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Catolicos LGBTI+. Ilustracao reproduzida a partir da pagina de FB da Crismhom Comunidad
"O bom da Igreja é esta diversidade que existe". Ilustração reproduzida a partir da página de Facebook da Crismhom Comunidad

Balanço após encontro de Chipiona

Da tolerância à transformação: católicos LGBTI+ querem reforçar diálogo com a Igreja e criar rede ibérica

| 14/10/2026

A criação de uma rede de grupos, pessoas e iniciativas pastorais ligadas à comunidade LGBTI+ em Espanha e Portugal e a elaboração de um documento final com as conclusões dos trabalhos que deverá chegar a todos os bispos são dois dos principais frutos do XV Encontro de Crentes LGBTI+, que decorreu entre 9 e 11 de outubro, em Chipiona, no sul de Espanha. Em declarações ao 7MARGENS, os dois participantes portugueses no encontro, Ana Carvalho e Aníbal Neves, fazem um balanço positivo da iniciativa e apontam como próximos passos o reforço do diálogo com a hierarquia da Igreja e uma maior aposta na educação, de modo a promover o conhecimento e o respeito pela realidade das pessoas LGBTI+ e contribuir para o combate ao ódio.

Para Ana Carvalho, que integra o grupo de trabalho da Igreja Católica do Fórum Europeu de Grupos LGBTI+ [ver 7MARGENS], o grande desafio que se coloca neste momento à Igreja Católica, em particular à portuguesa, é conseguir passar da “tolerância e acolhimento” em relação aos fiéis LGBTI+ para uma verdadeira “transformação”. “O que gostaria de ver acontecer a seguir na Igreja em Portugal era que, de facto, nos sentássemos todos à mesa e falássemos honestamente”, partilha. Mais do que falar, acrescenta, é preciso “conhecermo-nos”, porque continuam a existir “ideias formadas de parte a parte”.

Ana Carvalho, 53 anos, foi promotora e dinamizadora do Centro Arco-íris, fundadora do Movimento Sopro e é membro honorário da CaDiv – Caminhar na Diversidade. No encontro de Chipiona, coordenou, juntamente com um padre catalão, o grupo dedicado ao tema do acolhimento.

O encontro, que este ano adotou o lema “Todos, todas, todes” – numa adaptação do “Todos, todos, todos” proferido pelo Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude de Lisboa – seguiu uma metodologia inspirada no processo sinodal da Igreja Católica, com os trabalhos a serem organizados em torno de cinco áreas. Além do acolhimento, os participantes refletiram também sobre o acompanhamento, a pastoral, a educação e o trabalho em rede.

Ana Carvalho participou pela terceira vez e reconhece que nunca tinha encontrado uma adesão tão grande, atribuindo o elevado número de participantes precisamente ao tema escolhido e ao método de trabalho proposto. Embora de Portugal tenham participado apenas duas pessoas, esta foi a primeira vez em que houve necessidade de alojar parte dos inscritos fora da casa de espiritualidade onde decorreu a iniciativa, assinala.

O outro participante português, Aníbal Neves, membro do Movimento Sopro e presidente da CaDiv, considera igualmente que o balanço foi “muito positivo”. Entre os aspetos que mais o marcaram esteve a presença crescente de casais homoafetivos acompanhados pelos seus filhos, bem como de jovens, que vê como expressão de uma “vontade de crescer dentro da Igreja”.

 

“Há muitas feridas que subsistem” e muito trabalho a fazer

Momento do encontro de crentes LGBTI+ em Chipiona. Foto DR

Dos diferentes grupos de trabalho emergiram preocupações comuns, afirma Ana Carvalho (na foto, à esquerda). Foto: Direitos reservados

Mas a principal diferença desta edição, sublinha Ana Carvalho, esteve no objetivo de produzir um resultado concreto. Os participantes tinham recebido antecipadamente documentos preparatórios sobre cada uma das cinco áreas temáticas e alguns já levaram para Chipiona reflexões previamente realizadas nas suas próprias comunidades, que tiveram oportunidade de partilhar em pequenos grupos.

“Este encontro foi também uma escola”, diz Ana, destacando a importância do exercício de escutar sem ter de responder imediatamente ou transformar a partilha num debate. “Gostei muito disso. Conseguimos manter-nos fiéis ao método.”

Dos diferentes grupos de trabalho emergiram depois preocupações comuns. Uma delas foi precisamente a necessidade de uma maior escuta das pessoas LGBTI+ no interior da Igreja.

Ana Carvalho considera que, sobretudo nos últimos anos e sob influência do pontificado de Francisco, aumentaram os sinais de acolhimento por parte de bispos e de outras vozes eclesiais. Mas lembra que “há muitas feridas que subsistem” e que é urgente impedir que continuem a perpetuar-se.

Na área da pastoral, uma das prioridades identificadas foi a de reconhecer a comunidade LGBTI+ como uma das muitas realidades que formam a Igreja. “O bom da Igreja é esta diversidade que existe”, aponta Ana Carvalho. E essa diversidade deve ser entendida “como um dom”, permitindo que cada pessoa coloque os seus próprios dons “ao serviço da Igreja”.

Quanto ao acompanhamento, uma das principais conclusões foi a de que não deve dirigir-se apenas às pessoas LGBTI+, mas também a quem as acompanha — leigos, consagrados ou padres —, os quais necessitam igualmente de formação e apoio.

