Das notícias de Bob Dylan aos heróis

| 22 Jul 20

Se a autoestima do país fosse um pouco melhor, não sentiríamos necessidade de fabricar heróis por tudo e por nada e muito menos de os destruir. Mas também ficaríamos fartos das más notícias que nos enfiam repetidamente pela goela abaixo e apreciaríamos as boas.

 

Em tempos que já lá vão, quando um desgraçado trazia uma má notícia ao rei corria um sério risco de ser executado. Matar o mensageiro era uma forma de exorcizar o mal. Agora as coisas viraram do avesso e as pessoas assumiram uma postura colectiva de tipo masoquista, em que gostam de premiar quem lhe traga as piores notícias. Se não fosse assim não existiriam tablóides e jornalismo de sarjeta.

As más notícias são como as raparigas más, um risco calculado, mas garantem uma certa vertigem de aventura e procuram satisfazer o gosto do interdito. Talvez por isso o cidadão comum pareça demonstrar uma particular apetência para as más notícias. Mesmo descontando os pessimistas e os que se regozijam com o mal dos outros, fica a estranha sensação de que estamos sempre à espera de acontecimentos funestos ou de desgraças que estão para vir, um pouco na linha de Astérix, o corajoso resistente gaulês e terror do romanos, que só tinha medo duma coisa: que o céu lhe caísse em cima da cabeça.

Lembro-me de Raul Solnado dizer uma vez em entrevista que não entendia por que razão as notícias tinham que ser quase sempre funestas, quando havia coisas muito positivas a acontecer. Esta situação estava para lá da compreensão dele, que como artista e humorista tinha por profissão trazer alegria e boa disposição ao público em geral, e não é difícil concordar com ele.

Poderíamos ensaiar aqui umas quantas razões psicossociais que talvez ajudassem a explicar o fenómeno, mas centremo-nos nesta frase de Bob Dylan: As boas notícias nos dias de hoje são como um fugitivo, são tratadas como criminosas e postas em fuga. Castigadas. Tudo o que vemos são notícias que não servem para nada.” (Expresso, 27/6/20). Descontando a generalização, a verdade é que os editores de informação nas televisões raramente conseguem resistir à pressão da “faca e alguidar”, do que amedronta, escandaliza, ameaça ou provoca indignação. Pensam eles que é isso que as pessoas procuram nas notícias; e se calhar é mesmo, pelo menos em parte.

Mas será o público assim tão masoquista? Seremos assim tão negativos que as más notícias nos dão especial prazer? Seremos adeptos do princípio anarquista do “Se há governo, sou contra!” tão presente no período de instabilidade governativa da I República e que corrói as democracias? Tiramos mesmo prazer do mal dos outros, desde que não bata à nossa porta?

De facto, somos demasiado prontos a fabricar heróis. Um enfermeiro que ajudou a salvar a vida dum primeiro-ministro estrangeiro à beira da morte, um futebolista que marcou um golo improvável e que nos deu uma taça europeia de futebol, um juiz de instrução que mandou prender um figurão, uma actriz que se notabiliza no seu desempenho. Não, não são heróis. Apenas fizeram o que deviam e a sua profissão lhes impunha, mas também o que se esperava deles.

Heróis são os homens e sobretudo as mulheres que todos os dias gastam quatro horas de ida e volta para os seus locais de trabalho, em transportes públicos sem condições, deixando os filhos em creches manhosas e ganhando o pão em trabalho precário e mal remunerado. Heróis são os reformados que auferem pensões de miséria e ainda ajudam filhos e netos com o pouco que têm, muitas vezes comendo mal, sem dinheiro para comprar a medicação de que necessitam, a viver em casas cheias de bolor e onde chove como na rua. Heróis são os que insistem no sorriso fácil mesmo quando são desprezados pela família e vizinhos. São heróis anónimos e não sabem.

Mas assim como criamos heróis em três tempos, em três tempos os deitamos abaixo, com um gozo perverso motivado por inveja social, sejam eles políticos, artistas ou atletas. Trata-se duma clara patologia da sociedade.

Se a autoestima do país fosse um pouco melhor não sentiríamos necessidade de fabricar heróis por tudo e por nada e muito menos de os destruir. Mas também ficaríamos fartos das más notícias que nos enfiam repetidamente pela goela abaixo, que não servem para nada, como diz o prémio Nobel da Literatura 2016, e apreciaríamos as boas.

Por alguma razão o Evangelho de Cristo é a mensagem das boas novas de salvação, e não das más novas de condenação e destruição: Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (João 3:17)

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona e coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo; texto publicado também na página digital da revista Visão.

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