Da Laudato Si’ à Economia de Francisco de Assis

| 7 Dez 20

“São Francisco de Assis foi um “anormal”, que ninguém compreendeu, nem compreende, nem mesmo o “Cântico das Criaturas”, onde louva uma série de criaturas a que chama “irmãos e irmãs”, se desfez da sua roupa e ousou enfrentar os “seus tempos normais”, uma contracultura.” Ilustração: Giotto, São Francisco dando o seu manto a um mendigo, fresco na basílica superior de São Francisco, em Assis.

 

O bispo de Roma, Papa Francisco, desde a exortação Alegria do Evangelho, passando por inúmeras intervenções, até às encíclicas Louvado Sejas e Todos Irmãos, do debate contínuo sobre sinodalidade, a Querida Amazónia e, agora, o encontro A Economia de Francesco, tem assumido situações de rotura perante aquilo a que estávamos habituados de letargia do entendimento do que é a Igreja nos tempos em que vivemos.

Se a sinodalidade ainda está distante de ser efetiva e determinante de uma Igreja aberta aos sinais de que o Espírito brota para o mundo de hoje, também é verdade que o clericalismo tem sufocado a audácia que Francisco quer florescer. Todas as encíclicas, outros documentos e realizações – inclusive a Jornada de Juventude a realizar em Lisboa –, podem não passar das boas intenções de alguns, perante o assassinato de outros.

A figura de Francisco é diferente da Igreja Católica romana, nas muitas bases da Igreja respira-se um ar inquisitorial, bem diferente da misericórdia proclamada por Francisco. Por isso, a “sinodalidade” tende a ser uma palavra vã, porque constituída só por homens e têm de ser do clero; ora, isso, não é sinodalidade, o Povo de Deus não possui voz, e, quando, tantas vezes, os leigos intervêm, são os “escolhidos” que se fazem ouvir. Mesmo os jovens na Igreja têm um percurso de sinusoide, ora entram, ora saem, conforme as suas idades. Alguma coisa ficará, mas a Igreja precisa de acordar para uma pastoral atenta à sociedade. Tal como Jesus fez no seu encontro com a “inimiga” samaritana, o que constituiu um dos maiores desafios à ordem instalada e que, ainda hoje, tem atualidade.

Expectantes assistimos à sua ousada intervenção Laudato Si’, que curiosamente tem laivos de um livro escrito por Leonardo Boff, Sustentabilidade, O Que é e o Que Não É, já em 2012, documento que contém tudo o que o clericalismo medieval não quer. O nosso clero em Portugal é ainda medieval e, quantas vezes, prepotente ao ponto de não admitir os documentos vindos dos seus documentos e da autoridade papal.

Não vejo, em Portugal, referências na Igreja às questões analisadas n’A Economia de Francesco e só pequeninos grupos estão preocupados com esta semente. Diríamos que passados alguns meses tal vai “cair no esquecimento”. Quando os jovens pretendem que as grandes instituições económicas e financeiras devem desacelerar deixando a Terra respirar, quando leio e ouço assumirem como compromisso a sustentabilidade ambiental, social, espiritual e cultural e apelarem a que os paraísos ficais sejam abolidos, é, claramente, um combate a uma economia ao serviço dos lucros, uma economia neocapitalista, onde tantos ganham, “mesmo a dormir” – penso no que disse, depois, na sua mensagem do encontro A Economia de Francesco, o bispo de Roma, Papa Francisco: que temos de assumir a vocação de São Francisco de Assis, caminhar para uma nova cultura e estabelecer um pacto – Pacto de Assis.

São Francisco de Assis foi um “anormal”, que ninguém compreendeu, nem compreende, nem mesmo o “Cântico das Criaturas”, onde louva uma série de criaturas a que chama “irmãos e irmãs”, se desfez da sua roupa e ousou enfrentar os “seus tempos normais”, uma contracultura. Francisco compreende isso, ao afirmar que “carecemos da cultura necessária que possibilite e estimule a implementação de diferentes visões consubstanciadas em um tipo de pensamento, política, programas educacionais e, mesmo, uma espiritualidade que não se deixe encerrar por uma única lógica dominante”, e proclama uma cultura do encontro, em detrimento da cultura do descarte. Por isso, clama por um pacto – Pacto de Assis –, assente não no crescimento, mas no Desenvolvimento Humano Integral, porque, citando o Papa São Paulo VI “a grandeza da humanidade é determinada essencialmente por sua relação com o sofrimento e o sofredor – a medida da humanidade. Isso é válido tanto para o indivíduo quanto para a sociedade”.

Precisamos de uma grande conversão para entender o tão longínquo profeta Isaías: “Transformarão suas espadas em arados e suas lanças em podadeiras; nação não levantará espada contra nação, nem aprenderão mais a guerra” (Is 2, 4). Esta reflexão sobre A Economia de Francesco, foi o seguimento da Louvado Sejas, ou melhor, a concretização de um dos seus pontos: a ecologia económica. Pode ser – sou tão pessimista –, que todas as cristãs e todos os cristãos e, principalmente, o clericalismo português, compreenda que esta era é de transformação radical, de beleza e ternura. Compreenderá?

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

 

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