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Folha
[vendo o denário / que efígie deixei? ―/ livro da consolação © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

Das perguntas primitivas à consolação

| 21/09/2026

[domingo xxv do tempo comum ― a ― 2026]

1. Encontrando-nos ainda em pleno tempo de vindimas,
embora, como sabemos, devido às condições climáticas em mudança,
elas estão a fazer-se, de ano para ano, cada vez mais cedo.
Eis porque cai bem no ouvido a parábola que hoje Jesus nos contou.
Atento à dura realidade que O circundava,
e, por isso, também à vida dos camponeses e vinhateiros na Galileia,
Jesus compara o reino dos Céus ao proprietário de uma vinha.
Notemos que, até há poucas décadas atrás,
também em Portugal, nomeadamente no Alentejo,
os jornaleiros eram contratados de forma semelhante à da parábola.
Os jornaleiros reuniam-se nas praças das vilas e cidades,
para onde se dirigiam de madrugada a fim de serem contratados.
Nessas «praças da jorna» ou «mercado dos homens»,
os proprietários das grandes herdades ou os seus feitores
contratavam os trabalhadores, ajustando o salário do dia.
Era um sistema de dura crueza e sujeito a grandes precariedades,
que, sazonalmente, era ativado para as ceifas,
a apanha da azeitona nos olivais e as vindimas.

Cacho de uva

[Cai bem no ouvido a parábola que hoje Jesus nos contou.  Fotografia ©Joaquim Félix]

2. Atualmente este sistema de contratação alterou-se.
É verdade que ainda encontramos muitos trabalhadores no setor agrícola,
sobretudo estrangeiros, com salários miseráveis e condições de vida indignas,
pelo menos, do ponto de vista da Doutrina Social da Igreja
e, também, em relação aos direitos regulados pelo Código do Trabalho.
No caso das vindimas, como na colheita da azeitona e dos cereais,
há cada vez menos destes assalariados,
porque tais serviços são crescentemente realizados por máquinas.
Até aqui, na Região Demarcada dos Vinhos Verdes,
estão a fazer-se vindimas em que os cestos são transportados por drones.

3. Havendo outras diferenças que poderíamos aferir ainda,
concentremo-nos em certos detalhes da parábola contada por Jesus.
Porque desejava mais trabalhadores,
durante um só dia, o proprietário deslocou-se por cinco vezes
até ao «mercado dos homens»; era um proprietário-em-saída.
Sair de madrugada correspondia à prática costumeira,
assim como ajustar um denário por dia, cerca de 40 € a 80 €.
O que não era habitual era sair nas Horas Intermédias,
a meio da manhã (tércia), por volta do meio dia (sexta)
e pelas três horas da tarde (noa).
Além de trabalharem durante menos tempo,
recordemos que os da meia manhã encontravam-se ociosos na praça.

[Sair de madrugada correspondia à prática costumeira. Fotografia © Joaquim Félix]

Ainda bem que quem os contratou foi o proprietário,
porque, se fosse o capataz, dificilmente lhes dirigiria a palavra sequer,
quando muito até os julgaria com um olhar de desdém.
Mais difícil seria contratar alguém nas horas mais quentes do dia,
ou ao cair da tarde, sem previamente acertar o salário.
Não obstante a aparente irracionalidade das horas para convocar jornaleiros,
tidos por ociosos e que ninguém desejara ― imaginaremos os motivos ―,
inesperadamente, eles acolheram a interpelação do proprietário;
note-se, mesmo desconhecendo o salário que ele poderia praticar,
por mais que lhes tenha dito que retribuiria com o que fosse justo.

Moedas gregas e romanas. Museu de Reggio Calabria.

[Sem previamente acertar o salário. Moedas gregas e romanas. Museu de Reggio Calabria. Fotografia © Joaquim Félix]

4. «Chama os trabalhadores e paga-lhes o salário,
a começar pelos últimos e a acabar nos primeiros» (Mt 20,8).
É a instrução que o proprietário dá ao capataz quando já anoitecia.
No fundo, ela corresponde ao direito laboral do povo judeu,
no qual se determina que o salário deveria ser pago no mesmo dia,
antes do pôr do sol, sem opressões nem roubos (cf. Deut 24,15; Lev 19,13).
Por conseguinte, a surpresa surgirá na ordem do pagamento.
Começar pelos últimos parece uma provocação, não parece?
Se fosse connosco, imagino que, quase todos, senão todos,
iniciaríamos a distribuir os salários pelos que começaram de madrugada,
atribuindo-lhe a quantia combinada,
e depois, segundo o tempo que cada um trabalhou,
ajustaríamos o salário conforme o preço praticado à hora.
Todavia, como ouvimos já na leitura do livro de Isaías,
os nossos modos de pensar e de agir, mesmo que justos,
estão muito abaixo dos pensamentos e dos caminhos do Senhor (cf. Is 55,8-9).

