A Câmara Municipal da Amadora organiza no dia 18, à tarde, uma jornada de diálogo e debate sobre a diversidade e o papel das religiões. Será no Espaço Delfim Guimarães (jardim no centro da Amadora, junto à estação), onde decorre a exposição Amadora, Viver no Tempo Natalício – Memórias, Identidades e Vivências na Diversidade.
Na exposição, que pode ser vista até 26 de janeiro, uma das notas relevantes são vários textos sobre o Natal censurados durante a ditadura do Estado Novo, em dezembro e janeiro, nas décadas de 1960-70. “Julgo ser a primeira vez que se revelam ao grande público estes textos sobre o Natal, total ou parcialmente censurados, da autoria do jornalista Orlando Gonçalves, fundador do extinto Notícias da Amadora, um jornal de referência contra o regime”, diz Joaquim Franco, jornalista e um dos comissários da exposição.
Um dos textos é um editorial intitulado “Primeira Carta de Amor e Ódio”, que Orlando Gonçalves escreveu em janeiro de 1966, em plena Guerra Colonial, depois de ouvir a homilia de um padre católico, e no qual faz uma pergunta que não terá agradado à comissão de censura: “Porquê, padre (a mim mesmo pergunto) só em certas ocasiões decidimos abdicar das nossas certezas e deixar que o amor vença e cale outras forças imperiosas que enraizaram e enquistam no íntimo do nosso ser? Porque não fazemos nós de cada dia um dia de Natal?”
Se este foi totalmente censurado, um outro editorial, de dezembro de 1968, teve censura parcial: “Chegámos a mais um Natal (…) e quantos dos nossos irmãos foram ficando pelo caminho? (…) e quantos mais irão ficar, não só nas sendas da guerra; também pelos atalhos da fome, da doença, do pavor!”
Testar a proximidade e o respeito religioso

Exposição “Viver no Tempo Natalício – Memórias, Identidades e Vivências na Diversidade”, na Amadora. Pintura de Rodrigo Dias, uma das cinco obras originais na exposição sobre o tempo natalício. Foto © Joaquim Franco
Inaugurada no final de novembro, a exposição Amadora, Viver no Tempo Natalício – Memórias, Identidades e Vivências na Diversidade recebeu visitas organizadas de comunidades religiosas, como jovens da comunidade muçulmana, significativa na cidade da Amadora, que, naquele espaço, em vésperas de Natal, foram convidados a entoar cânticos e a recitar textos do Alcorão referentes à sura dedicada a Maria, mãe do “profeta” Jesus.
Organizada pela autarquia, a exposição é comissariada também por Paulo Mendes Pinto e Sofia Sousa Claro, investigadores em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona. Tem a Amadora como ponto de partida para um circuito por memórias, identidades e vivências na diversidade do tempo natalício. Percorre registos e testemunhos da antiguidade, de um passado mais recente e de um presente que não se entende sem se conhecer o percurso demográfico, social e religioso do território que hoje constitui a Amadora.
“Um território administrativo, mas, sobretudo, humano, plural e complexo”, explicam os investigadores na introdução à exposição, que sintetiza o foco da iniciativa: “O tempo natalício não é monolítico, como não são os hábitos sociais que o caracterizam ou as tradições religiosas”, num caminho de “inculturação e relações, que todos convoca, ampliando os desafios da igualdade, da fraternidade e da solidariedade”.
Tendo o tempo natalício como referência, os vários núcleos da exposição abordam elementos transversais, com testemunhos de líderes e representantes de comunidades religiosas ou de amadorenses anónimos, que falam das literaturas do sagrado, como a Bíblia, o Alcorão e a Torá, artefactos arqueológicos recolhidos no território e objetos de culto religioso que enaltecem a luz, como uma coroa de advento de origem luterana, uma menorá judaica, uma Divi do templo hindu de Telheiras ou um tapete de oração islâmico com desenho de uma lamparina, e, com núcleo próprio, os presépios como expressão da inculturação e vivência do cristianismo.
Num núcleo artístico, exibem-se ainda cinco pinturas inéditas, cedidas por artistas plásticos convidados para se associarem à iniciativa com trabalhos sobre o tempo natalício.
Diversidade e polarização

Exposição “Viver no Tempo Natalício – Memórias, Identidades e Vivências na Diversidade”, na Amadora. Artigo sobre o Natal no extinto jornal Notícias da Amadora. Foto © Joaquim Franco
No dia 18, o programa começa às 15h00, com uma introdução musical do grupo evangélico Encontro Vida Worship, seguido do debate “A diversidade religiosa na construção de boa vizinhança”, para o qual estão convidadas as comunidades religiosas da cidade. Participam um padre católico (Krysztof Dworak, pároco da Damaia), e representantes do islão, da Assembleia de Deus (pastor Isaac Reis) e da Igreja Adventista (ancião João Marçal).
Depois de um segundo momento musical com cante alentejano, um segundo debate sobre “O papel das religiões num mundo polarizado – entre a moderação e a radicalização”, terá como oradores o padre Adelino Ascenso (missionário católico), Elsa Pereira (Aliança Evangélica Portuguesa), Joaquim Moreira (Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias) e Khalid Jamal (Comunidade Islâmica de Lisboa).
Os debates são moderados pelos comissários da exposição, Joaquim Franco (conselheiro local para a Igualdade) e Paulo Mendes Pinto (professor de Ciência das Religiões). A jornada termina com um breve concerto dos UDJAT, pelas 18h30.
Amadora, Viver no Tempo Natalício – Memórias, Identidades e Vivências na Diversidade
Espaço Delfim Guimarães
Parque Delfim Guimarães, 2700-337 Amadora
Todos os dias, 10h-13h e 14h-18h, até 26 de janeiro. Entrada livre.
Foto de destaque: Coro feminino da comunidade muçulmana da Amadora atuou na exposição em vésperas de Natal. Foto © Joaquim Franco
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