A pergunta que paira sobre as minorias religiosas no Paquistão move-se entre a perseguição, o trauma e alguma solidariedade, que vai permitindo assegurar a sobrevivência. Na província de Punjab, a Comissão Justiça, Paz e Ecologia da Igreja Católica, liderada pelo frei capuchinho Lazar Aslam, teve de intervir recentemente para libertar uma família cristã da escravidão, após uma sucessão de crimes que ilustra a extrema vulnerabilidade desta comunidade.
A denúncia chegou ao 7MARGENS nesta quarta-feira, 20 de maio, diretamente através daquele religioso, que recorda que a espiral de sofrimento desta família se agravou drasticamente em abril passado, quando Sewaira Manzoor, uma jovem católica de 26 anos, foi raptada sob ameaça de arma de fogo e submetida a violações coletivas. Embora o crime tenha sido denunciado pela família e confirmado por exames médicos, o principal suspeito continua em liberdade, e a família enfrenta ameaças de morte constantes para retirar o processo judicial .
Já Sewaira vive profundamente traumatizada e isolada, tendo sido forçada a afastar-se da sua própria aldeia devido ao estigma social que, na cultura local, tende a culpar as vítimas de abusos sexuais em vez de punir os agressores. No Paquistão, onde os cristãos representam menos de 2% da população, o impacto destes crimes vai muito além da agressão física, explica o padre Azlam.
Mas o drama desta família cristã estendeu-se também ao campo laboral. Pressionados pela tragédia e pela falta de recursos, os quatro irmãos mais novos de Sewaira — com idades entre os 12 e os 17 anos, incluindo uma irmã com necessidades especiais — trabalhavam sob condições desumanas numa olaria em Manawala. O objetivo era saldar uma dívida familiar crónica de 270.000 rupias paquistanesas (cerca de 900 euros) .
Este sistema de servidão, conhecido como peshgi, funciona como uma “armadilha financeira” montada pelos proprietários de fábricas de tijolos, onde os cristãos constituem mais de metade da mão de obra explorada, detalha o frei capuchinho, assinalando ainda que as contas são manipuladas para que as dívidas se tornem perpétuas, sendo herdadas ilegalmente de pais para filhos.
“Caminhar até àquela fábrica de tijolos e ver rapazes jovens a trabalhar sob o peso sufocante de uma dívida geracional é uma experiência dolorosa”, recorda o frei Lazar Aslam.
O caminho para a sobrevivência autónoma

A Comissão Justiça, Paz e Ecologia liquidou integralmente a dívida da família e forneceu mantimentos para o primeiro mês de liberdade. Foto: Direitos reservados
Numa ação direta de emergência, a Comissão Justiça, Paz e Ecologia liquidou integralmente a dívida junto do proprietário da olaria, quebrando o ciclo de exploração dos menores e fornecendo mantimentos para o primeiro mês de liberdade. Mas a liberdade trouxe consigo um novo desafio, pois sem o trabalho na olaria, “a família ficou sem qualquer fonte de rendimento”, sublinha o padre Azlam.
Para responder ao desafio de como fazer esta família sobreviver em segurança, a organização católica, apoiada por líderes evangélicos locais, emitiu nos últimos dias um apelo urgente a doadores e missões diplomáticas.
O plano de reabilitação foca-se agora na autonomia e na proteção em três frentes: a autossuficiência económica: (em que o objetivo é obter financiamento para abrir uma pequena mercearia gerida pela família); o trabalho seguro (com a aquisição de máquinas de costura para que as irmãs adolescentes trabalhem em segurança a partir de casa) e a relocalização de emergência (é preciso apoio financeiro para a compra de uma nova habitação noutra região, permitindo à família fugir das ameaças dos agressores e recomeçar a vida longe do local onde foi abusada).
Para Sewaira e os seus irmãos no Paquistão, há uma nova esperança. Mas quantas famílias continuam sem saber como irão sobreviver perante a contínua opressão das minorias e a impunidade estrutural?










