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Joaquim Félix
[cento e vinte e cinco/ é a palavra azul? ―/ vem à outra margem! vem! © haiku e fotografia: Joaquim Félix]

[Metáforas vivas]

De 125 Azul [Palavra] até à outra margem

| 10/08/2026

[domingo xix do tempo comum ― a ― 2026
1.º dia da semana nacional da mobilidade humana]

 

1. Na quinta-feira passada, comemorou-se o sexagésimo aniversário
da icónica Ponte 25 de Abril,
inaugurada oficialmente no dia 6 de agosto de 1966.
Era então a maior ponte suspensa da Europa e a quinta maior do mundo.
Passou a ligar as margens do rio Tejo, entre Lisboa e Almada,
cuja travessia, antes, era feita exclusivamente em barcos.
É impressionante a quantidade de veículos rodoviários e ferroviários
que a atravessam por dia: cerca de 150 000 veículos e 174 comboios.
Estima-se que sejam mais de 300 000 pessoas por dia
e mais de 100 milhões os seus utilizadores por ano.

2. Sem estarmos aqui para celebrar a festa litúrgica da ponte,
poderíamos, no entanto, cantar a 125 Azul imitando Luís Represas,
num tributo a prestar-lhe post mortem, no dia da ressurreição de Jesus:
«O tempo não me diz nada
Nem o homem da portagem na entrada da auto-estrada
A ponte ficou deserta
Nem sei mesmo se Lisboa não partiu para parte incerta».
Mais do que numa 125 Azul, iremos viajar na Palavra de Deus,
para atravessar pontes de risco elevado, tocadas pelos ventos,
e esperar, se não for necessário antes, Jesus na outra margem.
Deixada a ponte para trás, montemos a Palavra e cantemos:

«Viva o espaço
Que me fica pela frente e não me deixa recuar
Sem paredes
Sem portas nem janelas nem muros para derrubar».

3. Após a multiplicação de pães e peixes, recusando que O aclamassem,
Jesus despediu a multidão, saciada e com provisões ― doze cestos ―
para alimentar o povo de Israel, também ele esfomeado,
que atravessava o deserto sem se dar conta da chegada do Messias.
Porque bem saciada, Jesus pôde despedir a multidão.
Quanto aos discípulos, teve de obrigá-los «a subir para o barco,
e a esperá-l’O na outra margem» (Mt 14,22).

Praia. Mar

[Porque bem saciada, Jesus pôde despedir a multidão. © Fotografia: Joaquim Félix]


4. Terminada a atividade daquela jornada e caindo já a noite,
Jesus desejou estar em solitude para «orar a sós» (Mt 14,23).
Na semelhança de Moisés e dos profetas,
desde logo, como Elias, «subiu a um monte» (Mt 14,23).
Sabendo orar em comunidade, como por diversas vezes o fez,
quis, todavia, entrar em diálogo filial com o Pai.
Trata-se de algo que é igualmente fundamental para todos nós:
a celebração em assembleia, como agora estamos a fazer,
e a oração individual, que cada um faz em casa e noutros lugares.

Natureza

[Jesus desejou estar em solitude para «orar a sós» (Mt 14,23). © Fotografia: Joaquim Félix]

5. Jesus sobe a um monte, os discípulos sobem para um barco.
Desconhecemos qual o motivo porque os «obrigou» a fazê-lo,
a fim de O esperarem «na outra margem» (Mt 14,22).
É difícil acreditar que Jesus preferisse um momento de paz só para Ele
e, sem dó, colocasse os seus discípulos em perigo de vida no alto mar.
Ainda assim, é manifesta a sua vontade de que «a outra margem»
fosse o lugar de reencontro com eles.
Conhecendo o que significa construir pontes e fazer travessias,
teremos noção dos desafios e das alegrias
que os encontros «na outra margem» requerem da nossa disponibilidade.
A «outra margem» implica deslocações, expor-se a perigos e ventos contrários;
enfrentar medos e fantasmas, lutas e invocações, abertura para receber ajuda;
e, frequentemente, meter água no barco e debater-se na noite mais escura da fé.
Tempo da espera e do adveniente,
a «outra margem» é o lugar do encontro com Jesus.
É o tempo dos medos nos fazerem gritar a distância
que Ele estreita, caminhando sobre o mal, em nosso socorro.