Ana assinala ainda que, no seu trabalho com o grupo dedicado ao tema do acolhimento, a reflexão conduziu à distinção entre diferentes etapas de um mesmo percurso. Muitas comunidades, considera, permanecem ainda entre a “tolerância” e o “acolhimento”. Mas o horizonte deve ser outro: “Mais para a frente, podemos terminar, efetivamente, na transformação”, o que implica uma “contribuição e entrega dos dons, de parte a parte, para a construção de uma Igreja”.

Também a educação foi apontada como uma área prioritária, a começar pela educação para a afetividade. Para Aníbal Neves, 65 anos, esta é uma dimensão que deve procurar chegar às próprias hierarquias da Igreja e estender-se também à sociedade. O objetivo passa por “combater as ideologias do ódio”, a começar nas famílias e nas escolas, e promover formação que permita compreender melhor a realidade da homossexualidade, envolvendo pais, professores e toda a comunidade educativa.

 

Em Portugal, “uma relação que é necessário consolidar”

Momento do encontro de crentes LGBTI+ em Chipiona. Foto DR

Em Espanha, alguns bispos têm enviado mensagens de apoio a iniciativas de católicos LGBTI+, mesmo quando não podem estar presentes em encontros como este. Foto: Direitos reservados

Apesar de ressalvar que não pretende falar em nome de toda a comunidade LGBTI+ católica portuguesa — que considera bastante dispersa —, Ana encontra muitas semelhanças entre as situações portuguesa e espanhola, incluindo uma relação com a hierarquia da Igreja que “nem sempre” é fácil.

Identifica, contudo, uma diferença. Em Espanha, alguns bispos têm enviado mensagens de apoio a iniciativas de católicos LGBTI+, mesmo quando não podem estar presentes em encontros como este. “Pessoalmente, em Portugal e de forma pública, nunca tive nenhum bispo que escrevesse uma carta a dar o seu apoio”, observa.

Aníbal Neves identifica também diferenças na forma como as questões relacionadas com a diversidade de género são assumidas nos dois países. “Em Espanha há um maior empenho na defesa das questões de género”, considera, enquanto em Portugal entende existir “menos engajamento e militância”.

Isso não significa, sublinha Ana Carvalho, que o diálogo com a hierarquia da Igreja seja impossível. “Acho que é possível haver diálogo, mas é uma relação que é necessário consolidar. Como qualquer relação… E acho que ainda não estamos aí, mas creio que [estaremos] para breve”, afirma.

Recordando o caminho aberto durante o pontificado de Francisco, Ana Carvalho não encara o pontificado de Leão XIV como uma rutura. Reconhece que o anterior Papa deu uma “visibilidade muito grande” a estas e outras comunidades e que, com o atual líder da Igreja Católica, essa visibilidade é, “aparentemente, menor”. Mas considera que o essencial é compreender os processos mais profundos e destaca que há uma “continuidade” do caminho sinodal.

Aníbal Neves reconhece, contudo, que o encontro deixou algumas dúvidas sobre a forma como esse legado irá prosseguir. Segundo o presidente da CaDiv, durante os trabalhos em Chipiona falou-se de “que alguma documentação sobre a comunidade LGBTI+ estaria para sair”, mas o internamento do Papa Leão poderá levar a “adiar a questão”.

Seja como for, depois das assembleias do Sínodo, chegou o momento de levar a sinodalidade às dioceses, assinala Ana Carvalho. “Falar sobre os outros nós falamos; agora falar com [os outros] já fica mais difícil”, lamenta. Em Portugal, diz desconhecer processos diocesanos de reflexão sobre a realidade dos católicos LGBTI+. E se é verdade que “o caminho avança”, também é verdade que esse avanço “depende muito, às vezes, das dioceses, do bispo”, mais do que do próprio Papa.

Uma rede e um documento final

Missa do encontro de crentes LGBTI+ em Chipiona. Foto DR

Momento da missa que encerrou o XV Encontro de Crentes Cristãos LGBTI+ em Chipiona. Foto: Direitos reservados

Por tudo isto, Ana Carvalho considera tão importante que, de Chipiona tenha saído já uma decisão concreta: a de começar a construir uma rede que não se limite aos grupos de cristãos LGBTI+, mas procure ligar as diferentes dimensões da pastoral e permita partilhar experiências e apoiar iniciativas. Pensada inicialmente para Espanha, a proposta acabou por ser alargada a Portugal, apesar da “fragilidade” da representação portuguesa no encontro.

A intenção é agora desenvolver um trabalho conjunto com os diferentes grupos e alargar a rede para além dos movimentos especificamente ligados às questões LGBTI+. Aníbal Neves fala na necessidade de “convidar todos os movimentos cristãos ou não” para esse trabalho, tanto em Portugal como em Espanha.

Nas próximas semanas, os contributos dos cinco grupos serão reunidos num documento final, procurando identificar os pontos de contacto entre acolhimento, acompanhamento, pastoral, educação e trabalho em rede. Ana Carvalho espera que o texto esteja concluído até ao final do ano e possa depois servir de base ao trabalho das diferentes comunidades.

Em Portugal, Ana Carvalho defende que o documento deverá chegar a todos os bispos. “Temos aqui um grupo de católicos que tem uma reflexão própria da sua vivência enquanto cristãos, enquanto católicos”, afirma. Por isso, considera natural que os pastores tenham interesse em conhecê-la e escutá-la.

O objetivo, reitera Ana Carvalho, não é criar um espaço separado dentro da Igreja, mas conseguir avançar naquele percurso que descreve entre tolerância, acolhimento e transformação. E isso exige que a escuta seja feita “não apenas sobre as pessoas LGBTI+, mas com elas”.

 

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