Presépios no Vaticano

Das montanhas do Peru à Praça de São Pedro

| 14 Dez 21

O presépio de Chopoca (Huancavelica, Peru) e a árvore de Natal oriunda da região de Pádua, na Praça de São Pedro. Foto © Tony Neves.

 

Sim, presépios. Uso o plural porque são 102. Uma centena está à sombra da colunata de Bernini. Outro está na Sala Paulo VI, feito por jovens de Pádua. O grande, vindo directamente do Peru, ocupa o centro da Praça de S. Pedro.

Árvore de Natal Trentina

No Natal do Vaticano, a tradição ainda é o que era. Basta entrar na Praça para os olhos se encherem com o verde da enorme árvore de Natal, vinda este ano das florestas por onde andou, viveu, morreu e se imortalizou Santo António: diz no tronco que é oferta da Diocese de Pádua. É um abeto vindo dos bosques de Andalo, no Trentino. 

Enorme, desafia os céus e faz concorrência ao obelisco que ocupa o ponto central da grande praça vaticana. As opiniões de quem olha são divergentes: “Ai, ai, andam a deitar árvores abaixo!”, “Que beleza, temos que voltar aqui à noite para ver a iluminação!”. Também se escuta quem sai em defesa: “É tudo muito Laudato si’, pois a árvore é retirada de florestas onde é preciso desbastar”.

100 Presépios

Presépio numa bomba de água de combate a incêndios na Praça de São Pedro. Foto © Tony Neves

Saí da Praça e refugiei-me nas colunatas. Há sol, mas o frio e o vento são cortantes, algo normal nesta invernia romana. Presepi in Roma, está indicado em diversas faixas pregadas nas colunas. São 100, está dito. As pessoas acotovelam-se, de tantas que são, aproveitando o sol e o aparecimento do Papa Francisco à janela para o Ângelus de domingo. 

Vale a beleza e diversidade dos presépios, mas também o espanto dos comentários. E, desta feita, nem sequer são as numerosas crianças quem mais reage: “Olha este presépio dos bombeiros!” Sim, é um dos mais originais: está construído dentro de uma bomba de água de combate a incêndios. “E este aqui da ATAC” – reacção à parte da frente de um autocarro dos transportes públicos de Roma, também ela transformado na base de um presépio. 

Há-os para todos os gostos, estilos, tamanhos e materiais. À saída, um cartaz enorme com um pedido do Papa Francisco: “Espero que esta tradição do Presépio não acabe nunca!”

Presépio construído na parte da frente de um autocarro. Foto © Tony Neves

 

Peru, 200 anos independente

Mas o coração da Praça está ocupado com o Presépio que veio das montanhas do Peru. Pretende celebrar os 200 anos da independência deste país andino. Levou dias e dias a construir, trabalho que fui acompanhando nas várias vezes que por ali passei. Foi inaugurado na sexta feira, 10 de dezembro. Veio da aldeia de Chopoca, que fica no departamento de Huancavelica, frase multiplicada a toda a volta de estrutura do presépio. 

Olhá-lo dá uma sensação de equilíbrio e de coerência. Parece que mudamos de terra e caímos no mundo que o Papa Francisco descreveu na encíclica Laudato Si’, propondo uma comunhão entre pessoas e natureza, numa vivência de fraternidade global, onde tudo está interligado. De facto, na paisagem que se impõe aos olhos de quem visita o presépio, estão as pessoas (todas com rostos e trajos das montanhas andinas), os animais (com especial lugar para a grande águia e os lamas) e a vegetação. Tudo muito estético, harmonioso e fraterno. 

Valem, também aqui, os comentários: “Olha, mãe, até o S. José e Nossa Senhora são índios!”… “Os Magos vieram de lamas. Não deviam vir de camelos?!…” “Vejo aquele pássaro grande e lembro-me logo da canção ‘El condor pasa’!…” Segundo informação oficial, as figuras do Presépio foram feitas em tamanho natural, a partir de materiais como cerâmica, madeiras locais e fibra de vidro.

Um Natal despoluído

Tijolos, flores e plantas como base e cenário de um outro presépio exposto na Praça de São Pedro. Foto © Tony Neves

O Papa Francisco, na inauguração, pediu que o mundo não se deixe poluir pelo consumismo nem pela indiferença que mata. E disse: “A árvore e o presépio apresentam-nos a atmosfera típica do Natal que faz parte do património das nossas comunidades: uma atmosfera de ternura, partilha e intimidade familiar. Não vamos viver um Natal falso e comercial! Deixemo-nos envolver pela proximidade de Deus, pela atmosfera natalícia que a arte, a música, as canções e as tradições trazem aos nossos corações.” 

Mas o Papa lançou ainda um desafio: “Deus vem para estar connosco e pede-nos para cuidarmos dos nossos irmãos e irmãs, especialmente dos mais pobres, mais fracos e mais frágeis, a quem a pandemia ameaça marginalizar ainda mais. Pois foi assim que Jesus veio ao mundo e o presépio lembra-nos disso.”

Todos estes Presépios e a Árvore estarão expostos até à Solenidade do Baptismo de Jesus, 9 de janeiro, data oficial do fim do tempo do Natal.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como assistente geral dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

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Regressei ao cristianismo. Mas fui budista zen cerca de quinze anos, integrada na orientação budista zen do mestre japonês Taisen Deshimaru (Associação Zen Internacional); tendo como mestre um dos seus discípulos, Raphael Doko Triet. Gostaria de lhe prestar aqui a minha homenagem pois aprendi muito com ele, ligando-nos ainda – embora à distância – uma profunda amizade.

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