Bagamoyo, Tanzânia

De porto de tráfico a porta de libertação dos escravos

| 16 Nov 2021

Antigo porto de Bagamoyo. Foto © Tony Neves

 

Bagamoyo foi a primeira capital do império alemão na África Oriental, a partir de 1888. Ali tinham chegado os Missionários Espiritanos em 1868, idos de Zanzibar, com a delicada missão de libertar e evangelizar os escravos. Esta seria a primeira missão católica na parte continental da África de Leste, sendo reconhecida como a Igreja-Mãe. 

Bagamoyo ostenta uma grande cruz, símbolo da libertação dos escravos e da intervenção cristã, junto a uma das praias mais bonitas: a Praia da Cruz. Um outro local de visita obrigatório (porque permite um encontro com a história) é o Museu de Bagamoyo onde está escrito que, entre 1870 e 1879, os Espiritanos resgataram 1238 escravos e os acolheram na Missão, sobretudo os mais velhos e doentes que não tinham família. E a coragem missionária dos Espiritanos (como das irmãs Filhas de Maria) está bem patente nas placas do cemitério local onde jazem mais de uns quarenta missionários que ali deram a vida, muitos deles vítimas de doenças tropicais, tendo falecido com 30 e 40 anos! Daí a celebração que o capítulo geral da congregação fez neste lugar simbólico, onde também foram pronunciados os nomes de cerca de 40 espiritanos e leigos associados mortos de covid-19.

Logo em 1892, os alemães decidiram mudar a capital para Dar Es Salam, a 80 quilómetros a sul de Bagamoyo. Esta cidade foi conquistada pelas tropas inglesas em 1916. Com a derrota na Grande Guerra 1914-1918, a Tanzânia continental (com o nome de Tanganica) tornar-se-ia colónia inglesa por decisão do Tratado de Versalhes (1919).

Julius Nyerere, Tanganica e Tanzânia

Primeira Missão Espiritana de Bagamoyo. Foto © Tony Neves.

A independência da Tanganica foi a 9 de dezembro de 1962, sendo Julius Nyerere o primeiro Presidente. No Museu de Bagamoyo, há uma grande foto em que aparece o presidente com alguns padres espiritanos, pois ele foi aluno num dos colégios fundados pela congregação. 

Zanzibar tornar-se-ia independente em 1963 como monarquia islâmica, mas iria unir-se à Tanganica a 26 de abril de 1964, para formar a República Unida da Tanzânia. 

Hoje, a Tanzânia é um país de maioria muçulmana onde os cristãos e outros grupos religiosos vivem em paz, num ambiente de diálogo respeitoso, sendo um exemplo para muitos países onde a liberdade religiosa e o pluralismo democrático não se respeitam.

Os Missionários Espiritanos, responsáveis pelo arranque da evangelização na África Oriental, decidiram fazer em Bagamoyo o seu primeiro capítulo geral realizado em África. Tal aconteceu em 2012, quando a congregação já contava mais de 300 anos de existência. O lugar era emblemático e a Tanzânia é hoje uma circunscrição espiritana cheia de pujança. Seria a covid-19 a empurrar novamente para as praias do Oceano Índico o XXI Capítulo Geral, realizado em outubro de 2021, com mais de uma centena de membros da Família Espiritana, professos e leigos, presentes em mais de 60 países.

Para a abertura solene deste Capítulo Geral, o padre John Fogarty, superior geral, decidiu escolher a Missa do Espírito Santo. Na sua homilia, falou de três Pentecostes. O primeiro, há dois mil anos, criava a Igreja: “‘Estavam cheios do Espírito Santo’, observam os Actos dos Apóstolos. Depois, o superior geral falou do Pentecostes acontecido em Paris quando foram fundados os Missionários do Espírito Santo, em 1703. E, em Bagamoyo, está a acontecer o 3º Pentecostes. Lembrou: ‘Somos um grupo maior do que qualquer um dos dois que já mencionei, mas somos tão simples e tão fracos como aqueles que nos precederam. Como podemos criar um mundo onde não haja estranhos e onde cada um se sinta em casa com a sua própria identidade cultural individual?’.” 

Os missionários em capítulo rumaram em procissão até ao cemitério onde estão sepultados muitos confrades, a maioria deles mortos muito jovens, nos primeiros tempos desta Missão de Bagamoyo. Além de lhes prestar a merecida homenagem, quisemos rezar também pelos confrades e outros membros da família espiritana que morreram recentemente com a covid-19. Cerca de 40 nomes foram ditos pelos coordenadores das Uniões das Circunscrições e escutados por todos num ambiente de profundo silêncio.

