AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

Guilherme d'Oliveira Martins

Dai-Me Senhor o bom humor!

papa francisco fala aos jornalistas no voo de regresso do cazaquistao 2022 foto vatican media

Papa Francisco, aqui a falar aos jornalistas no voo de regresso da sua recente viagem ao Cazaquistão. Foto © Vatican Media.

 

A recente entrevista concedida pelo Papa Francisco a Maria João Avillez constitui um diálogo com o maior interesse não apenas para o conhecimento da extraordinária personalidade do sumo pontífice, mas também para uma reflexão séria e aprofundada em tempo de Sínodo. Com especial ênfase, o Papa Francisco recordou-nos, a partir da Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (2018) a importância da disponibilidade de espírito e da alegria: “Normalmente a alegria cristã é acompanhada pelo sentido do humor, tão saliente, por exemplo, em São Tomás Moro, São Vicente de Paulo ou São Filipe Néri. O mau humor não é um sinal de santidade: ‘lança fora do teu coração a tristeza’ (Qo 11, 10). É tanto o que recebemos do Senhor ‘para nosso usufruto’ (1 Tm 6, 17), que às vezes a tristeza tem a ver com a ingratidão, com estar tão fechados em nós mesmos que nos tornamos incapazes de reconhecer os dons de Deus.” 

“Recomendo (diz-nos o Papa) especialmente uma oração atribuída a São Tomás Morus: ‘Dai-me, Senhor, uma boa digestão e também qualquer coisa para digerir. Dai-me a saúde do corpo, com o bom humor necessário para a conservar. Dai-me, Senhor, uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem. Dai-me uma alma que não conheça o tédio, as murmurações, os suspiros e os lamentos, e não permitais que sofra excessivamente por essa realidade tão dominadora que se chama ‘eu’. Dai-me, Senhor, o sentido do humor. Dai-me a graça de entender os gracejos, para que conheça na vida um pouco de alegria e possa comunicá-la aos outros. Assim seja.” 

Dir-se-á que o Papa Francisco nos deu um conjunto muito vasto de reflexões e desafios, mas, ao invocar esta oração, abriu-nos um horizonte exigente de renovação da prática da fé, centrado no amor, como atenção, cuidado e disponibilidade de espírito. Todos conhecemos, ao longo dos séculos, as dúvidas, as dificuldades, as resistências e sobretudo a impossibilidade de encontrarmos explicações racionais na procura do sentido da vida. Só se pudermos cultivar a capacidade de entender os limites da compreensão e a grandiosidade e complexidade da natureza que nos cerca, que está muito para além do que possamos imaginar, é que poderemos abrir o nosso coração à fé e à esperança. Como o grande cientista, matemático e filósofo Pascal nos ensinou, só um espírito que compreenda as nossas limitações é que permite superarmos a pequenez das nossas perguntas. Importa, dar espaço ao que não conhecemos e áquilo que não temos capacidade para apreender no imediato. A aposta e o risco das nossas vidas devem levar-nos além das fronteiras limitadas a que temos acesso. Importa, pois, considerar o outro lado das coisas, imaginar o outro lado da lua, que não está ao alcance da visão dos humanos. 

Daí a necessidade de cultivarmos “uma alma santa que saiba aproveitar o que é bom e puro, e não se assuste à vista do pecado, mas encontre a forma de colocar as coisas de novo em ordem”. Daí a importância do sentido do humor, do picaresco, da ironia e da graça de entender os gracejos, para que se conheça na vida a alegria e um certo entusiasmo que possam ser comunicados aos outros. Eis por que razão ouvimos dizer-lhe: “Olhem para a janela e perguntem se a tua vida tem uma janela aberta. Se não estiver aberta essa janela, então abram-na quanto antes. Não tenham vistas curtas. Saibam que estamos a caminhar para o futuro e que há um caminho. Não podemos fechar-nos sobre nós mesmos”. 

“Abram a janela. Vejam além do nariz. Olhem, abram, olhem para o horizonte. E alarguem o coração”, lembrou ainda o Papa. E eis que lembrou ainda que “a Igreja é feminina”. “É mulher. É a mulher de Cristo. E o certo é que na administração normal da Igreja faltam as mulheres.” A mulher tem a seu favor a experiência o instinto da maternidade. “A mulher é mãe. E a mãe não é igual ao pai. A mulher é capaz de se desenvencilhar melhor sozinha: a mulher nunca abandona o que está perdido.” E, como sabemos da experiência da UNESCO, o filho ou a filha de uma mulher alfabetizada não será analfabeto ou analfabeta. Esse efeito multiplicador não pode deixar de ser aproveitado pela Igreja Católica, sob pena de desperdiçarmos valores e qualidades. Há um caminho que deve ser trilhado, com muita determinação, no sentido de compreender como Maria e Marta são essenciais, fazendo-nos até entender melhor a oração de São Tomás Moro, na sua expressão plena. 

Guilherme d’Oliveira Martins é administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado

Diocese de Portalegre – Castelo Branco

“Um conselho pastoral em cada paróquia”, o desafio está lançado novidade

No fim do processo, “nem um centímetro” da Diocese de Portalegre – Castelo Branco deve “ficar sem ser coberto por um conselho pastoral paroquial” (ou interparoquial se necessário e conveniente). Foi o desafio do bispo Pedro Fernandes à diocese de que assumiu a tarefa de pastor ainda não há um ano. Esta é talvez a melhor síntese do que foi a “Assembleia Diocesana”, no dia 6 de outubro, em Ponte de Sor, a que várias centenas de pessoas responderam participando de um modo ativo.

Guerras e mudanças de regime

[Entre Margens]

Guerras e mudanças de regime novidade

Já muitos se terão esquecido, ao acompanhar a trágica e intrincada evolução da guerra entre Estados Unidos e Israel e o Irão, que, no seu início, essa guerra foi apresentada como tendo por objetivo primacial o de derrubar um regime ditatorial e opressor, que há pouco tempo havia reprimido de forma violenta e mortífera a contestação de largas canadas da população sedentas de uma liberdade que essa guerra lhes haveria de proporcionar. [Texto de Pedro Vaz Patto].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.