Da eutanásia às Cinzas

| 25 Fev 20

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

Viveremos (os cristãos), nesta quarta-feira, a imposição das Cinzas, lindíssima celebração pela qual muitos cristãos (incluindo eu) têm verdadeira devoção, sejam quais forem as interpretações, significados pessoais (ou teológicos) desse gesto: para mim, é sagrado. Passada a Quarta-Feira de Cinzas iniciaremos a caminhada quaresmal.

Na passada semana, foram aprovados na Assembleia da República os cinco projetos de lei sobre a eutanásia, que desceram à comissão da especialidade. Sou filha de médico e tenho uma família de médicos (e farmacêuticos ou veterinários) que se vem renovando de geração em geração e chegou já a uma das minhas sobrinhas mais novas, digna herdeira dos seus dois avôs ou de um meu cunhado, também médico, que partiu prematuramente para Deus depois de uma exemplar luta contra um grave cancro.

Fui aprendendo a perceber o que é o juramento de Hipócrates que frequentemente se assemelha ao que considero dever ser o sacramento cristão da confissão. Depois de aposentada fiz uma formação em cuidados paliativos. Creio entender bem fundo o dilema de muitos médicos e pessoas ligadas à saúde. Vivi desde a minha adolescência experiências de morte, algumas duríssimas, súbitas e prematuras – família, amigos, pessoas próximas que foram marcantes e continuam a determinar quem sou.

Sei que as vivências de “morte pessoal” (transitória, claro, que a vida apesar das suas agruras, é bela e vale a pena) se dão também em cada um/a de nós num momento ou outro. A minha querida mãe –uma mulher de fé e muito santa –, bem nos pediu que a ajudassem a finalizar a sua vida, tal o sofrimento psíquico que lhe vinha das crescentes e penosas limitações físicas em contraste com uma enorme lucidez. Morreu aos 94 anos, consciente (como ela tanto desejava), de uma morte “natural”, rodeada por quase todos os seus sete filhos e elevando-se numa paz imensa para o seu amado e desejado Deus. Um dom ou uma graça que não cabe a todos, por muito que o desejemos.

Escrevo todo este preâmbulo para que se entenda o que direi a partir do meu contexto.

Ainda estou na “ressaca” – com alguma angústia, confesso – das semanas de debate que antecederam a tomada de decisão por aqueles que elegemos como representantes do povo. Estou consciente de que muito há-de ainda correr. Por isso não subescrevi os pedidos (que ainda circulam) de um referendo. Confio em quem elegi e até entendo a lógica profunda dos deputados do PCP – um partido que, de uma forma coerente, tem demonstrado lutar por uma vida de qualidade e solidária para todos os cidadãos, independentemente de classes sociais ou credos – ou, claro, de outros partidos. Reconheço em duas das bancadas a grandeza de ter havido liberdade de voto.

Reafirmo a posição que tomei aquando de uma crónica que escrevi para o 7MARGENS sobre as Caminhadas pela Vida. E, apesar de publicamente me afirmar como membro do movimento do Graal desde os meus jovens 25 anos, tomadas de posição como estas são, para o nosso movimento, claramente individuais (o Graal deixa-nos bem livres na consciência e decisão pessoal, mas insiste no valor do discernimento). Não nego que o meu caminho na busca de Deus está profundamente enraizado na minha comunidade do Graal, que me ajudou a regressar à prática cristã quando eu a tinha abandonado.

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

Regresso ao título que escolhi para este texto. Houve muitos debates e tomadas de posição. Algumas tão dogmáticas que não finalizei a sua leitura, porque não ajudavam os meus dilemas pessoais.

Foi a aproximação de Quarta-feira de Cinzas e do tempo de Quaresma que me fizeram tomar uma posição que esclarece a interrogação final da anterior crónica: Mas que Vida? Gostei da qualidade do debate no programa Prós e Contras da RTP1 (que frequentemente não tenho muita paciência para ver, porque não há verdadeiro diálogo), demarcado dos amplos debates entre os “crentes” e suas organizações religiosas. Interessava-me sobretudo a discussão que se faz na sociedade civil da qual, claro, também faço parte. Curiosamente, verificámos que vários dos intervenientes quiseram referenciar a as suas convicções religiosas apesar de tal não ser pedido.

De modo interessante, essas convicções “religaram o debate” já que as nossas crenças, religiosas ou outras, determinam quem somos e o contexto pessoal e humano de que partimos e onde estamos. Tenho vindo a afirmar que muitos não-crentes me desafiam a ser mais clara naquilo em que acredito por causa de um humanismo profundo e de uma cidadania comprometida que está para além das religiões.

No debate da RTP1, encontrei mais profunda compaixão, aceitação e solidariedade, não-dogmatismo e respeito pelos direitos individuais e coletivos por parte dos que foram colocados na bancada dos “prós”. Portanto, mais me decepcionou o dogmatismo e insensibilidade de alguns dos “contras” presentes. Dos convidados na assembleia ouvi palavras sensatas e compassivas, mas outras dogmáticas e pouco esclarecidas.  Gostei que se reafirmasse que o nosso país tem necessidade urgente de alargar a possibilidade de cuidados paliativos como parte de um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde) para todos os cidadãos.

