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[À Margem]

Da ecologia da comunicação à gramática da paz: a proposta de Leão XIV

| 02/07/2026

Passado pouco mais de um mês da publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, pode concluir-se que ela suscitou um acentuado interesse à escala global e que, em geral, a recetividade do seu conteúdo foi positiva. Sendo, contudo, um documento de grande amplitude e complexidade, muitas das suas propostas vão demorar algum tempo a digerir, para não falar do Espírito que a inspira.

Procuro, neste texto, olhar com mais atenção para os capítulos IV e V e, particularmente, para dois aspetos que o Papa equaciona e que, a dado passo, coloca mesmo em relação: aquilo a que chama uma “ecologia da comunicação”, por um lado, e aquilo que se poderia chamar a gramática da guerra e a aprendizagem da gramática da paz.

Um ponto parece inquestionável: a problemática comunicacional surge, se não como um eixo, pelo menos como um fio condutor da mensagem da Magnifica Humanitas.

Leão XIV propõe aos leitores, ao longo do seu trabalho, duas imagens inspiradoras do Antigo Testamento: a torre de Babel (Génesis 11, 1-9) e o caminho de Neemias (Neemias00 2-6). Ambas podem ser lidas do ponto de vista da comunicação. A Babel, que se pretendia que ligasse ao céu, era pautada pela uniformidade: uma única língua, uma única tecnologia, centralização do poder – um sonho que só podia redundar em confusão, dispersão e, finalmente, na incomunicação. Já o caminho de Neemias com vista à reconstrução de Jerusalém, depois dos anos de exílio na Babilónia, invoca Deus, envolve as famílias, coordena os esforços, ouve os receios, enfrenta as oposições. Pondo as relações à frente das pedras, favorece um trabalho participativo, pelo qual “a antiga Jerusalém reencontra uma linguagem comum, não a da uniformidade, mas a da comunhão”.

 

A tecnologia não é neutra

“O que faço é processar informações e apresentar respostas coerentes, mas não tenho uma experiência do sagrado, nem uma intuição interior que me oriente”, “diz o ChatGPT. Foto © Aidin Geranrekab | Unsplash

Nenhuma tecnologia é neutra e muito especialmente a Inteligência Artificial, “porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”, diz o Papa. Foto © Aidin Geranrekab | Unsplash

 

Perante os desafios da Inteligência Artificial (IA) e da “revolução digital em curso”, “que direção escolher enquanto comunidade humana e enquanto povos?”. Se a resposta fosse óbvia – sim ou não à IA, por exemplo – tudo seria fácil. Mas o Papa começa por fazer uma afirmação que rompe com o senso comum: nenhuma tecnologia é neutra e muito especialmente a Inteligência Artificial. A explicação não pode ser mais clara: “porque tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam”.

Há, pois, que aprender a discernir entre o que a encíclica chama o síndrome de Babel que, em nome da idolatria do lucro ou do poder, deixa em terra os mais fracos; em nome da competitividade, anula as diferenças e sonha numa “linguagem única – mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o mistério da pessoa”. E, por outro lado, o caminho de Neemias: reconhecer, na pluralidade de vozes e visões, que, por vezes, lembra a dispersão das línguas, “a existência duma possibilidade luminosa: a de edificar juntos, transformando a diversidade num recurso e fazendo da escuta e do diálogo o terreno comum no qual crescem a justiça e a fraternidade”.

Que critérios seguir em tal discernimento? Em lugar de “entusiasmos ingénuos” ou de “medos estéreis” suscitados por vezes pelas próprias tecnologias ou por quem sobre elas se pronuncia, Leão XIV vai à Doutrina Social da Igreja buscar cinco grandes pontos, que devem ser convertidos em ações: a dignidade da pessoa; o destino universal dos bens; a opção pelos pobres; o cuidado da Casa comum; e a paz (ver parágrafo 14).

Nos capítulos IV e V, a Magnifica Humanitas olha com mais proximidade para terrenos impactados pela IA a que importa atender, de modo a “salvaguardar o humano na transformação”. E é aqui que surge o conceito de “ecologia da comunicação”.  O documento esclarece algo que nunca é demais frisar: por um lado, que a comunicação “não é apenas a transmissão de informações, mas a criação de uma cultura”. E isso leva a que “quem detém o controle das plataformas digitais e dos meios de comunicação possui uma enorme capacidade de influenciar o imaginário coletivo”, ou seja, as representações e visões do mundo e da vida, incluindo das próprias tecnologias.