[O salário deveria ser pago no mesmo dia, antes do pôr do sol.  Fotografia © Joaquim Félix]

5. Imagino que muitos de nós se reverão na crítica ao proprietário,
talvez por pensarmos que somos dos primeiros a trabalhar na vinha;
todavia, se fôssemos dos últimos a ter acolhido o convite do Senhor,
como reagiríamos se Ele nos desse tanto como aos primeiros?
Que os nossos olhos jamais se tornem maus,
porque o Senhor, sem faltar à justiça, transborda na sua magnanimidade.
Terá Ele de nos pedir pareceres, para depois servir a sua bondade?
Poderemos fazer com que a nossa inveja
― o maior vício de Portugal, segundo o Pe. António Vieira ―
coloque limites à sua liberdade e misericórdia?
Com esta parábola, Jesus não está a sugerir uma política salarial
em que todos, sem mais, deveriam ganhar o mesmo.
Sugere, sim, que a lógica do Reino dos Céus é outra:
«os últimos serão os primeiros
e os primeiros serão os últimos» (Mt 20,16).

[Sem faltar à justiça, transborda na sua magnanimidade.  Fotografia © Joaquim Félix]

6. Por diversas vezes me detive a considerar
quem poderiam ser estes últimos a quem o Senhor dá primazia.
Hoje, porém, sem deixar de ter em mente a atual política salarial,
os escalões do IRS e as circunstâncias da vida económica que,
devido às guerras em curso e ao aumento do preço da energia,
fazem com que estejamos a perder poder de compra e a viver pior,
gostaria de colocar o foco num outro âmbito.
Qual? Nem mais, no convite de trabalhadores
para os serviços da Igreja, nas suas mais variadas expressões.
Porque nos congregamos, no primeiro encontro do ano,
com os seminaristas, os seus familiares e os padres educadores,
sem procurar arrefecer a temperatura do ar (35 ºC) nem da parábola,
sentiremos que as Igrejas locais de que fazemos parte
estão a precisar de mais trabalhadores, para não ficarem incultas
nem se perca nada da abundância de dons que o Senhor proporciona.

em mente a atual política salarial. Escultura de Mário Rocha, Casa do Marco, Arga de Baixo, Caminha.

[Sem deixar de ter em mente a atual política salarial. Escultura de Mário Rocha, Casa do Marco, Arga de Baixo, Caminha. Fotografia  © Joaquim Félix]

7. De forma familiar e acolhedora,
iremos fazer a apresentação dos novos seminaristas:
3 da diocese de Viana do Castelo e 1 da diocese de Braga.
Para que tenhamos noção da realidade, com a objetividade necessária,
recordo que a diocese de Braga é formada por 551 paróquias
e a diocese de Viana do Castelo é constituída por 291.
Ou seja, este ano, das 842 paróquias, entram 4 seminaristas diocesanos.
E, não só por este motivo, pois a Faculdade de Teologia não é apenas
para a formação dos futuros presbíteros, nem se circunscreve ao Minho,
há turmas no Campus de Braga da Universidade Católica Portuguesa,
na Licenciatura e no Mestrado em Teologia, com 5 alunos.

[Das 842 paróquias (Braga e Viana do Castelo), entram 4 seminaristas diocesanos. Fotografia © Joaquim Félix]

8. Para fazer, com fé e esperança, uma leitura deste sinal dos tempos,
convém que comecemos por nos interrogarmos a nós mesmos.
Depois, com humildade, consideremos o estado da nossa família
em termos de compromissos eclesiais.
Em seguida, façamos a leitura do modo como é vivido o Evangelho
na paróquia de que fazemos parte.
Discernindo a situação nestes três contextos de proximidade,
podemos evitar o complexo da culpabilização dos outros.
Não é que não haja particulares responsabilidades
a atribuir aos membros da pastoral vocacional, aos seminários
e a quem exerce o serviço de direção das Igrejas locais,
mas, ainda assim ― repito ―, comecemos por cada um de nós,
a nossa família e a comunidade onde vivemos o Evangelho de Jesus.

