Dante e o Inferno: o sentido perdido ou nebuloso da jornada humana

| 26 Abr 2021

Inferno. Botticelli. Dante

“A estratificação do Inferno em nove círculos, cada um deles com penas mais terríveis do que o antecedente, muito contribuiu para o imaginário do discurso religioso cristão acerca das penas que sofrerão os réprobos nos finais dos tempos. Ilustração: Sandro Botticelli, O mapa do Inferno (Biblioteca Apostólica Vaticana)

 

“Deixai toda a esperança, vós que entrais” (Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate). Assim se lê na advertência encontrada por cima da porta do Inferno, no início do canto III da Divina Comédia de Dante Alighieri. A estratificação do Inferno em nove círculos, cada um deles com penas mais terríveis do que o antecedente, muito contribuiu para o imaginário do discurso religioso cristão acerca das penas que sofrerão os réprobos nos finais dos tempos.

Embora, na descrição dos infernos, Dante se socorra muito mais da mitologia grega e romana do que das escrituras, muitas vezes não nos apercebemos de como esta imagética deixou as suas marcas inquestionáveis em toda a nossa cultura ocidental ao longo destes últimos setecentos anos. Quem não se lembra dos sermões inflamados de Girolamo Savonarola na Florença nativa de Dante, essa figura histórica do século XV tão atormentada pelos terrores do fogo do inferno dantesco? Ou até mesmo aquelas prédicas acaloradas e terríveis do pregador calvinista americano do séc. XVIII, Jonathan Edwards, no seu famoso sermão “Pecadores nas mãos de um Deus irado”?

Passados exatamente setecentos anos após a morte de Dante e mesmo que esta imagética de terror seja ainda usada nalgumas franjas do fundamentalismo religioso, designadamente naqueles que ainda persistem numa leitura literal dos textos sagrados e no dogma da inerrância bíblica, faz muito tempo que essas narrativas dantescas do Inferno, em forma de poesia e alegoria, deixaram de fazer qualquer sentido nos dias de hoje. Mas qual a relevância de Dante para a nossa cultura hipermoderna onde, segundo estatísticas mais recentes, o número de pessoas que afirmam não ter fé em Deus e até na própria razão, tem vindo a crescer cada vez mais? Poderá Dante, como afirmou o Papa Francisco, ser um profeta de esperança “neste momento histórico particular, marcado por muitas sombras, por situações que degradam a humanidade, por falta de confiança e de perspetivas para o futuro”?

Poder-se-á ainda falar de esperança nestas sociedades impregnadas de relativismo onde se vislumbra no horizonte tempos de incerteza, sem muitas referências onde se ancorar? Encontramo-nos como o peregrino Dante que no início da sua obra declama: “no meio do caminho em nossa vida, eu me encontrei por uma selva escura, porque a direita via era perdida” (Canto I, 1-3).

Após terem atravessado e visto todos os horrores ao longo dos nove círculos do Inferno, são interessantes as palavras de Dante, quando este chega, com Virgílio, ao último círculo que está situado no centro da Terra: Nesse caminho pouco luminoso entrámos por voltar ao claro mundo; e sem cuidar de ter algum repouso, subimos, antes ele e eu segundo, tanto que eu vi enfim cousas belas que tem o céu, por um buraco ao fundo; e saímos voltando a ver estrelas” (Canto XXXIV). Termina aqui esta sua jornada ao Inferno, com esse retorno final à luz das estrelas, que na filosofia clássica personifica a sabedoria e que direcionará a alma humana até à Transcendência, fonte de todo o conhecimento e amor. Também ele influenciado por Agostinho, ter-se-á lembrado das suas Confissões: “fizeste-nos para Ti e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Ti.”

O Inferno não será tanto um lugar, mas um estado de alienação da Transcendência, de afastamento do amor eterno de Deus. As portas do Inferno, onde, segundo Dante, existiria essa frase de ali se deixar toda a esperança, estarão, como afirmou C.S. Lewis, trancadas por dentro. Mas a esperança, ainda que deixada no meio de tanto sofrimento, poderá ser certamente recuperada; o Salvador, no Seu discurso da paixão, e como muito bem traduziu Frederico Lourenço, afirmou perentoriamente que “a todos puxarei para mim”, sim a todos, do mais perfeito ao pior de todos, apesar de todas as falhas cometidas, desses infernos interiores que todos temos dentro de nós.

A obra-prima de Dante Alighieri, esse grande itinerário que abarca todas as dimensões da vida humana, ainda estará aí por muito tempo ajudando a muitos a redescobrir o sentido perdido e nebuloso das suas jornadas aqui na Terra. Afinal, e como o disse e muito bem o Papa Francisco: “Dante é um profeta de esperança, anunciador da possibilidade da redenção, da libertação, da profunda mudança de cada mulher e homem, de toda a humanidade. Ele convida-nos mais uma vez a reencontrar o sentido perdido ou ofuscado da nossa jornada humana e esperar ver novamente o horizonte luminoso no qual brilha em plenitude a dignidade da pessoa humana.”

 

Vítor Rafael é investigador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo, da Universidade Lusófona.

 

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