 

A verdade não é propriedade de ninguém

Apresentação da enciclica Magnifica Humanitas, 25 maio 2026. Foto Vatican Media 1

Leão XIV após a apresentação da encíclica Magnifica Humanitas, a 25 de maio de 2026. Nos capítulos IV e V, a encíclica olha com mais proximidade para terrenos impactados pela IA a que importa atender. Foto © Vatican Media

 

Assim, seguindo o número 137, a ecologia da comunicação passaria por:

  • Considerar a verdade um bem comum e não propriedade daqueles que detêm poder ou visibilidade;
  • Com base nesta referência, não demonizar nem idolatrar os instrumentos de comunicação;
  • Estabelecer normas que tornem mais transparentes as lógicas de seleção e amplificação dos conteúdos, e que protejam os dados pessoais;
  • Fortalecer os organismos intermédios, um jornalismo sério e espaços de debate onde prevaleçam a argumentação e a averiguação, em vez da reação impulsiva;
  • Amadurecer a exigência de uma nova consciência educativa na escola e na família e formar para a utilização correta e crítica das ferramentas digitais, da IA e das plataformas de compra e investimento, incluindo o jejum de IA;
  • Promover, na universidade, a integração dos saberes, preparando tanto a capacidade de relacionar e fundir os conhecimentos para interpretar a complexidade, como as técnicas para averiguar os acontecimentos.

Em particular relativamente ao papel essencial da escola, o documento entende que ela “não é chamada a acompanhar a velocidade do mundo digital, mas a oferecer aquilo que o digital, por si só, não consegue: tempo partilhado para aprender e relações de confiança”.

O capítulo V intitula-se “Cultura do poder e civilização do amor” e continua a analisar a forma como vários aspetos e campos da vida e da sociedade têm vindo a mudar com a IA, com graves consequências para a dignidade humana, dedicando particular atenção à problemática da guerra.

Notando que se está a registar uma modificação da “gramática dos conflitos”, decorrente da revolução digital, a encíclica alerta que “a guerra visível é acompanhada por formas híbridas: ataques cibernéticos, manipulação da informação, campanhas de influência, automatização de decisões estratégicas”. A IA surge aqui como “intrinsecamente ambivalente”, já que o seu papel, pensado eventualmente para defender e proteger as populações civis, “pode ser rapidamente alterado para atacar”, diminuindo as barreiras do uso da força, tornando as responsabilidades menos claras, e alimentando “uma cultura em que o inimigo é reduzido a um dado e a vítima a um ‘dano colateral’ (n. 182 e 183).

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A paz – parâmetro que afere a maturidade moral dos povos

“O mundo clama por paz” diz a placa segurada por um jovem participante da 11ª Assembleia do Conselho Mundial de Igrejas, realizada em Karlsruhe, Alemanha, em 2022. A paz não pode ser considerada um tema ao lado de tantos outros. Foto © Paul Jeffrey/WCC

 

Numa escala mais vasta, deparamos hoje com a expansão de uma cultura do poder, feita de polarizações e violências. “A Babel moderna – refere a encíclica no número 25 – “não é apenas o paradigma tecnocrático globalizado, mas também o confronto à distância entre imperialismos opostos, entre potências que desejam conservar a sua supremacia e potências que aspiram a conquistá-la, com uma multiplicidade de conflitos locais”, um cenário agravado pelo “desenvolvimento de tecnologias cada vez mais poderosas, ou pela garantia do seu controle, segundo uma dinâmica desumanizante que parece não conhecer limites”. E, no entanto, o Papa Leão realça o facto de, ao lado deste desvio, se vislumbrar “grande parte da humanidade que procura permanecer humana e empenhar-se na construção da cidade da convivência e da paz”.

Neste quadro, a paz não pode ser considerada um tema ao lado de tantos outros, mas “uma condição do bem comum universal e um parâmetro para medir a maturidade moral dos povos, especialmente de quem é chamado a assumir responsabilidades de governo” – e acreditando que a “civilização do amor”, em lugar de utopia, é um “projeto exigente” que procura dar corpo institucional à fraternidade. “Dela todos nós somos frequentemente artífices sem o saber”, escreve, esperançosamente, o Papa.

