Foi na Páscoa de 1959. A Índia queria Goa, Damão e Diu. Portugal enviou para lá tropas e, para evidenciar a presença portuguesa, os finalistas do Colégio Militar foram presenteados nessa Páscoa com uma visita a Goa. Eram outros tempos, pacíficos mesmo!
Na ida fizemos uma visita ao Líbano. Percebi que era um país diferente, de gente parecida connosco, com duas religiões diferentes, cristãos e muçulmanos. Mas não percebi que os cristãos não eram católicos latinos e que os muçulmanos eram sunitas e xiitas. Todos viviam em conjunto. Fomos até Baalbek. Que maravilha! Primeiro a floresta de “cedros do Líbano”, depois os magníficos e enormes templos romanos. Nunca mais esqueci. Voltei lá há uns 20 anos, mas já não havia árvores na montanha. O amigo que me levava explicou que as árvores foram arrasadas para permitir melhor tiroteio na guerra civil. Baalbek lá estava, mas a estrada pelo vale de Bekaa tinha movimento de carros armados e com as bandeiras negras do Hezbollah. A paz desapareceu e a beleza também. Os israelitas agora até atacam na zona de Baalbek, onde os xiitas sempre viveram.
No regresso encantámo-nos com o Cairo, e as pirâmides, e a esfinge. Ainda não havia turismo e podíamos andar à vontade, subir às pirâmides, andar de camelo, sei lá… E tivemos um pôr do sol sobre as pirâmides visto do palácio que fora do rei Farouk. Que maravilha! As pirâmides avistavam-se da cidade e estrada fora. Voltei várias vezes. A cidade foi-se alargando até que as pirâmides só são visíveis quando se chega perto. Não foi a guerra, mas o crescer desmedido da grande cidade. Difícil viver no Cairo, sobretudo quem pouco tem para viver!
Depois foi Roma e a visita ao Papa João XXIII [1958-63]. A cidade encantou e continua a encantar. O bom Papa João XXIII também encantou e continua a encantar. A simplicidade, o bom humor, o carinho com que recebeu esta mão cheia de rapazes fardados e destinados a ser oficiais. Foi-se apresentando como tendo sido sargento quando jovem padre. E foi-nos dizendo que os valores militares são bons e que servem para a paz. Foi-nos aconselhando a amizade, a verdade, a camaradagem, o respeito pelas pessoas e pela sua dignidade. Não me lembro já das palavras exatas que nos disse, mas apenas que eram palavras para a vida. E fiquei a lembrar sempre o bom Papa João e o gosto pela Verdade que me transmitiu e não esqueci.
Vivemos hoje tempos bem diferentes. Em Goa já domina o hinduísmo e, na Índia, a atitude de dominação religiosa é hoje notória e restritiva da liberdade religiosa. No Egito também vai sendo difícil a liberdade religiosa depois da Primavera Árabe, mas sem que se tenha tornado uma teocracia. O Líbano deixou de ser um país de diálogo inter-religioso e os xiitas, tradicionalmente mais pobres, afirmam-se com força contra a teocracia de Israel. É um país despedaçado, ameaçado, a que querem roubar o futuro. Mas em Roma, os Papas Francisco e Leão continuam João XXIII e avançam na procura da paz, do diálogo, do caminhar juntos, do acarinhar os mais pobres e marginalizados.

Numa imagem partilhada a 11 de março, pelas forças armadas israelitas, soldados do exército de Israel (com informação militar no equipamento desfocada na origem) operam no sul do Líbano, no âmbito da chamada “Operação Leão Rugidor 2026”. Israel voltou a invadir esta região libanesa, dias depois dos ataques israelo-americanos ao Irão. Foto © IDF Spokesperson’s Unit, via Wikimedia Commons.
A Igreja afirma-se seguindo Cristo. Olho à roda e vejo a tristeza da mentira, da traição, da sede de poder, da falta de respeito pela dignidade dos outros, da falta de consideração pelos homens e mulheres do nosso tempo. O presidente do país mais poderoso considera-se acima de todos, faz guerra e reclama o Nobel da Paz, prende um chefe de Estado e fica senhor das riquezas de um país, e mata uma cúpula governamental quando, ao que parece, avançavam para discutir. Os países mais teocráticos do mundo guerreiam-se esquecendo absolutamente os valores das suas religiões! Nada sobra, apenas ódio e vingança. O país da Bíblia age como se imagina antes de Jesus, lendo o que ele pregava, que mostra bem a sede de poder e a verdade mentirosa dos sacerdotes, fariseus e escribas. O outro inimigo teocrático despreza o povo em favor da lei, das regras, dos vestidos e dos cabelos tapados.
Que é uma guerra onde logo no primeiro dia se matam 160 meninas de uma escola situada numa cidade de um espaço seco e árido? Que, afinal, mata todas as guerras porque nenhuma guerra pode ser ganha quando destrói o âmago da sociedade.
Fico doente com isto. Que pode fazer um octogenário que há umas dezenas de anos descobriu que tinha uma vida que lhe sorria abraçando a Verdade e que seguiu vivendo sorrindo para a vida que lhe foi sendo dada pela mulher, pelos filhos, pelos netos. Graças a Deus! E nesta tristeza de guerras, de mortes e de humilhações podemos alegrar-nos porque a mensagem de Jesus tem toda a coerência, abafa todas as mensagens de ódio, levanta-se contra todas as humilhações, cura-nos de todos estes mal-estares. E deixa-nos a Esperança de que alguma coisa melhorará para os nossos filhos e netos, e para tanta gente que hoje sofre, desespera ou se entristece.
Luis Santos Pereira é professor emérito da Universidade de Lisboa e investigador no Instituto Superior de Agronomia, tendo colaboração com colegas dos países envolvidos na guerra do Médio Oriente.
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