7MARGENS/Antena 1

Da violência entre as religiões ao diálogo ecuménico

| 21 Jan 2024

Joel Pinto e Filomena Andrade: o diálogo ecuménico e inter-religioso está na sua infância. Foto © António Marujo/7MARGENS

Joel Pinto e Filomena Andrade: o diálogo ecuménico e inter-religioso está na sua infância. Foto © António Marujo/7MARGENS

 

Uma historiadora que descobre tesouros entre as mulheres medievais e um pastor protestante que, para não ir fazer a guerra colonial em África fugiu de Portugal com o pretexto de ir a uma aldeia espanhola comprar chocolates e caramelos, o que na altura era ilegal. Foram estes os convidados do último programa 7MARGENS na Antena 1, que passou na noite de sexta para sábado e está disponível na RTP Play.

Até à próxima quinta-feira, 25, os cristãos de várias igrejas assinalam a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos e esse foi um dos pretextos do programa. Uma iniciativa que tem a importância de “pôr os cristãos a praticar o que é essencial: a oração”, como refere Joel Pinto, que acrescenta: “Ficar só pela oração sem assumir as consequências do facto de, unidos, se evocar o mesmo Deus, seria uma grande frustração. É muito importante que a oração seja acompanhada por uma acção.”

Joel Pinto é pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal; fez o mestrado em Teologia na universidade de Neuchâtel (Suíça), estudou depois ciências bíblicas e ciências da educação nas universidades da Suíça francófona. 

O tema da Semana pela Unidade dos Cristãos 2024 é a frase retirada do cap. 10 do evangelho de Lucas “Amarás o Senhor teu Deus e ao teu próximo como a ti mesmo”, e tem textos propostos pelas Igrejas do Burkina Faso, inspirados na parábola do Bom Samaritano do mesmo texto bíblico – tendo já motivado mesmo uma iniciativa do Papa Francisco. 

O comentário para Portugal dizia que a Semana deveria promover iniciativas “geradoras de esperança e de paz”, num contexto de problemas como a habitação, integração dos estrangeiros, baixa natalidade e aumento da pobreza, mesmo entre a classe média. 

A outra convidada, Filomena Andrade, é licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com mestrado e doutoramento em História Medieval na Universidade Nova de Lisboa e agora professora auxiliar na Universidade Aberta. Duas das suas áreas de investigação têm sido o monaquismo feminino e o movimento franciscano medieval português. Ao recordar o encontro de Francisco de Assis com o sultão do Egipto, Malek al-Kamel, esta professora universitária considera que essa iniciativa do Poverello de Assis não foi “irrealismo da parte de Francisco”, mas antes o “pensar que é possível este diálogo: a lógica não é a do combate pela violência, mas é a do diálogo” e Francisco propôs “este diálogo sempre e em todas as circunstâncias”. 

“Um gigante intelectual”, mas despótico 

Castélio Contra Calvino (ed. Assírio & Alvim), de Stefan Zweig (1881-1942)

Castélio Contra Calvino (ed. Assírio & Alvim), de Stefan Zweig (1881-1942).

Outro pretexto para a conversa foi a recente publicação de um importante livro de Stefan Zweig (1881-1942), Castélio Contra Calvino (ed. Assírio & Alvim). Nele, o escritor alemão de origem judaica (que morreu no Rio de Janeiro, Brasil), conta a história de como Calvino, no seu reinado teocrático em Genebra, foi o mandante da morte de Miguel Servet, que, apesar de adepto da Reforma protestante, se opunha ao senhor de Genebra. Castélio escreve um Tratado pela Tolerância, criticando Calvino pela morte de Servet e também por isso é perseguido por Calvino e acaba na miséria. 

“Calvino é um gigante intelectual”, considera Joel Pinto, que enquanto membro de uma Igreja Reformada diz assumir também a herança calvinista, mas criticando os exageros despóticos com que Calvino agiu muitas vezes. Considerado estarmos perante um “livro absolutamente fascinante e admirável”, com uma “tradução notável” para a língua portuguesa, Joel Pinto aponta também que “é inegável que a tradição democrática, a democracia europeia e parlamentar tem origem” nos países de tradição protestante do Norte da Europa. 

O livro, escrito por Zweig numa altura em que o nazismo já dominava na Alemanha e o escritor partira para o exílio, em Inglaterra, acaba por ser, também por isso, um manifesto contra o exacerbamento do ódio ao outro. E o pastor português a trabalhar na Suíça considera que os “traços de despotismo religioso” e vários factores da vida política, como o crescimento dos populismos e da xenofobia mostram que “também a nível político o livro é de uma grande actualidade”. 

Em Portugal, os responsáveis das igrejas que assinalam a semana pela unidade – Católica, Metodista, Presbiteriana, Anglicana/Lusitana – acrescentaram os 50 anos do 25 de Abril e a ideia da solidariedade à proposta da compaixão que a mensagem da Semana de 2024 assumia. O 25 de Abril foi uma data importante para Joel Pinto, que saiu de Portugal por se recusar fazer a guerra. Uma história que começou em Lisboa, numa Sexta-Feira Santa, mas fez ponto de fuga numa casa que um arquitecto conhecido comprara em Marvão; colocou um cabo da GNR a telefonar (e a pagar a chamada) para Lisboa dizendo que a “encomenda” já estava na aldeia; amedrontou os dois “refractários” com um cavalo a relinchar entre penedos e arbustos e os camponeses em redor a fazer vista grossa; e inspiraria um ar de liberdade a 2.500 metros de altitude, nos Pirenéus, já em terras de França. Uma história que pode ser lida no 7MARGENS. 

