“Da poluição mental”

| 31 Mar 2024

Deserto é espaço de meditação. Foto © Patrick Schneider | Unsplash

É importante libertar a mente da poluição. Foto © Patrick Schneider | Unsplash

 

 

Assim surge mencionada pelo Papa Francisco na Laudato si’ (n. 47) uma vertente da situação actual. Mas ele não a descreve, apenas a relaciona, de passagem, com o excesso de informação e de dados, ao lado de outros tipos de poluição: atmosférica, visual e acústica (nn. 44, 147, 184).

Poderia também citar aí a poluição semântica, ou seja, a perda de significado das palavras ou a crise da linguagem, a pululação metastática da mentira e de notícias e factos falsos, a infravaloração da verdade, a pseudociência, o fundamentalismo religioso, o engano programado e intrusivo de muita publicidade. Poderia, ademais, aduzir a poluição electrónica (?!) em que muitos, na rua, nos transportes públicos, nas salas de espera, à mesa do restaurante, quais flamingos cibernautas se atolam, curvados, na ininterrupta e obsidiante aluvião imaginal de todo o tipo e feitio. É bem verdade que a rede electrónica mundial se tornou tribuna ou feira da ladra onde se encontra toda a espécie de ofertas e opiniões contraditórias, xamanes apocalípticos que profetizam a ruína da economia, da Europa, da Igreja católica e da religião, teólogos e pregadores de circunstância com o anúncio de castigos divinos, influenciadores autopromovidos, celebridades e aspirantes a tais, conselheiros de auto-ajuda e gurus de pareceres opostos sobre erotismo, saúde, alimentação, e por aí fora. E nem se fale dos comentadores políticos….

Se a ofuscação psíquica e espiritual jorrasse apenas do nosso íntimo com os seus fantasmas, temores, devaneios e ilusões, menos mal. Ela sempre existiu e sempre em nós borbota, como todos sabemos por experiência, e já há muito a denunciaram antigos filósofos e grandes mestres espirituais.

Há em nós, assim parece, um pendor funesto para o entenebrecimento psíquico e espiritual, para o contágio e o mimetismo grupal, para a identificação excessiva e anómala com os grupos, as organizações e as instituições (mesmo veneráveis) de que fazemos parte, esquecendo e minorando assim a nossa profundidade pessoal, a vigilância crítica, a nossa vera individualidade e ipseidade, que temos de descobrir e amadurar, mas sempre no laço com os outros e na contenda connosco próprios. Será por causa do nosso fundo animal, no qual ainda há resquícios do “imprinting” descoberto e teorizado pelos etólogos?  Será devido à ‘angústia social’ (S. Freud) ou à contaminação pela “psicose das massas” (C. G. Jung)? Os mestres espirituais sempre denunciaram a effusio ad exteriora, a dispersão e a vagabundagem na exterioridade, que agora irrompe e se nos impõe instantaneamente através dos dispositivos electrónicos. Residirá aqui decerto a raiz, a condição de possibilidade das outras formas de poluição, pois todas elas, no fim de contas, são ressonância e fruto do conceito que das coisas fazemos e da nossa acção sobre as mesmas, resultado de um conhecimento sem amor e reverência para com o real, na sua riqueza inaudita.

Mas em que consiste a poluição mental? É uma noção vaga, porém, de muitos cambiantes. Ao deambular pela internet à busca de conteúdos seus deparei com vários matizes.

Há quem se fixe na vertente psicológica e, entre os elementos poluentes, nomeie a perplexidade no pensar que causa nas vidas ansiedade e tensão; ou então a chusma de ideias negativas imaginárias que geram temores e assombrações que nos trituram a mente. Além disso, a informação oceânica e invasiva, eivada de ingredientes corrosivos na forma de videoclipes e podcasts de toda a espécie, assola e importuna a reflexão e as decisões, promove a fuga do silêncio, engendra uma era de distracção e uma grave crise da atenção (assim segundo M. B. Crawford, World beyond your head. On Becoming an Individual in an Age of Distraction, 2015).