[Discernindo a situação nestes três contextos de proximidade. Fotografia  ©  Joaquim Félix]

9. Na parábola, o proprietário da vinha saiu cinco vezes
para contratar trabalhadores.
Porque, no final da primeira hora, terá notado que precisava
de contratar mais trabalhadores para a sua vinha?
Saiu, voltou a sair, uma e outra vez, até ao cair da tarde.
Estaremos a sair ao encontro de quem possa trabalhar na Igreja?
Haverá pessoas que, por ninguém as ter convocado,
se encontram ociosas nas praças das aldeias, vilas e cidades?
Porque é que o proprietário preferiu ser ele a contratar
e não enviou, em sua vez, o capataz?
Por que motivo os trabalhadores das horas intermédias e da tarde
foram trabalhar sem saber quanto o proprietário lhes daria,
bastando-lhes a confiança de que o proprietário seria justo?

[O proprietário da vinha saiu cinco vezes. Fotografia © Joaquim Félix]

10. Gostaríamos, sem dúvida, de ver mais trabalhadores incansáveis,
como o apóstolo S. Paulo, que foi chamado por volta do meio-dia.
Constrangido, não apenas porque se encontrava preso, talvez em Éfeso,
ou porque desejasse vivamente, pela morte, encontrar-se com Cristo,
sentia quanto era necessário continuar a trabalhar pelos Filipenses
e todos os seus filhos e filhas nas diferentes comunidades que gerou.

Cadeias que, segundo a tradição, algemaram S. Paulo. Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma

[Cadeias que, segundo a tradição, algemaram S. Paulo. Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma.  Fotografia © Joaquim Félix]

11. Encontramo-nos no Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave.
No núcleo museológico, conservam-se muitos ex-votos,
com milagres operados por intercessão de Nossa Senhora do Porto d’Ave.
Iremos pedir-lhe o milagre de mais trabalhadores para a vinha do Senhor?
Porventura o problema da atual carência, até de seminaristas e de teólogos,
há de resolver-se através de milagres?
Tudo isto não poderia solucionar-se, como nas vindimas, com mais drones?
Ironia à parte, sabemos que só com a reconstrução da comunidade
poderemos esperar que, em termos de ministérios e serviços,
a qualidade da vida eclesial conheça melhores dias.
Na verdade, como disse o card. José Tolentino,
«a comunidade é a maior obra de arte que podemos criar juntos».
Esta obra de arte dificilmente poderá nascer
só com a implementação de programas criados pela Inteligência Artificial,
sobre a qual, durante a semana que passou, ouvimos sérios alertas.
Eis porque o Papa Leão XIV levará este assunto, entre outros,
para a viagem apostólica a França.
Mais, recordemos que, há dias, ele disse que «uma comunidade
na qual tudo depende do pároco é uma comunidade frágil».

12. A passagem que ouvimos da leitura do Livro de Isaías
corresponde à última parte do chamado «Livro da Consolação».
Tais palavras foram escritas por um profeta anónimo
para consolar o povo judeu, exilado na Babilónia,
a fim de que, no meio de tanta amargura, conservasse a esperança.
Invoquemos também nós o Senhor, «enquanto está perto» (Is 55,6).

Ex-voto no Museu do Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave, Taíde, Póvoa de Lanhoso. 

[Ex-voto no Museu do Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave, Taíde, Póvoa de Lanhoso.  Fotografia © Joaquim Félix]

E, porque fiz muitas perguntas, gostaria de passar a um outro livro,
também intitulado O Livro da Consolação, de Mário Rui de Oliveira,
para ruminarmos durante o dia as duas últimas estrofes do poema
«Os dias vêm antes ou depois das noites?»:
«era o tempo das grandes narrativas
e essas perguntas primitivas
faziam de nós um povo

pobres implorando
de mãos nos bolsos
a grande consolação» (p. 23).
Que a consolação se faça bebendo do cálice na vinha do Senhor,
com perguntas novas e perguntas primitivas misturadas na nossa sede!

 

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 20 de setembro, [domingo xxv do tempo comum ― a ― 2026], proferida no Santuário de Nossa Senhora do Porto d’Ave, em Taíde, arciprestado da Póvoa de Lanhoso.

 

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