De joelhos os grandes sistemas económicos

| 6 Jul 20

É necessária uma mudança radical da nossa sociedade que assegure uma economia da Vida baseada na justiça e na dignidade de todos, nem que “seja necessário pôr de joelhos alguns desses sistemas gigantescos”, parafraseando o artista conservacionista David Shepherd. Assim se refere o documento que o Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a Comunhão Mundial de Igrejas Reformadas (CMIR), a Federação Luterana Mundial (FLM) e o Conselho para a Missão Mundial (CMM), no seu apelo a uma “Economia de Vida em Tempos de Pandemia”.

Esta declaração é publicada na sequência da covid-19 e de especialistas das várias igrejas, naquela que é chamada a “Declaração de São Paulo: Transformação Financeira Internacional para uma Economia da Vida” (NIFEA, na sigla inglesa).

As igrejas signatárias do documento mostram a sua preocupação pela “crise da pandemia de covid-19” e as fragilidades humanas e sistémicas, nomeadamente os sistemas económicos opressivos e exploradores que obtém os seus lucros através de desigualdades económicas e sociais, uma total indiferença ambiental e ainda com os legados coloniais presentes.

Mas – dizem –, se existem catástrofes na economia motivada por um vírus exponencial, a “mão humana” lá está para dar alento a esta tempestade. E essa tem um “confinamento” suave, porque quem sofre são os trabalhadores mais vulneráveis, os informais, os pobres, as mulheres, as pessoas de cor, os migrantes e os refugiados. A violência doméstica aumenta, os direitos humanos são atrofiados e a indústria privada farmacêutica e o seu sistema de patentes é orientada para lucros inconcebíveis, em que a defesa da dignidade das mulheres e dos homens é colocada em causa. E se em tantos países a bondade e a generosidade existem é porque aqueles e aquelas que nada têm, são os que mais dão, porque dão tudo.

Apelam, por isso, à construção de uma Nova Criação, baseada no apelo urgente à disponibilização de recursos para a saúde pública e proteção social, ao perdão das dividas dos países mais pobres e a impostos cobrados aos mais ricos, que não serão mais que a devolução daquilo que os outros “sem-nada” produziram. Apelam à salvaguarda dos bens públicos dos processos neoliberais de “privatização e mercantilização”. As crises serão superadas quando juntos cuidarmos da “Nossa Casa Comum”, nas suas diversas vertentes, culturais, económicas, ambientais e sociais, através da solidariedade e cooperação onde todos os países sejam incorporados e os sistemas de governação global baseados na justiça, assistência e sustentabilidade.

Esta declaração também foi proclamada pelas igrejas do Conselho Português de Igrejas Cristãs (Copic), a que pertencem as Igrejas Metodista, Presbiteriana, Luterana e Lusitana (Comunhão Anglicana). Vindo, como se disse, de reflexões feitas desde 2012, onde formaram o New International Finantial and Economic Architecture (NIFEA), tem consonância com os apelos lançados pela Igreja Católica Romana, através nomeadamente da Laudato Si’ e Querida Amazónia. Queiram por si ser fautores da unidade em Jesus, para superar não só a covid-19 mas colocar os povos e todos os seres vivos no centro de uma Nova Criação, afinal aquela que Deus – no poema mítico da Criação – deu ao homem e à mulher, para viverem bem e cuidarem do jardim do paraíso.

 

Joaquim Armindo é diácono católico da diocese do Porto, doutorado em Ecologia e Saúde Ambiental

 

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