
“E sem pensar, assim, de repente, sem mais, demo-nos um abraço. Um grande abraço.” Foto © razoesparaacreditar
Aqui há dias fui a um concerto. Um concerto mesmo, ao vivo, numa igreja, com um grande coro e alguns instrumentos, e mais um órgão, tudo uma maravilha. E as saudades que eu já tinha, as saudades que a gente tem, de ir a concertos assim, não só quando o rei faz anos, mas muito, tipo quase todas as semanas, e estarmos ali, todos juntos, perto uns dos outros, a ouvir e a sentir ao mesmo tempo, um pulsar cá do fundo tão bom… Claro que não foi ainda exatamente assim. Estava tudo de máscara, lá tinha de ser. Estava tudo um pouco afastado nos bancos de correr, lá tinha de ser. Bem… aqui e ali já se foi dando um jeitinho, afinal estamos quase todos vacinados, chega um bocadinho para lá, aqui cabe mais um, ali mais outro, enfim, já a coisa fica mais composta, já o medo também é menos, mas ainda assim…
A dada altura reparei numa pessoa que não via há um ror de anos, pessoa muito próxima de há tanto tempo. Conheci-a e aproximei-me, para dizer olá. Ela não me conheceu. Bastou baixar um pouco a máscara, e… – Ei!!! És tu?!!! És mesmo tu?!!!… Há quanto tempo!!! E sem pensar, assim, de repente, sem mais, demo-nos um abraço. Um grande abraço.
São dois braços, são dois braços
Servem p’ra dar um abraço
Se calhar não se devia. Mas que é que se há-de fazer? Que é que se pode fazer? Aquilo foi quase instintivo, foi sem pensar, foi como fazíamos “antigamente”, um singelo, natural, naturalíssimo abraço. (Depois lá voltámos a pôr a máscara, quase não falámos, foi só uma espécie de olá, tínhamos de ir às nossas vidas, mas aquele abraço, aquele abraço ninguém no-lo tira…). Estamos, por esta altura, naquela fase em que já nos vamos chegando mais perto uns dos outros, mas ainda não sabemos exatamente como fazer. Um cumprimento de cotovelo? Um toque de punhos fechados? Um aceno só de olhos e de dedos? Um toque prudente por cima das roupas? Hesitamos, não sabemos bem, uns vão mais por aqui, outras mais por ali… Mas o abraço, ai!, o abraço puxa por nós, ai não que não puxa!
Assim como quatro braços
Servem p’ra dar dois abraços
Se calhar não se devia. Mas já lá vai tanto tempo… Foi a primeira coisa que tivemos de deixar cair, mesmo antes da chegada das máscaras, os abraços e os beijos. O corpo. O toque. O cheiro, o macio, o redondo, a pele. A pele. O toque. Parece que foi ontem, mas também parece que foi há mais de mil anos, numa outra era, numa outra vida, quando de repente nos pusemos mais longe uns dos outros e começámos a atravessar esta espécie de deserto, a boca sequíssima, com sede de beijos, os braços caídos, com fome de abraços. E lá nos habituámos, que remédio, nos primeiros tempos ainda nos fugia o corpo para o outro, depois menos, menos, e depois as máscaras, e dois metros de distância social, e…
São dois braços, são dois braços
Servem p’ra dar um abraço
Habituámo-nos? Mais ou menos. Já lá vai ano e meio desta coisa e eu continuo, volta e meia, a sair de casa esquecendo-me de levar uma máscara. Ainda hoje. Quantas vezes! E já lá vai ano e meio. Aliás, esta semana tive sorte com o concerto a que fui. Porque dias antes, num outro evento público, lá fui todo lampeiro e, ao chegar, dei de caras com uma fila enormíssima que mal andava, com as pessoas a entrar uma a uma, devagarinho, e temperatura, e gel nas mãos, e distância, e vamos lá, e a certa altura parou a fila, desculpem, já não cabe mais ninguém, como assim?, há sempre aqueles lugares na coxia lateral, sentamo-nos nas escadas, cabe sempre mais um, não, nada disso, são as regras, agora não se pode, não podemos deixar entrar mais do que, desculpem, não podemos fazer nada, são ordens… E lá vim embora. Sim, embora. Não me lembrara de nada disso quando resolvera ir, é incrível como a cabeça ainda não se habituou (ou é o coração?…) a estas novas rotinas da vida fora da casa de cada um.
Está a passar? Está mesmo? E alguma vez passará de todo, sem medos, sem dúvidas, sem hesitações?… Gostava de saber. Por agora, na travessia do deserto já se apanha aqui e ali um pequeno oásis, um gole de beijo fresco para matar a sede nesta boca, uma sombra de abraço quente para matar a fome neste corpo…
E assim por aí fora
Até que quando for a hora
Até quando for a hora de nos esquecermos da máscara e não faz mal, de nos acabar o gel e não faz mal, de ficarmos no concerto a ouvir aquela música maluca meio encostados uns aos outros e não faz mal, até nos olharmos pertinho pertinho e não faz mal, até nos tocarmos e não faz mal, até nos beijarmos e nos abraçarmos e não faz mal. E até faz bem. Nessa hora…
Vão ser tantos os abraços
Que não vão chegar os braços
P’ra os abraços.
(A canção é do Sérgio Godinho, obrigado. Um abraço para ele!)









