O novo manto de Nossa Senhora da Soledade de Mafra foi benzido pelo Papa Leão XIV, no Vaticano, depois de dois anos de trabalho para reproduzir fielmente a peça histórica que durante gerações cobriu a imagem. A escultura, datada de 1774 e custodiada pela Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, recebeu a coroação pontifícia em setembro de 2023, numa celebração presidida pelo cardeal José Tolentino Mendonça, como enviado especial do Papa Francisco.
Para Manuel Freixedas Torres, juiz da Irmandade, que integrou a comitiva recebida pelo Papa esta quarta-feira, 23, o momento foi “de enorme emoção” e representa a continuidade de uma tradição que a Irmandade quer transmitir às gerações futuras.
“Nós vínhamos para Roma com uma missão muito concreta, que tinha sido preparada durante bastante tempo, mas uma coisa é preparar tudo e outra é estar efetivamente diante do Santo Padre, apresentar-lhe a Irmandade e explicar-lhe aquilo que trazíamos de Mafra”, conta ao 7MARGENS.
O que mais o impressionou neste encontro – que aconteceu um dia antes de Leão XIV receber o Presidente da República Portuguesa, António José Seguro – foi a proximidade e a atenção do Papa. “Apesar de ser necessariamente um encontro breve, sentimos que ouviu verdadeiramente aquilo que lhe estávamos a dizer e que compreendeu o significado que aquele momento tinha para nós.”
A comitiva da Irmandade apresentou a Leão XIV o novo manto, executado pelo bordador Jesús Lagares Díaz, e explicou-lhe a história da peça original, datável da segunda metade do século XIX. O avançado estado de degradação desse manto, apesar das intervenções de conservação de que havia sido alvo, levou à sua retirada de uso e à decisão de executar uma réplica com técnicas e materiais equivalentes.
O novo manto mantém o desenho, os materiais e a linguagem estética do original. “Não quisemos, portanto, inventar um manto novo. Quisemos prolongar uma memória”, explica o juiz da Irmandade.
O projeto envolveu os membros da Irmandade, paroquianos e devotos de Nossa Senhora da Soledade e o trabalho do jovem bordador espanhol, num processo que se prolongou por dois anos. “Houve fiéis que quiseram associar-se, houve um trabalho extraordinário do bordador Jesús Lagares e houve toda uma preocupação em fazer uma obra que estivesse à altura da imagem de Nossa Senhora da Soledade e da sua história.”
A peça original deverá agora ser preservada, permitindo que a nova possa continuar a ser utilizada nas celebrações. A intenção foi manter a imagem “tal como várias gerações de mafrenses a conheceram”.
A marca do pontificado de Leão XIV

Pormenores do novo manto de Nossa Senhora da Soledade, que passou a incluir as armas do Papa Leão XIV. Foto © RIVSSM
A réplica introduz apenas uma alteração significativa em relação ao manto oitocentista: as armas do Papa Leão XIV, segundo um modelo inspirado no trabalho de Marco Fopoli.
A inclusão foi deliberada, para que a própria peça possa guardar a memória do momento em que foi realizada. “Daqui a cem ou duzentos anos, esperamos que alguém possa olhar para este manto e perceber imediatamente que ele pertence ao pontificado de Leão XIV e que foi neste pontificado que a Irmandade decidiu salvaguardar e continuar esta tradição”, justifica Manuel Freixedas Torres.
A bênção pontifícia assume ainda um significado particular porque a imagem de Nossa Senhora da Soledade foi coroada pontificiamente há três anos. Em 2023, a coroação foi apresentada pela Irmandade como um reconhecimento da devoção à imagem, que se encontra exposta ao culto durante todo o ano na Basílica de Mafra [ver 7MARGENS].
“De certa maneira, esta bênção prolonga essa história”, afirma o juiz da Irmandade. Quando regressar a Mafra, o manto “não regressará simplesmente como uma peça nova: regressará trazendo consigo a memória deste dia e da bênção do Papa Leão XIV”.
Uma cruz que regressa simbolicamente a Roma

