[Margem 8]

De uma bomba saiu uma casa

| 5 Out 2022

Ilustração © Susana Braguês, original da autora para este texto.

 

Valentín Cueto. Fica já o nome dele, à falta de melhor começo para uma história das que merece mais do que “era uma vez”. Astúrias, 1937. Franco recebeu uma ajuda preciosa de Hitler durante a Guerra Civil de Espanha: uma equipa da força aérea alemã especializada em bombardeio. Várias cidades foram massacradas, mas bombas caíram também em lugarejos e aldeias que ficavam entrecaminhos. Uma delas caiu em Ceceda, sitiozinho ali ao pé de quase lugar nenhum. Outras, bem perto. Cada um fazia contas aos danos, alguns faziam contas à vida enquanto outros contavam os mortos. Valentín olhava para o buraco, enorme, onde antes tinha um palheiro e um arremedo de vacaria. E não se mexeu. E não lhe mexeu, por muito tempo. Aquele oco seria um memorial do buraco que abrira nele. Caíra em cheio no seu terreno, explodira em cheio no centro da vida.

E, lentamente, houve um atrevimento de imaginação a tomar conta dele, uma fantasia medrava como um pé de qualquer coisa da qual havia de colher-se fruto. Visitava aquele lugar em que a bomba, como um soco caído do alto, tinha assim violentado a terra. Até ao dia em que ouviu o chão propor-lhe uma casa, feita que estava a fundação para colocar os alicerces. Valentín Cueto, não se esqueça o nome, porque são estes homens que trazem saúde ao mundo. Valentín pôs os alicerces no buraco que o tinha sido de uma bomba, mas agora albergaria uma casa. E ele havia de mudar-se para ali, havia de morar naquela casa como quem pega na família e a traz para o território do riso e da esperança. Enquanto a fundava, ela desenhava-se sozinha do lado de dentro dos seus olhos. Levantou-a ele, pedaço a pedaço, inventou-a ele de dentro daquela cova como quem desenterra um tesouro ou ressuscita um amigo. Levou anos, muitos anos, os documentos da casa dizem que era já 1950 quando recebeu número e tudo.

Conheço esta casa há alguns anos, vivi nela horas inesquecíveis, sei o nome de dezenas de pessoas que nela saborearam a mais profunda comunhão e descanso. Sei de quem tenha voltado da morte à vida por ali, naqueles corredores de tábuas que rangem no segundo andar, ou diante daquele janelão no sótão a dar para a montanha. Sei a que sabem as torradas feitas na lareira e só nunca soube por onde raio naquele verão entravam tantas moscas. E também não sabia esta história. Conhecia a Elena, a filha do Valentín, e gostava tanto dela. Soube há pouco que existia uma casa que tinha saído de uma bomba, e que eu estava naqueles dias a viver dentro dela. E sei que podia daqui espiritualizar tantas coisas, e sei também que é tão fácil romantizar tudo isto, mas tenho tanto tanto medo ao que é piroso. E tenho tanto tanto medo de estragar uma boa história com as minhas glosas. Esta é uma história invencível, que não me é permitido guardar. Tomou conta da minha imaginação assim que a recebi, e agora aparece-me para conversar comigo só porque lhe apetece, sempre que lhe apetece. Ofereço-a, porque também eu de graça a recebi.

 

Rui Santiago é missionário redentorista e presbítero católico.

 

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