Diz-me a minha amiga N. (infelizmente, a mil quilómetros de distância) que a dádiva mais importante está no tempo, no tempo que damos aos outros. Dar-se aos outros é, de facto, diferente de dar aos outros. Paradoxalmente, é muito mais difícil e muito mais fácil de pôr em prática. Não exige somente mão estendida. Exige uma verdadeira disponibilidade – numa escada que sobe do verbo “dar” ao verbo “estar” e, depois, alcança talvez o “permanecer”, o “ficar”, o “entregar-se” (difícil, não é?).
Escutar o outro, parar para uns minutos de conversa, sentar-se na esplanada ou no café com alguém, digitar um número de telefone e ligar ou ligar-se a alguém nem que seja para obrigar o outro lado a dar umas gargalhadas, responder a mensagens, whatsappar, fazer-se presente, convidar e deixar-se convidar, alentar, aconselhar, corrigir se necessário… são acções que transformam o alívio aparentemente caridoso em generosidade, partilha, entrega e, vale a pena dizê-lo, amizade ou amor.
Não é, contudo, algo que seja facilmente compreendido. Do outro lado, há cada vez mais barreiras diversas que rejeitam a dádiva, talvez porque os seres do nosso tempo vão sendo hábeis na rejeição da intimidade, na medida em que a intimidade partilhada obriga cada um de nós a olhar para o espelho. Aceita-se a simpatia. Já a empatia é algo suspeito, gera desconfiança, meio-caminho para assistirmos à transmutação dos seres humanos numa espécie de ouriços enrolados sobre si próprios.

Fotografia © Alena Darmel (2021)
Se a solidão é uma epidemia do nosso tempo que poucos querem resolver pois dá lucros diversos, a pandemia talvez esteja numa estimulada “avareza afectiva, vivencial e emocional”, com proporções monstruosas (diz mais uma vez a minha amiga N. numa das nossas longas conversas por Whatsapp).
É fácil exibir euforias, vaidades, raivas, conversas fiadas, escritas ou faladas, selfies sucessivamente apresentadas como retratos do que não somos, nomeadamente nas redes sociais. Já estabelecer pontes constitui um problema, neste tempo em que a palavra “amizade” (e as suas associadas) está quase irreconhecível, tal a erosão a que foi submetida pelo mau uso, o mesmo se podendo dizer de termos como “partilha” ou “ajuda” ou até “amor”.
Como podemos sair disto, se, quando nos damos, vemos perante os olhos seres humanos a transformarem-se em ouriços ou gatos assanhados, prontos a arranhar?
Não sei a resposta. Se alguém a souber, diga-me. Não nos salvaremos individual e colectivamente se não encontrarmos a solução.
Ruy Ventura é historiador de arte (CHSC – Universidade de Coimbra), poeta e organizador de antologias poéticas de Frei Agostinho da Cruz, Sebastião da Gama e sobre o Cântico das Criaturas, publicada pela Officium Lectionis [ver 7MARGENS].










