Daniel Faria, “último poeta místico do século XX”, da “dimensão dos grandes”

| 9 Jun 19 | Cultura e artes - homepage, Destaques, Literatura e Poesia, Newsletter, Últimas

“É o último poeta místico do século XX”, com uma “dimensão que o coloca na linha de uma Teresa d‘Ávila e dos grandes”, diz o bispo Carlos Azevedo, a propósito de Daniel Faria (10-04-1971 a 09-06-1999), autor de Explicação das árvores e de outros animais, que morreu na sequência de um acidente. Neste domingo, 9 de Junho, completam-se 20 anos sobre a morte de Daniel, pouco depois de festejar 28 de idade.

D. Carlos, actualmente bispo delegado no Conselho Pontifício da Cultura, falava ao 7MARGENS a propósito do colóquio Se acender a luz não morrerei sozinho, que neste sábado e domingo decorre na Casa Daniel (em Tabuaço, norte do distrito de Viseu), para debater a recepção, na cultura portuguesa (e já internacional), da poesia do monge beneditino, que morreu na sequência de um acidente.

“Diversos trabalhos relativos aos seus escritos têm sido publicados em jornais e revistas, dada a virtualidade plurifacetada de um poeta maior. A sua obra tem merecido sucessivas edições e tradução em espanhol”, justificam os organizadores. Carlos Azevedo diz que isso demonstra o interesse que Daniel Faria já suscita e dá mesmo o exemplo de vários livros do poeta traduzidos e editados em Espanha, que têm merecido várias edições e estão a ser divulgados também na Argentina.

O colóquio é organizado em conjunto pela Casa Daniel e a Cátedra Poesia e Transcendência Sophia de Mello Breyner da Universidade Católica Portuguesa-Porto, com a colaboração da Câmara Municipal de Tabuaço. Mesmo não sendo um lugar habitual para iniciativas literárias, a opção foi organizá-lo num sítio sonhado por Daniel Faria para um eremitério, “dada a sua vontade de silêncio”. É uma forma de “conhecer a provocação do lugar”, diz Carlos Azevedo, que refere a possibilidade de, na Casa Daniel, se poder passar alguns dias a descansar, reflectir ou em processo de criação literária e artística. “É um lugar de silêncio fabuloso”, diz o bispo e presidente do Colégio de Fundadores da Casa Daniel.

 

A Bíblia por trás das metáforas

Sobre os “lugares mal situados” do poeta – o mosteiro beneditino de Singeverga, O Livro do Joaquim e o seu trabalho na paróquia do Marco de Canaveses – foi o primeiro debate de sábado. Algumas das restantes intervenções relacionam-se com um dos temas fortes da poesia do autor de Dos Líquidos: a Bíblia e os fundamentos bíblicos da sua poesia. “Quem não souber Bíblia, tem dificuldade em ler a poesia dele, porque por trás das metáforas da linguagem está um grande conhecimento bíblico”, diz Carlos Azevedo.

Além de uma intervenção na manhã de sábado sobre as raízes bíblicas da poesia de Daniel Faria, a manhã deste domingo prevê outras três abordagens relacionadas com os temas referidos, incluindo a última, sobre o corpo e a morte (a cargo de José Rui Teixeira, responsável da cátedra Poesia e Transcendência).

Outro tema da obra de Daniel Faria é a morte. “O facto de ele morrer com 28 anos e ter deixado, apenas com essa idade, uma obra poética extraordinária onde fala muitas vezes do tema, faz as pessoas dizer, talvez apressadamente, que ele estaria a prever que ia morrer novo”, diz o bispo Azevedo. “A palavra morte, para ele, é espiritual, é evangélica. Trata-se de morrer para as lógicas do sistema, para viver na lógica do que Deus quer.”

Na noite de sábado, o colóquio incluiu ainda um concerto na Igreja Matriz de Tabuaço, com a peça Lado Aberto – Uma leitura musical e intertextual da poesia de Daniel Faria, composta por Alfredo Teixeira e interpretada pelo Entre Madeiras Trio e pelo Coro e Ensemble São Tomás de Aquino.

A inovação da obra de Daniel Faria percebe-se na forma de o poeta “encontrar palavras e uma forma poética: ele leu Herberto Hélder e Eugénio de Andrade, gostava de Sophia, vemos que há alguns apadrinhamentos, mas ele sai fora deles, tem estrutura poética e uma forma de dizer que é nova e profundamente rica, cheia de visão mística…”, regista Carlos Azevedo.

A sua obra, por outro lado, não se reduz à devoção, acrescenta o bispo: “Ele quase nunca fala de Deus e não cita o seu nome, mas é a profundidade da relação com o Transcendente que está verdadeiramente presente na sua poesia de uma forma sublime. Às vezes Deus prima pela ausência e pelo silêncio e esse desafio de silêncio e ausência é muito marcante.”

Num dos raros poemas, ainda inédito em livro, em que o nome de Deus está presente (No país de Deus, publicado na revista Viragemdo Metanoia, nº 39, Setembro 2001), Daniel reza uma espécie de litania:

“Eis o outono/ Trazendo os homens/ Para pisar
/ As folhas
/ Pisar as uvas

O outono/ Para pisar/ O sol

O outono para descalçar/ As mulheres/
 Para as prender/
 No meio do areal

Para desprender/ As suas ladainhas:

deus do mar /dai-nos mais ondas

deus da terra /dai-nos mais mar

deus das nuvens / dai-nos mais céu (…)

deus da pedra /dai-nos as margens

deus do outono /dai-nos nascentes

deus do menino /dai-nos regresso

deus do fim /dai-nos acenos

deus da morte /somos pequenos.

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