Da memória dos sábados e da ausência de escândalo

| 19 Mar 21

Fachada principal do antigo edifício do Patriarcado, no Campo dos Mártires da Pátria, durante o Festival Todos 2016.

Fachada principal do antigo edifício do Patriarcado, no Campo dos Mártires da Pátria, durante o Festival Todos 2016. Foto © RickMorais/Wikimedia Commons

 

Creio que seria uma vez por ano. Era aos sábados à tarde, e creio que seríamos sempre os primeiros depois do almoço. Outros se nos seguiriam, mas não me lembro de os ver.

A equipa diocesana da JEC (depois MCE) ia prestar as vassalagens ao cardeal-patriarca de Lisboa, dizer-lhe como andávamos, o que fazíamos. Era o tempo de D. António Ribeiro, calmo e imponente com as suas mãos grandes de pianista, sibilino mas com aquele ar acinzentado de doente macilento, a boca cerrada, os lábios finos em arco a descair nas pontas, a transmitir mais que uma melancolia, antes uma deprimência, uma angústia abafada talvez pela fé. Era como que um homem castigado, passando uma imagem de sofrimento, mas um sofrimento vestido rigorosamente de cardeal, das meias vermelhas ao solidéu, passando pela batina negra com botões em tons escarlate cardinalíceo, a faixa na cintura a condizer. E havia o anel, claro, exuberante que, desconfio – a memória atraiçoa-me – seria osculado com relativo respeito antes e depois da audiência.

Éramos recebidos num salão da mais requintada nobreza de outrora. Um “príncipe da Igreja” catalisado pelo ambiente aristocrático. Tudo isto tornava o ambiente um pouco intimidante para os jovens plebeus, apesar de os salões se mostrarem um pouco surrados pelo tempo e pelo sol.

Encontrávamo-nos à porta, no 46. Tocávamos à campainha e éramos atendidos por alguém que nos acompanhava cerimoniosamente pela imponente escadaria de pedra acima. Estagiávamos numa sala um minuto para sermos logo introduzidos num vasto salão ornamentado, tectos trabalhados, vetusto mobiliário digno dos melhores museus europeus, entre os quais um grande sofá do século XVIII onde nos sentávamos de costas para a janela que dava para o Campo de Santana, panos, veludos, tapetes, tapeçarias, coisas e coisas e coisas.

E aí esperávamos um minuto pelo Senhor D. António, que, pontualmente, aparecia vindo de uma porta lateral, à nossa direita.

Os jovens plebeus sempre se aguentaram bem nas suas posições irreverentes, porém respeitadoras do Senhor Patriarca, como era chamado. Pedíamos mais assistentes religiosos que tivessem capacidade de estar com jovens (e como eramos exigentes!, e como nos ficava bem essa exigência que tanto era de fé como de intelectualidade em fase de aprendizagem!), reclamávamos por mais apoio e compreensão da hierarquia.

Em troca oferecíamos trabalho nas escolas e uma fé militante pela transformação social, pelo anúncio de um Jesus Cristo que não olhava o mundo com os olhos da sua representação em pagelas piedosas e lamechas – um horror para todo o sempre detestado – mas com um ar interpelativo e firme de quem um dia nos pediria a accountabillity dos talentos, e nos fazia mexer na procura de um mundo mais justo e fraterno. Seríamos solidários e responsáveis, politicamente interventivos sem as baias ideológicas conservadoras do costume que atrofiavam e distorciam a fé, fazendo dela mero instrumento político-partidário. “A História nunca pode ser travada”, cantávamos, e praticávamos o “ver, julgar e agir” da Acção Católica o melhor que sabíamos. Queríamos uma fé não ideológica e sem compromissos pré-estabelecidos, e desejávamos uma prática religiosa comprometida com o povo de Deus que entendíamos ser todos, mas todos, os que caminhavam sobre a Terra.

E saímos satisfeitos com o diálogo, felizes por uma bicada na hierarquia e pelo acolhimento e sensatez do Patriarca que nos recebera e abençoara.

Tudo isto seria hoje já impossível, mesmo com outros actores, claro. O edifício do Patriarcado foi abandonado pela Igreja que se reinstalou, ainda para melhor, em São Vicente de Fora. O palácio que ficou para trás nunca foi reocupado, nunca mais ninguém subiu a escadaria de pedra para audiências, o tempo e a incúria deixaram marcas terríveis, houve planos e planos nunca concretizados, e também outros planos, de novo por realizar.

Não houve indignação nem tumulto nenhum – o que se lamenta – e hoje, décadas depois da saída do último Patriarca, novos planos salvaguardados por uma imensa ganância ignorante pretendem escavacar o palácio, desde o gradeamento metálico e empedrado fronteiros, até aos interiores, porventura deixando uns estuques aqui e acolá, uns toques de nobreza para cativar novos-ricos futebolísticos ou russos ou brasileiros ou outros, não interessa, desde que tragam moeda verde, os pretensiosos. Tudo abençoado por nenhum patriarca, mas pelas autoridades civis do nosso tempo.

Um palácio que qualquer cidade europeia agarraria com amor e fúria, muita fúria em o querer para si, é aqui deixado à ganância alarve de arquitecto manhoso e de desqualificado construtor civil. Sem escândalo, evidentemente. De resto, já nem há audiências aos sábados, ora.

 

 

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