No campo sociológico há denúncias firmes do efeito ilusionista e da desrealização do real operados pela “ditadura branda dos media” (Neil Postman); da imersão e servidão tecnológica; da decadência da racionalidade abstracta e da finura intelectual na sujeição ao homo videns (G. Sartori), ou seja, à ditadura do olhar (a famosa “concupiscência dos olhos”, de que fala a Bíblia em 1 Jo 2, 15-17). Acrescente-se ainda o consumismo da cultura de massa e o vazio ético; a inconsciência ecológica e o ruído da indústria do entretenimento; o individualismo e o narcisismo epidémicos que exigem só direitos (entitlement) e não deveres.

Quanto à crítica da cultura, algumas vozes denunciaram, já há décadas, a trivialidade metafísica (Max Scheler), a “departamentalização do espírito” e o enfraquecimento do indivíduo no seio de uma sociedade totalmente administrada e de “vida mutilada” (T. Adorno), a “multidão solitária” de seres dirigidos e comandados por outros e a partir do exterior (D. Riesman).

E oiça-se, com uma tonalidade diferente, a voz actual de Fernando Savater, que fustiga a presente profusão de ídolos:

«… é inegável que os ídolos gozam de excelente saúde. Vivemos num mundo em que, multiplicados pelas comunicações e pela imagem, a sua presença é quase avassaladora. Temos ídolos no futebol, no ecrã, na canção, no dinheiro, no triunfo social ou na beleza. Convivemos com idolinhos portáteis e minúsculos, alguns quase simpáticos ​​e cativantes, como o E.T. de Spielberg, ou outros que se tornaram próximos e cordiais. Também os há ferozes, que exigem sacrifícios de sangue. São os ídolos da tribo. Os que convertem o seu grupo, a sua nação, a sua facção num ídolo. São os que infelizmente costumam realizar sacrifícios humanos. (Los diez mandamentos en el siglo XXI, 2004, 12).

As consequências para a configuração pessoal, como é de esperar, não são boas. Já no século XIX, S. Kierkegaard escrevia, nas páginas do seu Diário, que alguém, ao tornar-se homogéneo com os contemporâneos, é digerido, “assimilado” e, por isso, devorado pelo seu tempo.

E ainda não rompera então, embora já se anunciasse, o frenesi dos nacionalismos, fascismos e marxismos que, ao absolutizarem a nação, o povo e a classe, anularam o sujeito individual. Hoje, no novo contexto dos populismos e do imaginário electrónico, dos tribalismos grupais, da feira e do mercado de sentido, da perda da memória e da ignorância da história e do passado, ou na celebração do simples presentismo e no fomento de atitudes consumistas, como será possível evitar a perversão da linguagem e a intoxicação mental que obnubila a sociedade civil? Como resguardar a vida interior (ainda existirá?) da erosão pela banalidade, da desistência do futuro pela falta de esperança? Às vezes, é difícil resistir à impressão de que o chamado Homo sapiens sapiens é, afinal, insipiens insanus, insensato e adoidado. E quão longe parece estar já o tão celebrado Iluminismo que, segundo certos filósofos, ficou aquém do seu projecto ou começou logo desfigurado e pervertido.

Grassa, pois, a acédia, esse mal tão temido pelos antigos monges, feito de depressão, desafeição pelo recolhimento, atracção e sedução pelo mundo exterior, cansaço, tédio e abulia, a que corresponde, hoje, em muitos a “fatigue d’être soi” (assim para o sociólogo Alain Ehrenberg)”, a debilidade do eu (“minimal self, segundo Christopher Lash) e outras patologias.

Como resistir à poluição mental, à poeirada de opiniões sobre tudo e sobre nada, que nos afecta o olhar e nos rouba a lucidez?

O grande poeta espanhol Blas de Otero recomendava algures agir ao sabor do vento, mas contra a corrente, isto é, ver o que que se passa à nossa volta, com discernimento, escolher o que nos torna mais humanos e furtar-se à pressão do anónimo multitudinário. E recorde-se o dito do célebre jornalista inglês Malcolm Muggeridge: “Never forget that only dead fish swim with the stream!

