Da discoteca para o altar: o padre genovês que fala aos jovens e é um fenómeno do TikTok

| 6 Jun 2024

Don Roberto Fiscer. Foto Direitos reservados

A música e o futebol eram as grandes paixões de Roberto Fiscer durante a juventude. Agora que é padre, são também um modo de chegar aos mais novos. Foto: Direitos reservados

Há seis meses descobri Don Roberto Fiscer, padre italiano que se tornou uma estrela do TikTok. Percebeu que, para chegar aos jovens, há que conhecer os seus interesses e usar a sua linguagem, não esperar que sejam eles a aproximar-se. Assim, transmite a mensagem cristã com vídeos bem-dispostos gravados na sua paróquia, a maioria das vezes dentro da igreja, nos quais surge de boné, os pulsos cobertos de pulseiras coloridas, e onde joga futebol de batina com os jovens e brinca com as suas gatas, Sol e Nota. Sempre com humor e autoironia. Aos puristas que criticam as suas posturas «indignas» diante do Santíssimo Sacramento responde que, como as outras pessoas, grava os vídeos em sua casa. Porque a igreja não é uma estrutura de tijolos, é o lar dos cristãos.

Roberto Fiscer nasceu em 1976, em Génova. Era adolescente quando perdeu a mãe, o que o marcou profundamente e o fez andar um pouco à deriva. A música e o futebol eram as suas grandes paixões. Adepto ferrenho do Genoa, um grande clube da cidade, sonhava ser líder da claque. Foi animador de cruzeiros e DJ em discotecas. Diz que tinha tudo, mas sentia um vazio interior. Um dia, uma amiga convidou-o para animar um grupo de jovens na paróquia e ele, do alto do seu estilo cool, mas incapaz de recusar, lá foi “aturar” aqueles “falhados” dos católicos. Mais tarde, à Jornada Mundial da Juventude de Roma, em 2000, foi com um só fim: encontrar namorada. Lá, percebeu que cool eram os padres jovens que tocavam viola e cantavam, imagem que não mais lhe saiu da cabeça. Meses depois, entrou no seminário. Tinha 23 anos. Nunca olhou para trás, nem se arrependeu. Eu digo que nasceu para ser padre. Apagou as tatuagens do Genoa que tinha cravadas no corpo e desfez-se dos discos. Agora o mister era outro e a agulha do gira-discos riscava outras notas. “Não era eu que procurava algo, era Ele que me procurava”, costuma dizer.

Celebrou missas na praia, criou uma “Cristoteca”, espécie de resort de verão em que passava música, conversava com banhistas e os confessava. Fundou a Radio Fra le Note (Rádio Entre as Notas), que levou até à prisão (para que os reclusos pudessem dedicar músicas aos seus familiares) e ao hospital pediátrico, onde conduz atualmente um programa com a participação de crianças internadas (são elas que fazem as pulseiras!) e outras que enviam os seus contributos de casa. E está sempre a reinventar-se, espontâneo, muito criativo, mas sem plano nem agenda delineados. E sempre atento aos ventos que sopram. Numa das suas homilias, dizia que os cristãos correm o risco de viver num mundo de sacristia, só que a vida «lá fora» é complicada, e ele sabe bem ler o pulsar do mundo e aplicar com uma pontaria certeira, mas desassossegadora, com metáforas concretas da vida real, e também partindo da sua própria experiência, a mensagem de Cristo às situações do dia a dia.

