
Frescos do Salão das Artes Liberais e dos Planetas do Palácio de Trinci, Foligno, Úmbria. (Itálica). Gramática de Gentile da Fabriano (1411-1412).
É genericamente consensual que uma boa gramática, além de ser parte importante da nossa linguagem e de desempenhar um papel eficaz na comunicação que temos uns com os outros, é fundamental para a construção, leitura e compreensão de qualquer texto. Uma gramática consiste essencialmente num conjunto de regras e estruturas que estipulam a melhor maneira de organizar as palavras em frases e sentenças, evitando assim que as mensagens se tornem confusas e difíceis de entender.
Conforme o padre ortodoxo Alvin F. Kimel[i], teria sido o teólogo George Lindbeck quem na sua obra The Nature of Doctrine teria proposto uma comparação entre religião, constituída por um conjunto de crenças, histórias, símbolos, rituais, práticas morais e ascéticas, e um sistema de linguagem. Tendo isto em mente, as regras gramaticais poderiam ser classificadas primariamente como práticas, ajudando a colocar em ordem a vida da Igreja, tanto individual como comunitária. As regras gramaticais também poderiam ter como função articular o discurso teológico. Assim sendo, uma gramática teológica poderia criar as bases para o estabelecimento de regras que ajudassem a estruturar, organizar e sistematizar as crenças, doutrinas e ensinos adstritos a determinado pensamento teológico. Essa gramática teria também de ter em conta que o discurso teológico está igualmente impregnado de metáforas, símbolos e analogias, usados, aliás, para descrever as realidades espirituais e o inefável. Também, para se compreender bem os textos sagrados, seria necessário que se fizesse uma análise à sua morfologia, sintaxe e estrutura gramatical, de maneira a expor potenciais matizes, ênfases e interpretações específicas que poderiam influenciar o pensamento teológico. Por último, da mesma maneira que uma gramática da língua evolui ao longo dos tempos, uma gramática da teologia não deixa de ser influenciada por diversos fatores, entre os quais os culturais e históricos, levando a que os sistemas, interpretações e conceitos teológicos possam mudar ao longo dos tempos.
Numa importante obra escrita por Joe Robert, A Grammar of Christian Faith: Systematic Explorations in Christian Life and Doctrine, aponta-se a relevância de uma boa gramática para a vida cristã, cujo objetivo seria o confrontar a desordem generalizada da linguagem e das práticas cristãs nos dias de hoje. Num mundo altamente secularizado e onde a verdade é relativizada, a fé cristã deve fornecer maneiras especiais de falar e agir a fim de dar sentido, significado e esperança à vida humana. Robert defende a tese de que aprender a falar a linguagem cristã, tanto na Igreja, como na vida, é crucial para se aprender a ser cristão. Mas que linguagem é a mais adequada no meio de tantas polifonias hermenêuticas, litúrgicas e doutrinais existentes no seio das igrejas cristãs? Será que, ao invés de supor que a linguagem teológica deva estar em constante atualização para ser relevante para o mundo, se deva antes recuperar esses conceitos primordiais do cristianismo? A gramática ainda será a mesma? Serão questões que deverão certamente estar sempre em aberto sob pena de se remeter o discurso teológico para os extremismos.
O Papa Francisco falava em tempos acerca da necessidade de a Igreja usar uma gramática da simplicidade, que descomplique muito esse linguajar teológico, por vezes tão complexo e difícil de entender. Seria necessário que a mensagem cristã pudesse ser compreendida até pelos mais simples, de incidir sobre o mais básico, de voltar ao fundamental. Dizia ele, nesse discurso proferido ao episcopado brasileiro: “O que a Igreja deve sempre lembrar é que não pode afastar-se da simplicidade; caso contrário, desaprende a linguagem do Mistério. E não só ela fica fora da porta do Mistério, mas, obviamente, não consegue entrar naqueles que pretendem da Igreja aquilo que não podem dar-se por si mesmos: Deus. Às vezes, perdemos aqueles que não nos entendem, porque desaprendemos a simplicidade, inclusive importando de fora uma racionalidade alheia ao nosso povo. Sem a gramática da simplicidade, a Igreja se priva das condições que tornam possível «pescar» Deus nas águas profundas do seu Mistério.” [ii]
Se a maioria dos nossos erros são gramaticais, conforme afirmou o escritor Aldous Huxley[iii], talvez estejamos a empregar inadequadamente a gramática do Evangelho. Focamo-nos demasiadamente na semântica teológica, em significados inflexíveis e rígidos, esquecendo que, por vezes, só podemos falar desse Mistério que é Deus, através do discurso imagético. Talvez por isso aquilo que de melhor poderíamos mostrar ao mundo seria essa parte da gramática que releve quanto Deus é bom (Salmos 34:8), uma gramática cheia da Sua graça e eterna misericórdia. A ser verdadeira a frase atribuída a São Francisco de Assis (“Anuncie o evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras”), a gramática do evangelho não articularia somente o discurso, mas essencialmente a vida vivida de cada um daqueles que se afirmam seguidores e discípulos de Jesus, em cada gesto ou dádiva. Uma gramática de serviço e graça.
[i] https://afkimel.wordpress.com/2019/01/27/gospel-grammar-and-the-infallibility-of-dogma/
[ii] https://www.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2013/july/documents/papa-francesco_20130727_gmg-episcopato-brasile.html
[iii] https://biblioklept.org/2018/07/16/breughel-aldous-huxley/
Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.