Praia

[A «outra margem» é o lugar do encontro com Jesus. © Fotografia: Joaquim Félix]

6. Creio que Jesus não estaria completamente absorto na oração,
ao ponto de não se aperceber da força dos ventos contrários.
Eis porque, na hora mais escura da noite, a quarta vigília,
foi ter com os discípulos, caminhando sobre as ondas.
Interessa sublinhar que este caminhar sobre o mar,
significa, em termos simbólicos, a sua autoridade que pisoteia e vence o mal.

7. Após o grito em coro, Jesus dirige-lhes uma palavra de confiança:
«Tende confiança. Sou Eu. Não temais» (Mt 14,27).
Numa ousadia incomum, e não lhe bastando tal palavra,
Pedro ― que não era nenhuma rã, mas sabia nadar ―,
quis uma prova, talvez mais exigente do que a de Tomé (cf. Jo 20,25-27),
que implica a imitação da caminhada de Jesus sobre o mal:
«Se és tu, Senhor, manda-me ir ter contigo sobre as águas» (Mt 14,28).
Desculpai a imagem, mas vejo Jesus a fixar Pedro nos olhos
e, de forma enfática e geradora de confiança,
como uma mãe ou um pai incentiva o seu bebé a dar os primeiros passos,
a dizer-lhe: «Vem!» (Mt 14,29).
Ouvimos com atenção o que, a seguir, lhe sucedeu.

Rã

[Pedro ― que não era nenhuma rã, mas sabia nadar. © Fotografia: Joaquim Félix]

Os Padres da Igreja desenvolveram
frequentes interpretações desta passagem evangélica
associando-a às dificuldades que a Igreja e o sucessor de Pedro
atravessam em determinadas épocas.
Um desses Padres é Santo Agostinho,
que desenvolveu a alegoria da barca dos apóstolos (Igreja)
açoitada pelas altas ondas e pelos ventos contrários
como imagem das provações e males que os cristãos suportam no mundo.

8. Também hoje poderíamos dar nome a muitos dos ventos contrários
e expor dificuldades, inclusive internas, da Igreja.
Há quem, numa linha apocalíptica, defenda que a Igreja está a terminar;
os rombos no casco são de tal ordem que não vale a pena consertá-los.
Outros há que, numa deriva de assistência providencialista,
julgam que a barca de Pedro é inafundável e, por isso, nada é alarmante.
Jesus não ficaria admirado com certos responsáveis da Igreja
que, vendo hoje as pessoas a debaterem-se com tantas dificuldades,
mandam tocar a banda, como fez o capitão do RMS Titanic?

9. Acreditamos, porém, que aquilo que Jesus disse a Pedro
o estará a dizer, neste momento, a cada um de nós.
Sendo assim, em vez de vermos tudo em função dos outros,
passemos a considerar, por exemplo, as palavras de Jesus
como incentivos para sermos perseverantes na fé
e enfrentarmos com coragem as travessias para «a outra margem».
No último e mais longo dos Apotegmas dos Padres do Egito,
traduzidos do grego para o latim por São Martinho de Dume,
que o padre Hermenegildo Faria traduziu para a português
e o Secretariado Nacional de Liturgia acabou de publicar,
pode ler-se: «Sê um artesão da palavra, e não apenas ouvinte» (p.75).
Aplicando-o à Palavra ouvida, Jesus poderá estar a dizer-nos:
«Vem! Não temas caminhar sobre as águas profundas e revoltas!
Tu, que emergiste vivo das águas do batismo,
não queiras mergulhar na morte, duvidando da fé que professaste.
Batalha, luta até ao extremo, até à outra margem!
Sentes a violência do vento? A textura do mar cavado?
É contrário, sim; mais forte, porém, é o sopro da minha Palavra.
Vem! A minha mão está contigo, não te deixarei afogar.
Sensível às adversidades, não cesses de lutar e até mesmo de gritar.
Sê um navegador participativo nas lides da Igreja e do mundo!
Vem! Sou Eu, um amigo, que sai ao teu encontro, não um fantasma.
Juntos, dentro do barco da Igreja, onde há lugar para todos,
os ventos serão amainados, e alcançaremos a outra margem».

Barco

[Juntos, dentro do barco da Igreja, onde há lugar para todos. © Fotografia: Joaquim Félix]

10. Quem lutou, até atingir a outra margem de si, foi S. Paulo.
Na carta aos romanos, ele refere que tudo fez para que os judeus
acolhessem Jesus, o «Cristo segundo a carne» (Rom 9,5).
Paulo, na sua dor contínua, para a qual não tomava analgésicos,
deslocou-se até ao limite extremo do insuportável:
desejou ser anátema, isto é, ser separado de Cristo,
para que os judeus se encontrassem com Jesus;
e, seguros do cumprimento da promessa, O acolhessem como Messias.
Eles, no entanto, rejeitando-O, viram-no apenas como um louco.

