
Jürgen Moltmann, “um dos mais citados e interventivos teólogos do nosso tempo”. Foto © CMI:Marianne Ejdersten
Há vários anos que ouvia falar dele, como um dos mais citados e interventivos teólogos do nosso tempo. Um teólogo do nosso mundo. Atraía-me a relação que estabelecia entre Deus e a Vida – esse outro mistério cósmico.
Senti a sua morte recente de modo especial. Pois dialogava com ele como que num passeio de braço dado, ao adquirir, há muitos meses, o seu livro The Spirit of Life – A Universal Affirmation (Fortress Press, 2001).
Jürgen Moltmann aprofundava o conceito de vida: pela teologia feminista, pela filosofia e «descoberta» do corpo e dos sentidos; trabalhou em grupos carismáticos, feministas e ecológicos; organizando finalmente um célebre seminário sobre «Espiritualidade e Ética da Criação» (1990-1991).
Primeiro passeio de braço dado
Para ele, a realidade em si não é boa nem má. Os seres humanos dispõem do poder de distinguir e classificar todas as coisas existentes como boas ou más, incluindo os nossos «pensamentos, actos e omissões». Sem esquecer que todos os outros seres que chamamos vivos não possuem este poder de julgar, mas reagem à experiência do que lhes faz bem ou mal.
Como eu gostei de o ouvir falar sobre a experiência da vida – afirmada e amada! É preciso dizer SIM À VIDA para dizer NÃO à guerra, à pobreza, à injustiça. Dizer SIM à vida, sentindo as suas forças mesmo nos desgostos, dificuldades, doenças. Só respeitando e amando a vida é que somos contra tudo o que é morte.
Para ele, amar a vida é saber ligar-se a todos os seres humanos e a todas as manifestações da vida – todos os seres que «querem viver». É olhar para a vida contra a morte. Por isso, amar a vida é também dar qualidade e Beleza à Criação e a tudo o que fazemos: um trabalho «perfeito» guiado pela justiça. A vida é um fim absoluto em si. Não é «relativa» segundo critérios económicos, ideológicos… A esta «coragem de ser» e «domínio de ser» dá o nome de Vitalismo (conceito que prefere a Espiritualidade).
Sublinhava que uma religião viva não opõe «espírito» e «carne». E a experiência de Deus não se confunde com asceticismo nem «arrebatamentos». A Espiritualidade é viver e aprofundar toda a Criação e as nossas potencialidades. Por isso, a oposição corpo-espírito é um desvio perigosamente doentio: arriscamo-nos a «afastar-nos da vitalidade da vida criativa fora de Deus (out of God) para uma espiritualidade em Deus mas fora da vida deste mundo. Não é verdade que o Novo Testamento fala «deste corpo frágil e mortal como “o templo do Espírito Santo”?». E na Bíblia, o Espírito de Deus aparece como «a força vital dos seres criados e como o espaço vivo (living space) no qual todos eles podem crescer e desenvolver as suas potencialidades».

Criação do Homem, de Miguel Ângelo, na Capela Sistina: “O mesmo acto de nos libertar de modo a colaborarmos na «nova criação» de todas as coisas.” Foto © Wikimedia Commons
Fazia-me bem lembrar que o Espírito de Deus e o Espírito dos seres humanos estão ligados. Tendo consciência do nosso valor e limitações, abre-se a janela própria da religião natural. Sem experiência de Deus, não há teologia. Porém, é difícil conceber esta relação entre o ser humano e o Ser Divino. E também sofremos com a experiência da humildade radical perante o que é «totalmente outro», inacessível.
O acto divino de Criador é o mesmo acto de nos libertar de modo a colaborarmos na «nova criação» de todas as coisas, uma espécie de glorificação da criação original, em que tudo o que existe alimenta a nossa espiritualidade inseparável do corpo e do amor pela vida.
Sobretudo nos tempos passados, estimava-se o afastamento do mundo e o desprezo pelo corpo. Esta atitude favoreceu a progressiva destruição da natureza. Ora o Espírito de Deus conduz-nos ao respeito pela dignidade de todas as coisas criadas, nas quais Deus está presente. Não se trata de visionismo especulativo ou romântico: é a condição essencial para a sobrevivência da humanidade nesta única terra de Deus.
Mas a experiência de Deus não é apenas o eco do Espírito Santo no nosso coração: o Espírito Santo é «o poder que dá vida aos mortos, uma sempre nova criação de todas coisas; e a fé é o começo de um novo nascimento para uma vida nova»; não é mera revelação: é a fonte da vida.
Ao fim do primeiro passeio, registei com o maior rigor possível, este testemunho:
O que é que amo quando amo Deus?
Quando amo a Deus, amo a beleza de tudo o que é corporal, o ritmo dos movimentos, o brilho dos olhos, os abraços, sentimentos, odores e os sons de toda esta pluriforme criação. Quando eu vos amo, meu Deus, quero abraçar a criação inteira, quero amar com todos os sentidos a Criação que brotou do amor. Em todas as coisas que vêm ao meu encontro, tu estás à minha espera.»
«Por muito tempo procurei-te dentro de mim e aninhei-me na concha do meu espírito como dentro de uma muralha. Mas tu estavas fora da minha estreiteza e guiaste-me para a imensidão do amor da vida. E assim me encontrei fora de mim.».
A experiência de Deus aprofunda as experiências da vida, o sim à vida, a alegria de existir. Sinto o Deus vivo, a fonte inexaurível e eterna da vida.
Manuel Alte da Veiga é professor aposentado do ensino universitário.










