Os tumultos destes dias recordam uma viagem recente às Fiji. O texto foi escrito lá. Saiu agora da gaveta.
A palavra Bula (diz-se Boo-lá) é invariavelmente o contacto primeiro com qualquer residente nas Fiji. Soa mesmo um simples Olá. A palavra designa vida. O que também nos remete para a saudação tantas vezes usada em Portugal do nosso “viva!”
Se um Deus da natureza existe, acho que o encontrei esta semana.
Das ilhas do Pacífico estavam aqui oito. A saber, Fiji, Ilhas Marshal, Tonga, Samoa, Papua Nova Guiné, Tuvalu, Ilhas Salomão e Kiribati.
Imaginemos então. Oito países. Pobres. Seis, talvez sete representantes de cada. Maioritariamente ministérios. No total, umas 60 pessoas. Juntem-se organizadores, facilitadores e peritos. Coisa séria. Institucional. Agendas carregadas. Política à mistura.
Imaginemos agora. Oitenta almas de mãos dadas. Um círculo. A oração da manhã. A prece por um dia frutífero. De entendimento. De partilha. Um fim último maior que a soma destas partes. Todos os dias. À vez. Cada país uma oração. Participada por todos.
Imaginemos finalmente as vozes harmónicas. Belas. Como só os povos do Pacífico. Elas primeiro. Eles depois. A melodia que faz vibrar as cordas interiores. A alma liberta. A devoção que não pede licença à razão. Uma espiritualidade outra. A lágrima que se solta.
Lembremos: falamos de políticas públicas. Tratamos portanto de coordenação. Colaboração institucional. Cooperação entre Estados. Ali, justamente, onde a razão não chega para mudar o futuro. É preciso mais. É preciso um saber para lá da lógica. Da evidência. Dos gráficos e estatísticas. Dos ciclos eleitorais.
Aprendi isso aqui nas Fiji. É possível. É possível conciliar ciência e espiritualidade num programa de trabalho institucional e político. Não é fantasia. Também não é ingenuidade. Creio. É toda uma matriz humana, íntegra, aqui presente. Generosamente presente. Firme na sua essência.
Aprendi outra coisa. Mais profunda. Reduziu a nada o que achava ser a minha tolerância activa.
No grupo estavam os meus colegas. De todo o mundo. Culturas diferentes. Muito diferentes. Muçulmanos, hindus, judeus, cristãos, ateus e agnósticos. E tudo o resto que não sei.
No momento pedido, todos deram as mãos. E oraram. Todos os dias. Sem sabermos a quem. Pouco importa a quem. Pouco importa porquê. Importa a sensibilidade ética de saber que ali se decidiam vidas de gerações futuras nas ilhas do Pacífico. E isso bastou. Não conheço horizonte mais belo.
Soubéssemos nós hoje, no Ocidente, aprender com estas ilhas.

Pintura anónima das ilhas Fiji. Foto © Luís Castanheira Pinto
Luís Castanheira Pinto é licenciado em economia, tem-se dedicado às questões do conhecimento, aprendizagem e desenvolvimento de competências e trabalha no Banco Mundial, em Washington DC (Estados Unidos). É casado e pai de três filhos. Viveu anteriormente no Porto, Lisboa, Bruxelas e Copenhaga.





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