Escultura-relíquia de S. Paulo (séc. XIV), na Capela do Crucifixo, Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma.

[Quem lutou, até atingir a outra margem de si, foi S. Paulo. Escultura-relíquia de S. Paulo (séc. XIV), na Capela do Crucifixo, Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma. © Fotografia: Joaquim Félix]

11. Também Elias fez a travessia para a outra margem:
fugindo do castigo de Acab e de Jezabel,
por causa da morte dos sacerdotes de Baal e Asserá,
atravessou o território de Judá, passando por Beer-Sheva;
e, depois do deserto, subiu o monte Horeb.
Escondido numa caverna, esperava encontrar-se com o Senhor.
O Senhor, porém, dirigiu-lhe uma palavra que o retirou da gruta:
«Sai e permanece no monte à espera do Senhor» (1Reis 19,11).
Através dele, o Senhor está a dizer-nos:
«Sai, não permaneças na gruta da noite, que assoma treva à escuridão!
Sai das sombras platónicas, quero-te ao ar livre da montanha, à espera.
Não aguardes a minha passagem através de sinais estrondosos,
mas reconhece-me presente nos sinais do teu quotidiano.
Aprende a discernir os sinais dos tempos nos sinais do dia a dia.
Aprende, aprende a esperar em saída!
Sai de ti mesmo; de contrário, afogar-te-ás no mar-dos-medos.
Sai até à margem do doente a visitar, do deslocado sem casa
e dos migrantes e refugiados que, atraídos ao alimento das suas fomes,
são escorraçados como os pássaros de arribação nos hortos e pomares.
Sai e expõe o teu rosto à brisa da minha passagem
como as ervas da montanha, inclinadas e abertas em flor.
E, quando me sentires, cobre a tua vida com o manto da fé».

Natureza

[Escorraçados como os pássaros de arribação nos hortos e pomares. © Fotografia: Joaquim Félix]

12. Durante esta semana, dedicada à mobilidade humana,
iremos assistir a fenómenos astronómicos espetaculares:
haverá um eclipse total do sol, chuva de meteoritos e planetas em linha.
Não vejamos neles, como fazem os apocalípticos,
sinais de castigos eminentes por causa dos males na Igreja e no mundo,
mas uma oportunidade para nos alegrarmos com o Senhor,
que «dará ainda o que é bom» (Sl 84,12).
Além de óculos escuros para ver o eclipse solar,
adquiramos uns óculos amarelos, os da fé,
para vermos e muito nos alegramos com Jesus, sol sem eclipses,
que é «verdadeiramente o Filho de Deus» (Mt 14,33).

Escultura-relíquia de S. Paulo (séc. XIV), na Capela do Crucifixo, Basílica de S. Paulo Fora dos Muros, Roma.

[Adquiramos uns óculos amarelos, os da fé, para vermos e muito nos alegramos com Jesus, sol sem eclipses. Pintura de Ilda David’, na Bienal de Veneza, inspirada no legado de Hildegarda de Bingen. © Fotografia: Joaquim Félix]

Nesta hora na qual nos sentimos a viajar montados na Palavra,
até à «outra margem», inclusive de nós próprios,
podemos terminar, retomando a canção 125 Azul,
porque, com a Palavra, sucede algo de muito semelhante:

«Talvez um dia me encontre
Assim, talvez me encontre

Curiosamente
Dou por mim pensando onde isto me ia levar
De uma forma ou d’outra
Há de haver uma hora p’ra vontade de parar

Só que à frente
O bailado do calor vai-me arrastando p’ro vazio
E com o ar na cara
Vou sentido desafios que nunca ninguém sentiu».

Natureza

[Sai e expõe o teu rosto à brisa da minha passagem como as ervas da montanha, inclinadas e abertas em flor. E, quando me sentires, cobre a tua vida com o manto da fé». © Fotografia: Joaquim Félix]

Joaquim Félix é padre católico, vice-reitor do Seminário Conciliar de Braga e professor da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa; autor de vários livros, entre os quais Pentateuco das Passagens e Teorbas da Palavra. Este texto corresponde à homilia de domingo, 9 de agosto,[domingo xix do tempo comum ― a ― 2026 , 1º dia da semana nacional da mobilidade humana], proferida na igreja matriz da paróquia de Fragoso (S. Pedro), no arciprestado de Barcelos.

 

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