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autores - Hermano Filipe

[Entre Margens]

Da vulnerabilidade da Click to Pray às alternativas éticas

| 12/08/2026

 

Estava a reler alguns números da Magnifica Humanitas, em particular sobre a necessidade de promovermos uma «ecologia da comunicação» que, entre outras coisas, proteja os dados pessoais (MH n.º 137), quando, noutra janela, recebo um alerta de uma publicação de BobDaHacker, uma especialista em cibersegurança, que, a 3 de janeiro deste ano, terá denunciado junto dos responsáveis da plataforma Click to Pray uma vulnerabilidade que expunha mais de setecentas mil contas de utilizador.

Permitam-me deixar muito claro: apesar do título, este texto não é sobre a plataforma Click to Pray, uma aplicação cuja simplicidade, objetivos e alcance muito admiro. Mas a ocasião oferece-me a oportunidade para insistir na temática da ética e da segurança da presença da Igreja na internet, assunto que infelizmente pouco ou nada se vê tratado nas jornadas nacionais de comunicação social ou eventos similares organizados pelas dioceses, paróquias ou movimentos ou serviços da Igreja Católica.

“Segundo esta hacker ética (BobDaHacker), os problemas continuavam na validação de e-mails no momento do registo de utilizador e nos métodos de autenticação de e-mail mal configurados.” Ilustração © Creative Commons BY SA

Disponível para iOS, Android e no navegador em clicktopray.org, a aplicação permite aos utilizadores rezar em comunhão com o Papa, seguir um ritmo diário de oração ou partilhar pedidos de oração com a comunidade. Uma aplicação muito boa, na verdade, capaz de chegar a tantas pessoas em tantas partes do mundo. Em julho tinha 719.517 utilizadores registados.

O que BobDaHacker descobriu foi que era possível a qualquer utilizador registado obter a lista de endereços de e-mail, o primeiro e último nome, país e data de nascimento de todos os utilizadores registados, sem uma adequada verificação de autorização. Segundo esta hacker ética, os problemas continuavam na validação de e-mails no momento do registo de utilizador e nos métodos de autenticação de e-mail mal configurados, fazendo o próprio servidor achar que o endereço info@clicktopray.org é usado para pishing.

No dia 24 de julho, Nate Nelson publicou um artigo no jornal digital Dark Reading em que citou as descobertas de BobdaHacker; e, em poucas horas, o problema foi resolvido. Felizmente! Mas não houve, até ao momento, um e-mail aos utilizadores registados a explicar o sucedido ou um pedido de desculpa e um e-mail de agradecimento à especialista que descobriu esta vulnerabilidade grave.

Voltando à Magnifica Humanitas: «a vigilância e a transparência são, em primeiro lugar, uma grave responsabilidade da própria Igreja e não devemos aguardar que outros nos obriguem a enfrentar verdades incómodas sobre nós próprios.» (n.º 138) Diante do terrível flagelo dos abusos sexuais, alguns homens da Igreja escolheram o silêncio, achando que assim protegiam a instituição. A impressão que fica desta história é que não aprendemos e continuamos a silenciar os nossos erros, também no digital, naquilo que poderia servir de ponte de diálogo com o mundo contemporâneo.

Penso na quantidade de páginas na internet de dioceses e paróquias, muitas delas construídas em WordPress. Estarão todas atualizadas de modo a prevenir, quanto possível, a exploração de vulnerabilidades por parte de hackers mal-intencionados? E os dados que os fiéis nos confiam e introduzimos nos programas usados pelas dioceses para a gestão paroquial, estarão seguros? Há testes de penetração e auditorias externas de segurança que o comprovem?

Multiplicam-se iniciativas com palavras bonitas como «colocar a pessoa acima do algoritmo» ou «a verdade acima da manipulação» mas, olhando para o programa das próximas iniciativas ligadas à comunicação da Igreja em Portugal, no que toca à reflexão sobre a ética, segurança, responsabilidade ou plataformas de código aberto, as únicas que realmente nos permitem colocar o algoritmo ao serviço desta magnífica humanidade, o panorama é desolador. Abunda mais do mesmo: criar conteúdos digitais, anunciar no mundo digital e usar as redes sociais para evangelizar. Que redes sociais? Exatamente as mesmas cujos algoritmos comprovadamente manipulam os utilizadores, incentivam o cyberbullying, a desinformação e a dependência, permitem perfis tóxicos e esquemas fraudulentos e têm um impacto brutal na privação do sono e no desenvolvimento de verdadeiras competências sociais.

Há alternativas éticas e seguras, mas, na Igreja, continuaremos sem falar nelas enquanto estivermos entretidos em seguir as modas digitais. Quanto a mim, rezo para que um dia, na Igreja, as pessoas entendam que as ferramentas que usamos não são moralmente neutras e que há alternativas que nos permitiriam criar redes de comunicação muito mais saudáveis e seguras. [sobre as alternativas, ver 7MARGENS]

 

Hermano Filipe é frade da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos e responsável pelo respetivo Serviço de Comunicação em Portugal. Este texto foi inicialmente publicado no blogue pessoal do autor, dedicado ao uso de tecnologias e aplicações éticas na Igreja Católica.

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