A meio da escrita desta crónica, leio o texto da Clara Ferreira Alves (CFA) na revista do Expresso de sábado, 22 de fevereiro. Nem sempre concordo com ela, mas desta vez aprendi muito com o seu texto, comovendo-me até às lágrimas, já que o que a jornalista escreveu estava muito relacionado com a minha experiência pessoal.

Mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes (Galiza). Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

Depois de recordar as suas experiências num certo catolicismo em que foi educada, CFA descreve o seu próprio percurso humano e espiritual, demarcando-se das diferentes religiões – dando aliás uma muito esclarecedora informação. Um texto que revela a mulher culta, sensível à cultura, à arte e à estética, viajada, com um sentido de análise crítica e fundamentada pouco vulgar no nosso jornalismo e verdadeiramente cosmopolita no melhor sentido desta palavra) que ela é.

A “situação-desafio” que orienta o artigo é a descrição da forma como uma família conservadora da elite católica em Espanha reage ao terrível acidente que vitimou de forma cruel e inesperada cinco das suas crianças. CFA descreve os argumentos religiosos de aceitação da tragédia por parte dos familiares a partir das suas convicções católicas. Mas feriram a inquietação religiosa de uma jornalista que, na sua vida, tem coerentemente procurado o “divino”.

O espanhol (galego) Andrés Torres Queiruga é daqueles grandes teólogos que me têm esclarecido o que é o mal, a consciência pessoal e a “vontade de Deus”. De um Deus que não é castigador, mas apenas nos criou enquanto seres para a liberdade, mas limitados – o “mito” bíblico do jardim do Éden explica muita coisa, mas também se completa com a vinda de Cristo como o segundo Adão, segundo S. Paulo.

CFA questiona a “era de um cientificismo devocional” que corre o risco de afastar as pessoas e comunidades da sua mais profunda humanidade e vulnerabilidade. A história (claro que parcelar) da evolução do catolicismo pareceu-me esclarecedora e sublinhou muitas experiências humanas e espirituais que vivemos ou viveremos.

Ferreira Alves termina o seu artigo afirmando: “O sofrimento como condição de santidade (…). Na vida não é bem assim. Na era do cientificismo devocional que é a nossa, a ideia de que não estou autorizada a controlar ou terminar o sofrimento último recorrendo à ciência, não posso querer terminar a dor do meu corpo e o sofrimento moral da dor, que é posto de parte como um apêndice, continua a ser estranha à minha razão. Sem prescindir de um ente divino que usa a compaixão e abomina o martírio”.

Pessoalmente, as Cinzas têm tudo a ver com o que afirmei e citei atrás: porque as “cinzas” não são apenas o pecado, o “pó” que individualmente podemos ser, os pecados da comunidade e da humanidade no seu todo. Recorro ao santo Papa Francisco que aos quatro ventos vem afirmando a existência do pecado, condenando a rigidez e a incapacidade de conversão da Igreja Católica a que pertenço.

A propósito do tempo quaresmal, escrevi recentemente sobre as tentações de Jesus no deserto nas três grandes linhas que são tradicionais ao tempo quaresmal em que vamos entrar: o sentido do jejum em contraponto à abundância, a solidariedade e a partilha em contraponto à ganância e, finalmente, a forma como usamos o poder, o prestígio, a glória em narcísico proveito próprio.

Aguardo a santa celebração das “Cinzas” em que invariavelmente participo. Mas, a propósito das cinzas, também quero reafirmar: “és Filha de Deus” e a tua via é a da aprendizagem do amor incondicional ao jeito de Jesus Cristo. Preciso de muitas quaresmas para atingir esse objectivo, talvez o consiga apenas no meu encontro final com Deus. No entanto, preciso da celebração das cinzas para, melhor e de forma compassiva e solidária, entender aqueles que escolhem, pessoal e conscientemente, a hora de partir para Deus, para a plenitude eterna.

 

[Nota] O endereço electrónico que aqui coloco já me valeu algumas reações muito belas, outras menos, e tudo isso é bom. Passei a estar na lista de correio das Caminhadas pela Vida: talvez me queiram informar e esclarecer, e isso só pode ser bom. Vou lendo o que escrevem e fazem e tento perceber razões no que me parece querer criar um democrático diálogo espiritual e humano. Mas, infelizmente, continuo pouco estimulada por aquilo que leio: não vejo evolução, apenas convicção não dialogante, dogmatismo. Disso tenho pena… mas talvez eu esteja a fazer a mesma coisa. A Vida, a que procuro estar atenta na sua circunstância, o poderá demonstrar. Este facto inspira o meu desejo de aprofundar o que é ser cristã nos dias de hoje sem dogmatismos secundários e vivendo a essência cristã, do Cristo que quis nascer, viver e morrer por nós, ensinando-me o sentido da compaixão, do cuidado e do amor incondicional aos meus irmãos e irmãs, os crentes ou os que se afirmam não-crentes…

Obra de Enrique Mirones, monge do mosteiro cisterciense de Sobrado dos Monxes, na Galiza. Foto © Paulo Bateira, cedida pelo autor

 

Teresa Vasconcelos é professora do ensino superior aposentada e integra o Movimento do Graal (t.m.vasconcelos49@gmail.com)  

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