas também, não só da parte institucional.”

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