 

“A violência sobre a violência só agrava o problema”

 

Francisco de Assis com o sultão Malek al-Kamel: “A lógica não é a do combate pela violência, mas a do diálogo sempre e em todas as circunstâncias.”

Francisco de Assis com o sultão Malek al-Kamel: “A lógica não é a do combate pela violência, mas a do diálogo sempre e em todas as circunstâncias.”

 

Por contraste com a violência que tem estado presente ao longo da história, as últimas décadas assistiram ao início de processos alargados de diálogo ecuménico e inter-religioso. “A violência está muito ligada ao poder”, diz Filomena Andrade. “Mesmo no conflito israelo-palestiniano o que está em causa é o poder sobre uma terra, sobre um povo, [mas] a violência sobre a violência não resolve o problema, só agrava o problema, não o resolve, mas tem sido difícil a humanidade entender” essa realidade, defende a professora universitárias. O diálogo entre confissões diferentes está ainda na sua infância, acrescenta, para dizer que a Idade Média é considerada por muitos uma época de grande violência, mas hoje estamos a viver fenómenos semelhantes, depois de o século XX ter sido o das grandes tragédias das guerras. 

Nesse processo, Joel Pinto defende que é importante protestantes e católicos fazerem, por exemplo, investigação conjunta ou trabalho social. “Muita coisa poderia ser feita em conjunto”, afirma, citando Eduardo Lourenço quando dizia que faltou haver Reforma Protestante em Portugal, no sentido em que não há uma tradição de debate sério. 

No debate, Filomena Andrade, que integra também o Centro de Estudos de História Religiosa, da Universidade Católica, referiu-se ainda às suas investigações sobre o monaquismo feminino. As beguinas, mulheres como Hildegarda de Bingen, Juliana de Norwich ou Catarina de Sena, são alguns dos exemplos de mulheres que, na Idade Média, foram pioneiras da ideia do diálogo nas diferenças e, mesmo, da reivindicação do papel da mulher na Igreja. 

“Temos uma história escrita por homens. Temos vindo aos poucos a descobrir não só escritos, mas também que há mulheres que têm um protagonismo muito maior do que aquele que lhe é concedido”, afirma a historiadora a propósito. “Temos uma ideia de monaquismo de pós-Trento, do século XVI”, quando “há um retrocesso muito grande”. Pelo contrário, “durante a Idade Média, há muitas mulheres que têm um grande protagonismo, porque não só são mulheres cultas, como têm a sua opinião e no espaço público conseguem impô-la”. São os casos, refere, de Catarina de Sena, Hildegarda de Bingen ou Clara de Assis, que “não são tão excepções como pensamos”.

Cooperação, amor e diálogo

 

No Coração da Escuridão, de Paul Schrader.

Imagem do filme No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, que mostra como os calvinistas gerem a questão da violência.

 

Das últimas notícias no 7MARGENS, Filomena Andrade escolheu a do regresso a Portugal (depois de ter estado na Jornada Mundial da Juventude) da Orquestra Maré do Amanhã, um projecto social que já atingiu 7000 crianças e jovens, depois de implementado numa das mais violentas favelas do Rio de Janeiro, Brasil. “Ir a uma favela onde a lei e a autoridade é a violência propor algo que é o oposto – cooperação, amor, diálogo entre jovens” é o que a professora universitária destaca, da importância desta notícia. 

Joel Pinto preferiu destacar duas notícias: a do curso digital sobre sinodalidade promovido pela Escola de Teologia e Ministérios do Boston College, EUA. “Talvez seja [a sinodalidade] o caminho da unidade”, diz. “Ficámos muito admirados, no protestantismo, pela participação” dos católicos no Sínodo. E o Papa Francisco “tem toda a razão” quando diz que um processo sinodal não é um parlamento. “É aí que podemos convergir, nesse trabalho de criação de uma Igreja autenticamente sinodal.”

A outra notícia sublinhada pelo pastor presbiteriano é a do Encontro Cristão de Sintra, que decorre no próximo dia 27 de Janeiro. “Não é iniciativa teológica, é muito prática, nada melhor que a música, a alegria, a festa” para assinalar o diálogo, diz. 

O filme No Coração da Escuridão, de Paul Schrader (o mesmo realizador de Taxi Driver) é a escolha cultural de Joel Pinto, que mostra como os “calvinistas” gerem a questão da violência. E o livro Um dia na vida de Abed Salama (ed. Zigurate), de Nathan Thrall é a sugestão de Filomena Andrade, que destaca a questão da “violência latente entre palestinianos e israelitas e também entre palestinianos”.

 

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Clero de Angra pede “incremento da pastoral vocacional” assente no “testemunho do padre”

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Reconhecendo que o contexto da Igreja universal “é caracterizado pela descredibilização do clero provocada por diversas crises, pela redução do número de vocações ao sacerdócio ministerial e pela situação sociológica de individualismo e de crescente indiferença perante a questão vocacional”, os representantes do Clero diocesano de Angra (Açores) defendem o incremento da “pastoral vocacional assente na comunidade, sobretudo na família e no testemunho do padre”.

Por uma transumância outra

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Este texto do Padre Joaquim Félix corresponde à homilia do Domingo IV da Páscoa na liturgia católica – último dia da semana de oração pelas vocações – proferida nas celebrações eucarísticas das paróquias de Tabuaças (igreja das Cerdeirinhas), Vilar Chão e Eira Vedra (arciprestado de Vieira do Minho).  

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