Don Roberto Fiscer na sua paróquia, junho de 2024. Foto Direitos reservados

Roberto Fiscer (ao centro), no final da missa da passada terça-feira, 4 de junho, dia em que assinalou o 18º aniversário da sua ordenação. Foto: Direitos reservados

Admiro muito o Don Roberto. Fui católica empenhada até há cerca de dez anos, altura em que senti que o que ouvia do altar já não ressoava em mim. Hoje, não sei se ainda acredito em Deus, não sei se existe uma entidade sobrenatural que criou o mundo. Não me revejo em muitas das coisas que a Igreja defende, há matérias que deveriam ser repensadas, formas de encarar a realidade de 2024 que precisam urgentemente de mudar. Penso que a Igreja tem um gigantesco problema de comunicação e que não sabe acolher as pessoas como elas merecem, mas não me zanguei com ela. Porque os valores saídos da boca de Cristo são válidos e ficaram comigo. Gostava de ver uma Igreja menos elitista, menos julgadora e mais aberta, inclusiva e compreensiva. “Todos, todos, todos!” E vejo isso no Don Roberto. O futuro da Igreja tem de ser construído por todos os Don Robertos que, espero, existem por aí.

O que mais admiro nele é a alegria com que vive a sua fé e o modo como consegue envolver novos e velhos na sua missão. Basta ouvir a sua meditação matinal sobre o Evangelho do dia para lhe ver os olhos cheios da felicidade de quem se sabe amado por Deus e da beleza da palavra de Cristo. E com isso contagia todos: a prova está nos sorrisos rasgados dos jovens com quem vai a pé até Assis e acampa, dos acólitos com quem vai benzer as famílias e dos idosos que “recruta” para os seus vídeos. E é tão raro ver um cristão alegre! As suas reflexões fazem-me pensar na minha relação com os outros e comigo mesma.

Don Roberto Fiscer com Marta Pinho. Foto Direitos reservados

Roberto Fiscer com Marta Pinho, em maio deste ano. Foto: Direitos reservados

No mês passado, decidi ir visitá-lo. Acolheu-me na sua sacristia que é um fresco de memórias: não há um espaço livre nas paredes forradas com fotografias dos seus seis anos ao leme da paróquia do Chiappeto, uma das periferias tão caras ao Papa Francisco. Um bocadinho star-struck, perguntei-lhe do musical sobre S. Francisco de Assis que montara e da sua JMJ em Lisboa. «Uma bela experiência de Igreja», confessou-me, com um sorriso doce. Não me senti diante de um ídolo, mas sim de um amigo que nos olha e trata com carinho e nos abraça forte, alguém com quem poderíamos passar horas a conversar. Depois caminhei com ele e os seus acólitos, iam para mais uma etapa da bênção das casas. Foi um dia bom! Hei de voltar a Génova e visitá-lo. Porque quero preservar na minha vida pessoas que me inspiram e me fazem bem. Então, conversaremos, quem sabe, um pouco sobre música, um pouco sobre a Igreja que queremos. Grazie, Don, ti voglio tanto bene.

 

Marta Pinho vive em Lisboa e é tradutora. Lê menos do que gostaria, faz crossfit e canta num coro de música clássica. Um dia há de mudar-se para Itália.

 

Uma tarde para aprender a “estar neste mundo como num grande templo”

Na Casa de Oração Santa Rafaela Maria

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Estamos neste mundo, não há dúvida. Mas como nos relacionamos com ele? E qual o nosso papel nele? “Estou neste mundo como num grande templo”, disse Santa Rafaela Maria, fundadora das Escravas do Sagrado Coração de Jesus, em 1905. A frase continua a inspirar as religiosas da congregação e, neste ano em que assinalam o centenário da sua morte, “a mensagem não podia ser mais atual”, garante a irmã Irene Guia ao 7MARGENS. Por isso, foi escolhida para servir de mote a uma tarde de reflexão para a qual todos estão convidados. Será este sábado, às 15 horas, na Casa de Oração Santa Rafaela Maria, em Palmela, e as inscrições ainda estão abertas.

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O patriarca de Lisboa, Rui Valério, escreveu uma carta a convocar “todos – sacerdotes, diáconos, religiosos, religiosas e fiéis leigos” da diocese para estarem presentes naquele que será o “momento raro da ordenação episcopal de dois presbíteros”. A ordenação dos novos bispos auxiliares de Lisboa, Nuno Isidro e Alexandre Palma, está marcada para o próximo dia 21 de julho, às 16 horas, na Igreja de Santa Maria de Belém (Mosteiro dos Jerónimos).

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