De Itália, cratera do vulcão covid, desafios e alertas

| 9 Jun 20

Roma 2020 Pandemia. Papa Francisco

Peregrinos na Praça de São Pedro a escutar o Papa, domingo, 7. Foto © Tony Neves

 

A covid ainda anda por aí à solta. E lança os tentáculos em direcções complicadas, tentando fazer das suas nas favelas do Rio e S. Paulo, nos musseques de Luanda e Maputo, nos slums de Nairobi e Kampala, nas periferias das megalópoles indianas,… lá, onde parece fácil chegar o fogo e não haver bombeiro que o apague! Rezemos para que tal não aconteça, para bem de todos.

Itália – depois da China – foi o país onde a covid mais investiu e arrasou primeiro. Do Norte deste país que me acolhe, foram chegando os gritos de um povo a ser contaminado aos milhares e a morrer. As medidas políticas de excepção (expressas no estado de emergência) vieram quando o mal estava espalhado e os hospitais não tinham nem pessoas, nem meios, nem espaço para fazer frente a tal calamidade. O resto da história todos o conhecemos, pois sofremos o suficiente e ainda está para vir o que é preciso enfrentar.

 

Missão na rede

As redes sociais, com meio mundo fechado em casa, foram o grande espaço de conversa. Para o melhor e para o pior. Para dar notícias e para enganar (tanta fake news por aí à solta e tanta facilidade em ligar e desligar…). Para dar coragem e para semear pânico. Para ajudar e para complicar. Para deprimir e para espalhar bom humor.

Nunca vi tanta piada a circular como neste tempo de confinamento (usemos a expressão mais lusófona: “distanciamento físico voluntário”). Fechou tudo o que não era absolutamente essencial estar aberto. Por isso, as igrejas fecharam e a missão teve de passar pelos media, sobretudo pela internet e suas redes sociais. Claro que, como pediu o Papa desde o início, não fechamos a caridade à chave! E aí jogamos, como Igreja, uma cartada missionária fundamental.

 

Praticar a caridade

Sem igrejas abertas, sem culto presencial, sem catequeses e reuniões pastorais, parecia que restavam poucas alternativas à Missão. A mensagem cristã passou pelos media, com muita criatividade e também alguma falta dela. Mas, sobretudo, houve uma aposta forte no trabalho feito pelas IPSS (instituições particulares de solidariedade social), centros paroquiais e outras instituições sociais, na atenção aos mais frágeis.

Gostei muito de ver o empenho das paróquias com as pessoas idosas e sós. Fiquei impressionado com a atenção dada aos imigrantes pobres e sem abrigo. Marcou-me o apoio expresso aos médicos, enfermeiros, pessoal auxiliar, bombeiros, maqueiros e todos os fornecedores de serviços indispensáveis para a sobrevivência do povo e o combate ao vírus.

Houve padres, irmãos e irmãs, de diferentes dioceses e institutos que deixaram as suas casas e conventos e foram para os hospitais ou para a rua tratar doentes. Bastantes morreram. Enfim, fecharam-se janelas à missão e abriram-se portas de par em par.

 

Tempos novos

Circula nas redes sociais um cartoon que põe um diabo feliz a dizer a Deus: “Com esta covid fechei-te todas as igrejas.” A resposta de Deus é belíssima: “Qual quê? Acabei de abrir uma em cada casa.”

Muita partilha, bastantes reflexões teológicas e pastorais tentaram ajudar-nos a perceber, como cristãos, que a vida religiosa não se pode confinar às paredes de um edifício (a igreja) nem às dinâmicas de estruturas como as paróquias, capelanias ou movimentos. Há muito mais vida cristã para além daquela a que, regra geral, nos habituamos e que nos agarramos como lapas aos rochedos do mar.

Redescobriu-se uma Igreja doméstica, pudemos perceber melhor o espaço a dar ao silêncio (o cardeal Tolentino disse que “os lugares de silêncio são terras de ninguém, como o Sábado Santo”), à meditação pessoal, compreendemos como é importante o exercício criativo da caridade, como é decisivo abrir o coração e encontrar razões de viver em contextos de crise profunda e de tragédia, como somos capazes de dar as mãos e fazer caminho com pessoas e instituições com as quais não nos identificamos… este será, certamente, um dos maiores ganhos missionários para aprofundar no pós-covid.

 

Um amanhã diferente… melhor!

Cada tragédia obriga o dia seguinte a ser radicalmente diferente. Quando falam em “voltar ao normal”, eu fico assustado, pois não quero fazer uma viagem de regresso ao passado. Podemos melhorar, devemos criar um mundo novo.

Cruzando a Alegria do Evangelho com a Querida Amazónia, passando pela Laudato Si’ e por todas as intervenções (tão fortes, tão interpeladoras…) do Papa Francisco, gostaria de lançar algumas linhas de abertura a um futuro missionário diferente: vamos apostar num estilo de vida mais simples, mais fraterno, mais inclusivo, mais ecológico. Vamos tentar reduzir o fosso entre ricos e pobres. Vamos apostar mais na saúde e educação do que nas armas, na droga e nos tráficos humanos. Vamos anunciar e viver com coragem um Evangelho que é libertador de todas as formas de opressão, cruzando as Bem-Aventuranças com as parábolas do Bom Samaritano e do Juízo Definitivo. Ousemos construir projectos de desenvolvimento e solidariedade com as comunidades humanas e eclesiais mais pobres do planeta. Deitemos fora dos hábitos quotidianos tudo o que é ecologicamente negativo. Tentemos investir cada vez mais na Igreja doméstica e numa caminhada de Fé que faça dos cristãos cidadãos responsáveis e comprometidos.

Em suma, como pediu o Papa naquela Praça de S. Pedro vazia, em Domingo de Ramos da Paixão: ‘A vida não serve se não se serve os irmãos. (…)’Não tenham medo de dar a vida a Deus e aos outros. Digam sim ao amor sem ‘ses’ nem ‘mas’. Não pensemos só naquilo que nos falta. Pensemos no bem que nós podemos fazer’. Ou então, tomemos a sério e a rigor o “Plano para Ressuscitar” que Francisco apresentou à revista Vida Nueva, com propostas e temas que não devemos contornar: salário mínimo universal, perdão da dívida externa, apoio aos pactos sobre migrações e acordos sobre as mudanças climáticas.

Roma 2020 Pandemia. Papa Francisco

O autor na Praça de São Pedro, domingo, 7 de Junho.

 

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

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