O Dalai Lama, líder espiritual do budismo tibetano que completará 90 anos já no próximo domingo, 6 de julho, acaba de confirmar que terá um sucessor após a sua morte e que somente elementos do seu círculo íntimo (e não as autoridades de Pequim) poderão identificá-lo. A mensagem foi comunicada pelo próprio num vídeo gravado a partir de Dharamsala (cidade indiana na região dos Himalaias onde se encontra exilado) e transmitido esta quarta-feira, 2 de julho, durante as celebrações de oração que antecedem o seu 90º aniversário.
“De acordo com a tradição, a busca pela minha reencarnação e a nomeação do 15º Dalai Lama serão realizadas”, assegurou. No passado, o monge budista chegou a admitir que poderia vir a ser o último Dalai Lama, para evitar que a figura do líder espiritual fosse instrumentalizada por Pequim. Mas nesta mensagem explicou que as consultas que fez a vários líderes espirituais séniores e os apelos do público tibetano, inclusive no Tibete governado pela China, o convenceram do contrário. “De acordo com todos esses pedidos, afirmo que a instituição do Dalai Lama continuará”, reiterou, adiantando que serão deixadas instruções claras por escrito para a escolha do seu sucessor, mas sem dar pormenores sobre as mesmas.
A China, que anexou o Tibete em 1951 e mantém um controlo rígido sobre a região desde então, continua a afirmar que a escolha do próximo Dalai Lama cabe exclusivamente a Pequim e consagrou por lei a necessidade de um consentimento estatal para todos os líderes religiosos tibetanos de alto escalão. “A reencarnação do Dalai Lama, do Panchen Lama e de outras grandes figuras budistas deve ser escolhida por sorteio numa urna de ouro e aprovada pelo governo central”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, citada pelo The Guardian, em reação à mensagem vídeo.
No entanto, de acordo com o 14º Dalai Lama, o seu sucessor nascerá num “país livre”, e há a possibilidade de que a próxima reencarnação possa surgir da diáspora tibetana, que soma cerca de 140 mil pessoas em todo o mundo, metade das quais na Índia, e de que seja uma mulher.
Como se escolhe um Dalai Lama?

O 14º Dalai Lama sentado no trono durante a cerimônia oficial de entronização em Lhasa, Tibete, a 22 de fevereiro de 1940. Foto © OHHDL
Os budistas tibetanos acreditam que o Dalai Lama é a manifestação terrena de Avalokiteshvara, um ser espiritual e compassivo que permanece no mundo para guiar todos os outros no caminho da iluminação. Segundo a tradição, quando um Dalai Lama morre, renasce sob uma nova forma humana para continuar a sua missão de compaixão e liderança espiritual.
O homem que o mundo atualmente conhece como Dalai Lama nasceu como Lhamo Dhondup a 6 de julho de 1935 na aldeia de Taktser, onde hoje é a província chinesa de Qinghai. Recebeu o título de 14º Dalai Lama após uma missão do governo tibetano que o identificou, quando tinha apenas dois anos, como a reencarnação do espírito de seu antecessor, Thubten Gyatso. A identificação baseou-se em diversos sinais, como uma visão de um monge experiente e a identificação pela criança de objetos que pertenceram a Gyatso. Lhamo Dhondup foi entronado no inverno de 1940 no Palácio de Potala, em Lhasa, capital do Tibete, e oficialmente declarado líder espiritual dos tibetanos, adotando o nome Tenzin Gyatso.
A tarefa de encontrar a reencarnação do próximo Dalai Lama será assumida pela Fundação Gaden Phodrang, criada por Tenzin Gyatso em 2015, a qual tem por missão promover os valores humanos básicos, a compreensão mútua entre religiões, a paz e a não violência, e a proteção do meio ambiente. A entidade visa ainda preservar a cultura tibetana e apoiar o povo tibetano, mas também outras pessoas necessitadas, independentemente de nacionalidade, religião e origem.










