De um louco que não orbitava

| 4 Set 2023

Pintura de Murillo ((1617–1682)): S. João de Deus ((1495-1550), fundador da ordem Hospitaleira, caído por terra devido ao peso do enfermo que carrega, ajudado pelo anjo Gabriel.

 

Claro que, de todos os discursos que o Papa pronunciou em Portugal, aquele que em mim mais ressonância provocou foi o proferido no centro paroquial do bairro da Serafina. Sobretudo porque, apesar de não o ter feito em voz alta, quando li o discurso, me dei conta de que estava a “ouvir” a história da vida apaixonada do fundador da minha família religiosa, o louco de Granada. Na verdade, foi para mim impressionante sentir como escutar a história de uma pessoa da família, narrada por alguém de fora, soava a novo, a fresco, como se estivesse a ouvi-la pela primeira vez.

Efectivamente, um dos aspectos que mais me fascina no fundador da Ordem Hospitaleira é precisamente a vivência de um amor concreto que, em vez de elaborar grandes discursos contra tudo e todos, de embarcar no ressentimento social ou de se refugiar numa religião intimista e cultual, lançou mãos à obra e ele próprio, que não era nem clérigo nem intelectual, começou a cuidar dos mais pobres da cidade onde habitava. Sentindo-se chamado pelo nome, constituiu um espaço de fraternidade e humanidade a que chamou Casa de Deus, onde todos cabiam e a todos atendia: loucos, estropiados, doentes, cristãos ou muçulmanos, mulheres, velhos e crianças. No século XVI, — tal como ainda hoje — no hospital de João de Deus, ninguém era perguntado pela sua origem social, nacionalidade, crença religiosa ou orientação sexual. Mais: ele não só os cuidava, como também vivia com os pobres, fundando assim os chamados conventos-hospitais que ainda hoje caracterizam a Ordem. Além disso, em vez de alimentar uma oculta invejazinha sublimada em proclamas inflamados a favor da justiça e da igualdade, procurava sensibilizar os que mais tinham a partilhar com os desafortunados, como podemos ver nas cartas que dirigiu à Duquesa de Sesa. Ensinou-nos, assim, que o amor ao próximo ou é inclusivo e concretizado em obras e acções efectivas ou é esse amor platónico de que falava o Papa na mesma ocasião, higienizado, destilado, fantasioso e, portanto inútil e estéril.

A fé e a humanidade de João eram tão ousadas e intensas que, pela sua prática de grande atenção a cada pessoa que recebia, vendo em cada uma o próprio Jesus, descobriu o princípio do hospital moderno, organizado por categorias de doenças e pelas necessidades de cada utente. Ele que praticamente nem ler sabia! O amor verdadeiro é, sem sombra de dúvida, também ele criativo e inventivo!

É, pois, João de Deus um exímio seguidor de Jesus e um desafio constante para mim. Vindo eu da filosofia, sempre com o pezinho a fugir para o abstracto, para as grandes teorias, para as construções especulativas onde, de uma penada, no papel, consigo transformar todos as estruturas sociais e políticas e erigir sociedades justas e igualitárias com um ruidoso palavreado politicamente correcto, o meu irmão mais velho desafia-me quotidianamente a mergulhar silenciosamente na realidade palpável e tangível da humanidade tão vulnerável e frágil e ao mesmo tempo tão complexa e multifacetada, incarnada no João que é oligofrénico e, com quase 40 anos, nem as cores distingue, mas que tem uma sede de afecto e atenção tremenda — afinal, como qualquer ser humano — ou no Mohammed, que veio para a Europa à procura de trabalho para poder ajudar a sua família a sair das amarras desgraçadas da pobreza, ou no Luciano que, agarrado pelo álcool e pela droga, e com traços de perturbação mental, vive há anos na rua e tem tanta dificuldade em adaptar-se ao ambiente e às regras elementares do albergue onde algumas vezes vem dormir. Estas pessoas mostram-me diariamente que a vida é demasiado complexa para ser reduzida a meia dúzia de frases sonantes e emocionalmente atraentes ou reconfortantes, onde tudo se resolve, tudo é simples e fácil de levar à prática e em que os projectos de vida dos outros podem ser alterados pela e à minha vontade e segundo os meus ideais e a minha moral… principalmente quando permaneço estrategicamente bem longe das suas realidades…

Escrevia, há uns dias atrás, a um conhecido meu com quem partilho o gosto pela filosofia: “talvez se seja mais feliz quando se vê a vida a partir deste maniqueísmo contemporâneo: bons / maus, opressores / oprimidos, ricos / pobres etc…” É verdade! Procurar incessantemente justificações para aquilo que consideramos injustiça no sistema económico, andar em busca de constantes culpados, acreditar numas tantas teorias da conspiração a que o sentimento do vitimismo ou da culpabilização sempre nos conduz, é mais confortável e animador que viver todos os dias na cruel realidade da debilidade humana, aportando tão pouco — nos parece a nós — daquilo que achamos poder fazer pelo outro. E isso é de facto difícil. Essa é mesmo a minha cruz, pois quantas vezes surge em mim a tentação de dirigir a vida dos outros, obrigando-os a fazer aquilo que me parece ser o melhor para eles ou proibindo-os de se degradarem a eles próprios.

Ora, a melhor forma que tenho encontrado para afastar tal diabólica tentação tem sido a de aplicar, no dia-a-dia, o princípio transposto da medicina do primum non nocere, para além de que me serve de ascese tremenda de humildade. Com efeito, em vez de querer comandar os seus projectos de vida, procuro estar junto daqueles que elegi como meus próximos, numa disponibilidade tal que lhes possa dizer tranquilamente: eis-me aqui tão só para te valer naquilo que precisares e no que te possa ser precioso, mas tu continuas a ser o responsável pela tua vida. Fico-te, porém, muito agradecido quando a partilhas comigo e nela me deixas entrar e participar.

Afinal, também Jesus só curou meia dúzia de doentes numas aldeias perdidas da Galileia e não resolveu o problema da fome no mundo… e João de Deus nunca mais saiu de Granada depois que começou a socorrer os pobres…

 

Santos Tereso é licenciado em Filologia Clássica, Filosofia e Teologia e está a finalizar o Mestrado em Teologia na Universidade Católica Portuguesa. Vive na Itália.

 

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