Estreia na Igreja de São Tomás de Aquino

Das trincheiras da Grande Guerra pode ter nascido este concerto sobre o mundo

| 15 Set 21

chemin des dames trincheiras II guerra mundialAbril de 1917: posto de socorro instalado nas fendas de Oulches: entre mortos e feridos, macas e assistência espiritual, pode ter nascido esta Missa sobre o Mundo. Foto © Archives départementales de l’Aisne – 2 Fi Oulches-La Vallée-Foulon 6.

 

“Os primeiros esboços deste texto terão surgido nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial”, explica o compositor Alfredo Teixeira, autor da Missa sobre o Mundo, obra para órgão e voz recitante que terá a sua estreia mundial absoluta no próximo sábado, 18 de Setembro, às 16h30 (entrada livre, sujeita ao número de lugares existentes). A obra, construída a partir de excertos do texto homónimo de Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), padre jesuíta e paleontólogo, abrirá a temporada de concertos na Igreja Paroquial de São Tomás de Aquino, em Lisboa.

Talvez iniciado no Chemin des Dames, planalto a norte de Reims (nordeste de França), onde Teilhard de Chardin esteve, servindo como carregador de macas e capelão nas trincheiras da Grande Guerra 1914-18, o esboço foi depois incluído no texto Le Prêtre de 1918, quando o jesuíta ainda servia o exército francês. Em 1923, Chardin retoma as ideias do seu texto durante uma expedição científica, na China, no deserto de Ordos, onde foi explorar sítios do Paleolítico.

Alfredo Teixeira parte dessa história para descrever o cenário – “as estepes desérticas da Mongólia interior” – e “a circunstância: a privação de pão, vinho ou altar para a celebração da missa”. O ofício era o de “um padre paleontólogo, perscrutador da espiritualidade do mundo, teólogo da matéria”. O texto, finalmente, era do género eucológico, ou seja, relacionado com a oração litúrgica, que “favorece esse encontro entre o exercício orante de comunicação com Deus e a reflexão sobre a Criação, como lugar de comunhão”.

A Missa sobre o Mundo é “um dos textos místicos e teológicos mais lidos e comentados, ao longo do século XX”, diz Alfredo Teixeira. E é provável, tendo em conta algumas informações que o próprio Teilhard de Chardin dá em cartas suas, que ele “tenha sido inspirado, particularmente, na vivência da Festa da Transfiguração”, que a Igreja Católica celebra a 6 de Agosto. “Num contexto de diáspora e desnudamento espiritual, sem matéria eucaristiável – o pão e o vinho –, sem altar, é o cosmos que se transfigura”, acrescenta Teixeira, que é também professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa.

“É essa meditação sobre o universo, enquanto altar e espécie eucarística, que se transcreve neste hino”, explica o compositor. “Encontramos ecos da teologia eucarística católica do início do século XX, marcada pela espiritualidade da adoração, da consagração e do envio ao mundo. Mas, também, uma recriação moderna da teologia do Cristo cósmico, alfa e ómega, plenitude da Criação. Nesta cosmovisão cristã, a Missa toma as proporções do universo, como casa comum”, diz, numa alusão às referências que o Papa Francisco faz também a Teilhard, na encíclica Laudato Si’, sobre a casa comum.

Este processo de investigar e criar é também uma forma de fazer teologia prática, refere Alfredo Teixeira ao 7MARGENS. E a obra que agora será proposta pretende também constituir-se como “uma leitura teológica do texto de Teilhard de Chardin”, feita em cinco andamentos: Oferenda; O fogo sobre o mundo; O fogo no mundo; Comunhão; Oração.

A recriação em música, “conservando a sua estrutura eucológica fundamental, procurou o diálogo, pouco frequente, entre a palavra dita e a matéria sonora do órgão”, acrescenta o compositor. “A dicção do texto busca a diversidade de ritmos que o habitam. A escrita para órgão encena o texto, sublinha as suas cores, sugere os climas ou comenta as ideias. O resultado é esse encontro entre a fragilidade de uma voz e a força de um poderoso engenho de sons. Na esteira do pensamento de Teilhard de Chardin, esse encontro é a metáfora da transformação espiritual da matéria.”

O concerto, onde será executada ainda a a cantata de Bach, Wir müssen durch viel Trübsal in das Reich Gottes eingehen (“Entraremos no Reino de Deus no meio de muitas tribulações”, BWV 146), assinalará também os 50 anos do órgão de tubos Pels Van Leeuwen, instalado na igreja de São Tomás de Aquino – aliás, o primeiro desafio para compor uma obra para órgão partiu do organista da igreja, lembra Alfredo Teixeira. O Ensemble São Tomás de Aquino participa no concerto, com a “presença inspiradora”, em fundo, dos “extraordinários painéis de Ilda David’”, acrescenta o compositor.

Este concerto, enfim, tem uma linha de continuidade com o anterior, que encerrou a temporada, em Junho, quando o Ensemble estreou o Hinário para um tempo de confiança, para coro, órgão e saxofone, escrito sobre textos do frade dominicano José Augusto Mourão. Tendo incluído também a apresentação da obra The Beatitudes, do estoniano Arvo Pärt, o concerto de Junho está disponível em vídeo:

 

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