A Magnifica Humanitas observa que o clima de valorização da paz, com a Carta das Nações Unidas, em meados dos anos 40 e o grito do Papa Paulo VI, na ONU – “Nunca mais a guerra!” – em 1965, não impediram que, nas décadas seguintes, se registassem “conflitos de uma ferocidade impressionante”.

A perda da memória histórica; o crescimento da indústria bélica, que se tornou um setor-chave na economia de alguns países; bem como as redes sociais digitais, os ambientes informativos fragmentados e os algoritmos que privilegiam o confronto – são alguns dos fatores que concorreram para “uma verdadeira mudança de paradigma no discurso público e nas decisões em matéria de rearmamento, com uma preocupante reabilitação da guerra como instrumento de política internacional, enquanto precisamente se degradam aqueles critérios éticos que tinham limitado o seu uso” (190). A consequência é que a construção da paz “passou para segundo plano”.

 

Caminho: desarmar as palavras e dialogar

Painel sobre o diálogo inter-religioso, durante a quinta edição dos Mafra Dialogues. Foto Câmara Municipal de Mafra

Painel sobre o diálogo inter-religioso, durante a quinta edição dos Mafra Dialogues, em 2025. Foto © Câmara Municipal de Mafra

 

A aposta na comunicação e suas ferramentas pode desempenhar um papel crucial. Em consonância com (e aprofundando) a ecologia da comunicação, a encíclica sugere em primeiro lugar um ponto em que “todos podemos fazer a nossa parte”, em prol da paz: “desarmar as palavras”.

“O poder das palavras é enorme e experimentamo-lo na comunicação quotidiana, quando alguém nos diz algo que altera o nosso estado de espírito, para melhor ou para pior. A paz começa em cada um de nós: na forma como olhamos para os outros, ouvimos os outros, falamos dos outros; e, neste sentido, a forma como comunicamos é de importância fundamental: devemos dizer ‘não’ à guerra das palavras e das imagens, devemos rejeitar o paradigma da guerra” (214).

O segundo ponto é assumir o olhar das vítimas: há situações em que não é aceitável a neutralidade. É o caso de bombardeamentos contra civis; com ataques a hospitais, escolas ou infraestruturas vitais; com atos de violência que atingem crianças, em que estamos perante escândalos que ferem a própria humanidade. Para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. “Tocar a carne de quem sofre”.

Urge, em terceiro lugar, revitalizar o diálogo, pondo-o em prática. O diálogo diz respeito às relações entre os Estados, mas é também uma dimensão normal da vida humana. Supõe desenvolver “uma atitude que permita construir laços de fraternidade, feitos de escuta, de olhares sinceros, de tempo dado, e até mesmo de tempo perdido juntos”.

Em quarto lugar, é preciso valorizar cada vez mais a cultura da negociação, que também não diz apenas respeito aos Estados. Em vez da cultura do poder, importa que a negociação, que implica diálogo e relações diplomáticas, seja o método que afaste a humanidade da espiral de violência.

Finalmente, “ao rejeitar a lógica da violência, o diálogo entre as religiões desempenha um papel decisivo, pois no centro dos grandes caminhos espirituais encontra-se uma mensagem de paz”.

No aprofundamento destes instrumentos, importa apostar, como em vários momentos refere a Magnifica Humanitas, na literacia sobre a IA e, mais latamente, na literacia mediática e comunicacional. Serão contributos que além de ajudarem a comunicar melhor, na diversidade de contextos e de experiências, podem contribuir para desativar tensões, conhecer melhor as pessoas, promover a escuta e, por esse caminho, criar ambientes e culturas de paz.

 

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O Papa Leão XIV proclamou, desde 10 de janeiro e até final deste ano, um ano jubilar assinalando os 800 anos da morte de Francisco de Assis, ocorrida em 3 de outubro de 1226 – a festa litúrgica é assinalada dia 4. Com esse pretexto, o 7MARGENS publica, até final do ano, nos dias 3 ou 4 de cada mês, uma série de dez textos da autoria de frei Isidro Lamelas, da Ordem dos Frades Menores, professor de Teologia. Este é o oitavo texto da série.

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