AGENDA

SOBRE NÓS

ASSINAR

APOIAR

autores - José Centeio

Dançando entre gente e palavras

| 05/07/2024


Ana Sofia Brito, colaboradora do 7MARGENS, depois do Em Breve, Meu Amor e do Homem do Trator (poesia em 2ª edição), publicou no ido mês de abril o seu terceiro livro A Menina Dança em Dezembro. Sublinhe-se que os dois primeiros foram também editados no Brasil. Este seu último livro, à semelhança do primeiro, reúne algumas das crónicas – eu diria histórias – aqui publicadas e também textos inéditos.

O primeiro texto dá o título ao livro e é a “impressão digital” da escrita da Ana Sofia. Tratando-se de uma história de Natal inscreve-se na esperança de todos aqueles e aquelas de quem o mundo – ou nós? – se esqueceu do lado de fora da janela. O entrelaçar das próprias mãos alimenta-lhes a esperança de amanhã ser outra a mão que entrelaça as suas para juntos caminharem até um novo futuro. Nas suas histórias a esperança é – em quase todas – algo que vive para além dos dramas vividos. Até na morte mais dramática, há uma voz que nos salva: “Amo-vos, meus filhos”. Há sempre uma pequena luz de esperança para além da miséria humana. Mesmo que “a esperança morra logo ao nascer”, ela inscreve-se nesse desejo “do mesmo colo” que nos brota do coração.

Como escreve o escritor e geógrafo Eduardo Jorge Duarte, também ele algarvio, no prefácio: Ana Sofia Brito “cruza as preocupações dos nossos dias, olha-as nos olhos e oferece-lhes a mão tão habilidosa a manobrar o lume como a caneta que mantem vivo o borralho da esperança e ilumina o quarto escuro onde, com receio da nossa condição efémera e vulnerável, mantemos tantas vezes fechados os nossos maiores fantasmas.”

Existe na escrita da Ana Sofia uma humildade, quase ingenuidade que há muito deixámos lá atrás, talvez na nossa infância, mas que através da palavra nos liberta desses fantasmas e de traumas que continuam a habitar a memória.

Nas histórias que nos conta encontramos a Ana, não a sua história mesmo quando claramente autobiográficas, mas as suas vivências e o seu olhar sobre as insignificâncias da vida, as suas e as da gente que pelo caminho foi encontrando. Aos mais insignificantes, a esses meninos e meninas da cidade incompleta, ela empresta a sua voz e a sua escrita como forma de os resgatar da sua miséria e de lhes mostrar essa réstia de esperança que é a humanidade.

Ela não esquece as suas gentes, o seu Algarve, “Mar e campo em abraço apertado”, sobretudo esse mar tão solidário quanto traiçoeiro que na sua voracidade rouba vidas e sonhos, alheio às vidas em terra que choram em coro, “Porque no mar ninguém chora sozinho”.

O seu olhar sensível e atento ao drama individual sem nunca o afastar do drama social e coletivo ou até do destino que parece condenar este nosso tempo. Mesmo nos textos mais autobiográficos, a autora não deixa de se questionar e de nos conduzir ao essencial da condição humana.  Como ela escreve: “Não é só à repetição dos dias e das noites que se sobrevive. Sobrevive-se à indiferença escondida no olhar de quem disfarça, porque só quem repara pode agir.” Talvez por isso também nós leitores nos sintamos parte de cada história, quantas vezes “Pecadores sem noção de culpa.” Ao ponto de apenas nos restar “ser uma sombra de gente a olhar a morte. A ajudar a morte. A causar a morte.”

À Ana, essa “mulher comum que por mero cansaço desistiu de procurar dentro de si a sanidade dos seres comuns”, o meu enorme bem-haja por partilhar connosco o mundo que há em si e os fantasmas que são os seus. E também os nossos.

 

Título: A Menina Dança em Dezembro
Autora: Ana Sofia Brito
Editora: On y va
Abril 2024, 96 pág.

 

Últimas Notícias

Últimas Notícias

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência

Esta terça-feira, 7 outubro

“Sem trabalho digno não há vida digna”: Movimento de Trabalhadores Cristãos dinamiza videoconferência novidade

A Liga Operária Católica/ Movimento de Trabalhadores Cristãos assinala esta terça-feira, 7 de outubro, o Dia Mundial pelo Trabalho Digno com uma videoconferência sobre “Trabalho Digno/Código Laboral”. A sessão, com início marcado para as 21h00 e de participação livre, terá como oradores Mafalda Troncho, diretora do Escritório da Organização Internacional do Trabalho em Portugal, e Ulisses Garrido, sociólogo e especialista em relações laborais.

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur

[Entre Margens]

Um 7 de Outubro por Delphine Horvilleur novidade

Não sei se a carta de «calorosas felicitações» do Secretário-Geral da ONU ao Presidente do Irão, por ocasião da celebração do bonito Dia Nacional da Revolução Islâmica compara bem com a sua tentativa de contextualização histórica do ataque terrorista de 7 de Outubro de 2023, perpetrado pelo Hamas. Mas recorda-me um título e um autor. [Texto de João Santos].

7MARGENS é um jornal digital
de Religiões, Espiritualidades e Culturas

Propriedade de Associação Porta 18 [ACSFL]
R. da Páscoa, 12 – R/C Dtº – 1250-179 Lisboa | NIPC: 514 876 905
Redação Lisboa: Largo da Luz, 11, 1600-764 LISBOA
IBAN: PT50 0035 0675 0004 6941 7308 1 (CGD)

O 7MARGENS aceita e incentiva a colaboração escrita, em vídeo ou audio dos seus leitores.
Reserva-se o direito de os difundir ou não e aconselha que os textos não excedam os 4.000 caracteres.

Pin It on Pinterest

Share This