
“A pura devoção é aquela que brota do coração daquele que se aproxima genuinamente de Deus.” Foto © Nikko Tan | Pexels
Creio que de alguma forma já nos deparámos com uma religião fria e vazia. Para os que assistiram a períodos de reavivamento espiritual há uma lembrança dos tempos sérios da devoção. Para outros, a devoção dos antigos chegou em forma de uma tradição, marcada por rituais muitas vezes sem significado espiritual. Nós, provavelmente, enquadramo-nos numa ou noutra categoria. Ao estudar a história da Igreja descobre-se que o ponteiro entre a devoção e a fria tradição raramente conseguiu encontrar um meio-termo. Ora a extraordinária devoção era alcançada, muitas vezes acompanhada por uma falta de rigor doutrinário, ou então a tradição era tudo o que o povo tinha e, pelo contrário, de mãos dadas com uma rígida dogmática ou ortodoxia. Será que não é possível encontrarmos um equilíbrio entre a pura devoção e tradição?
A pura devoção é aquela que brota do coração daquele que se aproxima genuinamente de Deus. A tradição, por sua vez, são factos ou dogmas transmitidos de geração em geração sem mais prova autêntica da sua veracidade do que a sua própria transmissão. A devoção está conectada com a experiência, com o sentimento, enquanto a tradição com a dogmática, ou seja, com as regras. A partir deste prisma não é difícil perceber que a tradição, embora muitas vezes boa e saudável, afaste os fiéis de uma relação com o divino. É necessário encontrar um equilíbrio nas comunidades religiosas que combine de forma agradável a tradição e a experiência. Ao mesmo tempo que se defende uma dogmática irrepreensível, e que é necessária para manter a ordem da fé, deve apelar-se a que a vivência seja um bom testemunho das regras que se propõem. Só a experiência poderá corromper a doutrina, mas só as regras poderão afastar as vidas. De facto, qualquer exagero num dos lados da balança provocará abusos, às vezes irreparáveis, nas religiões. O resultado disto? São os escândalos a que se assiste em todos os quadrantes. Se os líderes enfatizarem regras sem consideração pelo ser humano veremos abusos de todo o tipo no meio das comunidades. Se os líderes enfatizarem padrões de vida sem consideração pela doutrina veremos heresias. Os líderes religiosos e os seus fiéis precisam de uma doutrina para a vida, uma ortodoxia de mão dada com a piedade. E só quando isto for vivido é que comunidades e sociedade poderão ver o benefício da religião para a construção do ser humano.
Como é então possível ver este equilíbrio entre ortodoxia e piedade? Olhar. Creio que o segredo é olhar para dentro e para fora da religião. O ser humano é dotado de características pessoais, mas também desenvolvidas através de processos culturais. Não é possível construir uma ortodoxia sem olhar para ele. Por outro lado, também não é possível construir uma ortodoxia refém de gostos pessoais ou de tendências culturais. Os livros religiosos que devem dar origem à construção da ortodoxia são demasiado valiosos para serem interpretados de ânimo leve. Apenas uma hermenêutica correta poderá levar o leitor a sair das páginas escritas pela ortodoxia para uma aplicação viva e relevante para o ser humano. Esta é a teologia prática que é necessário encontrar. Aquela que a cada época se torna relevante e dá as respostas que o ser humano necessitado tanto procura.
Será que o que está dentro da religião dá uma resposta adequada ao que está fora de si? Não creio que este exercício seja fácil. Primeiro, porque requer uma análise profunda dos dogmas e das tradições que podem estar equivocados pelo tempo. Por outro lado, sair das torres religiosas poderá ter um custo para o conforto pessoal. Não é fácil interagir com quem não conhecemos, muito menos admitir que temos algo a aprender com o que era estranho até ali. Por isso é que o equilíbrio entre a devoção e a tradição, entre a ortodoxia e a piedade, não é tarefa apenas para os líderes religiosos. É tarefa para todos porque a fé também está disponível para quem a quiser abraçar. Chamem-se os jovens, os leigos, os doutores e as donas de casa para voltar a construir comunidades atraentes que façam calar os inimigos da fé.
Débora Hossi é gestora de redes sociais; considera-se peregrina, integra a Missão Evangélica Intercultural e considera-se apaixonada por Jesus e pelos seus ensinamentos. Contacto: deborahossi@gmail.com