A cruz peitoral-relicário concebida expressamente para Leão XIV e oferecida ao Papa esta quarta-feira. Foto © RIVSSM
A deslocação ao Vaticano incluiu também a oferta ao Papa de uma cruz peitoral-relicário concebida expressamente para Leão XIV, com inspiração na linguagem artística da Basílica de Mafra e contendo relíquias de santos portugueses. A peça foi realizada com o apoio do Município de Mafra.
“Desde o princípio quisemos evitar oferecer simplesmente um objeto precioso. Interessava-nos que fosse uma peça que falasse de Portugal e, muito concretamente, de Mafra”, destaca o juiz.
A cruz foi concebida a partir da linguagem artística da Basílica de Mafra, profundamente marcada pelo gosto romano do século XVIII, representando como que uma “viagem de ida e volta”: “Essa linguagem veio de Roma para Mafra no tempo de D. João V e, trezentos anos depois, regressa simbolicamente a Roma numa cruz oferecida ao Santo Padre.”
Além das relíquias de santos portugueses, a peça integra elementos diretamente ligados à imagem de Nossa Senhora da Soledade. “É uma peça pequena, mas nela procurámos concentrar várias dimensões da nossa história.”
A intenção é que seja entendida como “uma oferta de Portugal ao Santo Padre, feita através da nossa Irmandade, e um sinal muito concreto de comunhão e de afeto”.
“Mafra não é apenas um monumento que pertence ao passado”

Imagem de Nossa Senhora da Soledade, custodiada pela Real e Venerável Irmandade do Santíssimo Sacramento de Mafra, durante a cerimónia de coroação pontifícia, em 2023. Foto © Arlindo Homem
Para além da bênção do manto e da oferta da cruz, a presença da Irmandade em Roma foi também uma oportunidade para apresentar a dimensão religiosa e confraternal de Mafra.
“Mafra é conhecida internacionalmente pelo Palácio e pelo Convento, e justamente, mas há uma dimensão que nem sempre é suficientemente conhecida: aquele conjunto nasceu também como um extraordinário centro religioso e conserva um património devocional, artístico e confraternal excepcional”, afirma Manuel Freixedas Torres.
O manto e a cruz são, neste sentido, formas de contar essa história. “Estamos a mostrar que Mafra não é apenas um monumento que pertence ao passado. Há ali uma tradição religiosa viva, há Irmandades, há devoções e há uma comunidade que continua a relacionar-se com esse património.”
É também, acrescenta o juiz, “uma forma muito portuguesa de estar na Igreja universal: trazer aquilo que recebemos da nossa história, não como uma peça de museu, mas como alguma coisa que continua viva”.
O legado deste momento é, assim, pensado pela Irmandade sobretudo em termos de transmissão. “As Irmandades vivem muito desta transmissão entre gerações. Nós recebemos imagens, alfaias e devoções daqueles que vieram antes de nós e temos a obrigação de as entregar à geração seguinte, se possível mais fortes e mais bem preservadas”, sublinha.
Foi esse o propósito que esteve também na origem do novo manto. “Daqui a muitos anos, quando outros irmãos o colocarem sobre a imagem de Nossa Senhora, talvez já ninguém se lembre dos nossos nomes. Mas saberão que aquele manto foi levado a Roma em 2026 e benzido pelo Papa Leão XIV.”
De resto, foi precisamente quando a preparação dos últimos meses deixou de importar que o juiz diz ter sentido verdadeiramente a dimensão do momento. “Foram meses de preparação, correspondência, dificuldades e uma logística bastante complexa. E, de repente, tudo isso desaparece e fica apenas aquele instante.”
Um instante em que diz ter sentido a presença das pessoas que ficaram em Mafra e das gerações que, antes deles, cuidaram da devoção a Nossa Senhora da Soledade: “Nós tivemos o privilégio de estar fisicamente em Roma, mas de alguma maneira estavam todos connosco. Foi provavelmente isso que mais me marcou”, conclui.
A apresentação solene do novo manto de Nossa Senhora da Soledade deverá acontecer na Real Basílica de Mafra, em data ainda a confirmar, em função da conclusão das obras de reabilitação que decorrem atualmente no templo.