Lusofonia Espiritana

Espiritanos lusófonos em Bagamoyo. Foto © Tony Neves

Fomos muitos os convocados para este Capítulo Geral Espiritano, que está já na sua última semana, neste lugar tão emblemático que é Bagamoyo, na Tanzânia. Estou a pensar só nos lusófonos, aqueles que falam português. Somos portugueses, brasileiros, angolanos, caboverdianos, lusófonos de berço. Mas somos também originários de muitos outros países. É que existem lusófonos por nascimento e outros que aprenderam a língua ao estudar ou trabalhar num país de língua oficial portuguesa. Ao todo, 28. 

O padre Carmelo Rivera nasceu em Porto Rico, é cidadão americano e trabalha nas periferias de Manaus, na Amazónia. Referindo os padres, Albert Assamba é o provincial dos Camarões e fez os seus estudos de Teologia em Portugal. Joaquim Brito é o superior de Cabo Verde, estudou em Portugal e foi missionário em Espanha. Moise Camara, senegalês, é o provincial dos quatro países que formam a Província da África de Noroeste, congregando o Senegal, a Mauritânia, a Guiné-Conacri e a Guiné-Bissau. Antes, o padre Moise trabalhou em Cabo Verde. Leonardo Silva é o provincial do Brasil, tendo sido missionário na Bolívia. Pedro Fernandes é o provincial de Portugal, tendo exercido longa missão no norte de Moçambique. Brendan Foley, irlandês, foi missionário na Bolívia e é hoje o Superior do Grupo Brasil Sudoeste, vivendo numa das favelas das periferias de S. Paulo. Márcio Asseiro é o superior do grupo da Bolívia, a viver no interior da Arquidiocese de Santa Cruz de la Sierra. Crispin Mbumba, provincial do Congo Kinshasa, fez estudos de Teologia em Portugal. Juste Niongui, do Congo Brazaville, estudou em Portugal e é hoje superior na Ilha de Guadalupe. Inácio Sangueve é angolano e vive hoje no Alto Juruá brasileiro, onde é o superior do grupo. Alvaro Caica, angolano, estudou na Irlanda, é o ecónomo provincial de Angola e pároco nas periferias pobres de Luanda. Damasceno Reis foi missionário em Moçambique e é hoje o responsável pelo 2º ciclo de formação de Teologia no Porto. James Flynn, escocês, trabalhou nos Camarões, em Angola, na Grã-Bretanha e em Bruxelas; hoje é missionário em Lisboa. Jean Michel Gelmetti, francês, foi missionário em Angola, em França e na Tanzânia; trabalha actualmente nos EUA. 

O irmão Carmo Gomes fez missões no México, Guiné-Conacri, Guiné-Bissau, Portugal e Bruxelas. Hoje está a trabalhar em Lisboa. O padre Eduardo Miranda Ferreira foi missionário na Amazónia, assistente geral em Roma e tem uma longa história de missão em Portugal, onde hoje dirige o Centro Espírito Santo e Missão (CESM), no Seminário da Silva, em Barcelos. O padre Eduardo Tchapeseka, angolano, é o provincial de Espanha. Colm Reidy trabalhou largos anos em Angola e hoje está na administração da sua província natal, a Irlanda. Saturnino Afonso formou-se em Portugal, foi missionário no Paraguai e acaba de ser eleito superior do grupo de Cabo Verde. Alberto Tchindemba, angolano, superior do grupo de Moçambique, vive nas periferias de Nampula. 

O irmão Mariano Espinoza, paraguaio, estudou no Brasil, trabalhou em campos de refugiados na Tanzânia e é hoje, nas periferias da capital paraguaia, o mestre de noviços da União das Circunscrições da América Latina. O padre Yves Mathieu, francês, trabalhou largos anos no seu país e está agora em missão no interior de Moçambique. O padre Théodore Rabelaza, superior de Madagáscar, trabalhou em Angola. O padre Gaudêncio Sangando, angolano, trabalhou na formação e com comunidades migrantes em Lisboa e é hoje o provincial de Angola.

Tony Neves é padre católico e trabalha em Roma como responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (CSSp, Espiritanos), de cuja congregação é membro.

 

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