A filosofia, que tem muitas ‘mansões’ e departamentos, também pode ajudar. Ela apresenta-se, numa das suas feições, como “exercício espiritual”. E aqui, se seguirmos a sabedoria antiga, a tarefa, difícil, é ‘examinar a vida’ e praticar na praça pública a ironia (com Sócrates) em face da verbiagem dos múltiplos clãs ideológicos; ganhar uma certa resistência moral e anímica (com os Estóicos), aprender a administração e o cálculo dos desejos e prazeres, além de um certo humor (com Epicuro)! Há muitos outros mestres, mas se com estes aprendêssemos algo, já nem tudo estaria perdido…

O cristão, porém, apesar de hoje já não existir uma “ecologia da fé” (foi ela, alguma vez, real?), que lhe sirva de esteio sociológico, possui recursos ilimitados na vida de oração, no exercício da contemplação serena e na vivência coral da liturgia, cuja finalidade, no seio da família eclesial e com Cristo celebrante, é louvar e glorificar Deus. Descobrirá aqui o seu rosto no meio de muitos outros rostos e aprenderá assim a harmonizar a mais profunda individualidade com a mais intensa comunidade – o que a política nunca consegue. Daí fluirão os dons do Espírito Santo, hoje tão necessários, sobretudo a sabedoria, o entendimento, o conselho, a fortaleza, a ciência – fontes e sintomas, todos eles, da liberdade – de uma tríplice liberdade: liberdade de (subserviências de toda a espécie), liberdade para (a justiça, a intrepidez moral) e liberdade com (todos os nossos próximos).

E termino citando o grande filósofo russo N. Berdiaev: “Ao invés de Schleiermacher e de muitos outros, creio que a religião é o sentimento, não de dependência, mas de independência do homem.

Se Deus não existe, o homem depende inteiramente da natureza e da sociedade, do mundo e do Estado. Se Deus existe, o homem é um ser espiritualmente independente, e o seu comportamento perante Deus é determinado pela sua liberdade, e não pela sua dependência. Deus é a minha liberdade e a minha dignidade de ser espiritual.” (Essai de biographie spirituelle, Paris, 1992, p. 222).

Artur Morão é professor aposentado e tradutor.

 

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS”

Entrevista à presidente da Associação Portuguesa

Catarina Pazes: “Sem cuidados paliativos, não há futuro para o SNS” novidade

“Se não prepararmos melhor o nosso Serviço Nacional de Saúde do ponto de vista de cuidados paliativos, não há maneira de ter futuro no SNS”, pois estaremos a gastar “muitos recursos” sem “tratar bem os doentes”. Quem é o diz é Catarina Pazes, presidente da Associação Portuguesa de Cuidados Paliativos (APCP) que alerta ainda para a necessidade de formação de todos os profissionais de saúde nesta área e para a importância de haver mais cuidados de saúde pediátricos.

Apoie o 7MARGENS e desconte o seu donativo no IRS ou no IRC

Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Em memória das "dez mulheres de Shiraz"

Bahá’ís plantam árvores em Lisboa, para que a liberdade religiosa floresça em todo o mundo

Quem passar pela pequena zona ajardinada junto ao Centro Nacional Bahá’í, na freguesia lisboeta dos Olivais, vai encontrar dez árvores novas. São jacarandás e ciprestes, mas cada um deles tem nome de mulher e uma missão concreta: mostrar – tal como fizeram as mulheres que lhes deram nome – que a liberdade religiosa é um direito fundamental. Trata-se de uma iniciativa da Junta de Freguesia local, em parceria com a Comunidade Bahá’í, para homenagear as “dez mulheres de Shiraz”, executadas há 40 anos “por se recusarem a renunciar a uma fé que promove os princípios da igualdade de género, unidade, justiça e veracidade”.

Agenda

Fale connosco

Autores

 

Pin It on Pinterest

Share This