Doutor, hoje estou naquele estado, Eu disse. Ele respondeu, sorrindo como se desvalorizasse a minha agonia, Já percebi, chegou a horas.
Ser muita gente dentro de uma pessoa só nem devia ser mau, mas é que o pior, às vezes, é essa gente toda se desentender e eu já nem saber sequer a que sardinha puxar a brasa. A cabeça mais parece um ringue de mentirosos histéricos em debate, ao menos se fosse aquele mítico e saudoso debate entre Soares e Cunhal, mas não.
Doutor, tem de ver se arranja consultas ao ar livre, estar fechada aqui tira-me a concentração, fico só a pensar que se houver um incêndio não temos por onde fugir, sem concentração como é que uma pessoa se trata, Perguntei eu naquela retórica que já sabe que vai ser ignorada.
Como se sente hoje, Foi a pergunta que ele me retribuiu.
Na vinda para cá parecia que nevava pela estrada fora, doutor, umas nuvens tipo jogo de Super Mário; parte de gelo, parte de neve, parte de nuvem, vinham vindo em sentido contrário, eu agarrava o volante com força para me desviar do furacão em que pareciam se tornar, fechava os olhos e, quando os abria de novo, a nuvem já não estava lá. Tinha subido na direção do céu, lugar delas afinal, depois choviam peças de Tetris, abrindo buracos no chão, encaixadinhas com a facilidade do primeiro nível, mas eu sempre quase a cair nesses buracos do alcatrão, aos últimos instantes. Na beira de cada queda, a peça chovida tapava o buraco, eu, aliviada, levantava a cabeça para reencarar a estrada, muito atenta, doutor, mais atenta do que é aguentável, pode crer, atenta de fazer doer as pálpebras e os tímpanos, uma força desnecessária de estúpida nos arredores dos sentidos. Tanta força que a minha visão forçada vê o que não está lá. Cães atravessando a passadeira, gente nas bermas a caminhar lentamente, semáforos, pontes e lombas; vejo-os a todos, doutor, como se existissem de facto, o doutor há de ter estudado este fenómeno, como é que a inventividade da cabeça pode ir tão longe de nos roubar a paz, Perguntei sem esperar resposta e prossegui, Então, chegando mais perto é que me dou conta de que é só imaginação dos meus olhos, os carros de trás apitam até me assustarem os tímpanos mais do que já estavam assustados antes da buzinadela.

“Doutor, tem de ver se arranja consultas ao ar livre, estar fechada aqui tira-me a concentração, fico só a pensar que se houver um incêndio não temos por onde fugir, sem concentração como é que uma pessoa se trata 8…) Foto © Ana Sofia Brito
Enfim cheguei, doutor, antes da hora marcada, vê, nem tudo é mau quando acordo deste lado de mim.
E, quando chegou, enquanto aguardava na sala de espera, em que é que pensava, Ele perguntou. Ah, principiei por pensar que se houvesse um incêndio eu estava perto da porta da rua, então relaxei. Depois, fiquei de pensamento vigiando o sonho desta noite, o que eu sonhei hoje dava uma boa mentira se eu lhe dissesse que tinha estado na guerra e tinha visto tal coisa.
Sonhei que estava num acampamento de jagunços e era um deles, sim, ando a ler Guimarães Rosa, gosta, Perguntei retoricamente outra vez, E, então, os que morriam em combate eram levados para a base, abertos e estripados. Os sobreviventes, eu incluída, sacavam as tripas dos mortos, muito compridas e limpinhas depois de lavadas no rio, assavam-nas na fogueira e cortavam-nas aos bocadinhos. O resto dos corpos dos mortos, enterrados nos buracos do matagal. As tripas deles, nossa refeição.
Era bom, doutor, no sonho era bom, tipo torresmos. Mas eu não gosto de torresmos, daí não entender por que é que no sonho eu achava aquilo bom como torresmos.
Estava a pensar nisto quando me chamou para entrar, a pensar em como esta imagem daria uma boa cena de cinema, toda a vida senti que o talento me passara ao lado, talento de tudo e de nada. Desperdício, é o que é. Pudesse alguém talentoso ter os meus sonhos e faria sucesso, lhe garanto, doutor. Sonho, pelo menos, quatro sonhos por noite. Anoto todos, até os da vergonha. Sonhar é fonte de inspiração, há com cada coisa escondida nos submundos das ideias inventadas, e nem sequer é imaginação, porque imaginação é coisa forçada dos acordados, não é doutor, eu acho mas é que é como mentir verdades porque acontecem de facto, lá pelo meio das noites.
Acha que eu sou obcecada por sonhos, doutor, Desta vez perguntei mesmo, de verdade e sem retórica, esperei resposta e tudo, mas ele só sorriu, em vez de responder por palavras. Eu gosto quando ele sorri, é como se dissesse, Calma, estou aqui contigo, é fácil de resolver. Se calhar não é nada disso, mas eu gosto de pensar que sim.
O doutor com olhos de mistério, como sempre, e eu curiosa das conclusões da análise pensava para dentro que ele devia saber ao certo o que é que se passava nos defeitos da minha neurologia, eles estudam tantos anos para achar soluções.
O meu psiquiatra é argentino, de nome Javier – Doutor Javier. Eu gosto de argentinos, ele usa óculos quadrados e tem cabelo grisalho despenteado, as minhas pessoas favoritas são as despenteadas, tem mesmo cara de que seríamos bons amigos, melhores amigos até, podia ser.

“Imaginei sem escolher imaginar que, se fossemos amigos, podíamos sentar-nos no jardim de sua casa (será que a sua casa tem jardim?) e debater os livros do Borges ou do Cortázar enquanto tomávamos mate.” Foto © Ana Sofia Brito
Tantas vezes ponderei deixar as consultas para tentar a amizade. Talvez falássemos do Che Guevara, do Maradona, da Eva Perón, sei lá. Imaginei sem escolher imaginar que, se fossemos amigos, podíamos sentar-nos no jardim de sua casa (será que a sua casa tem jardim?) e debater os livros do Borges ou do Cortázar enquanto tomávamos mate. Não gosto de mate, mas se o doutor virasse meu amigo eu passaria a gostar, tinha de ser, não dá para ser melhor amiga de um argentino sem beber mate enquanto se debate Che, Perón, Maradona, Cortázar ou Borges, café não combina. Fica aqui prometido que se um dia eu desistir das consultas e ele aceitar virar meu amigo, eu passo a gostar de mate.
O doutor Javier disse alguma coisa enquanto eu pensava nesta ilusão de nos tornarmos comparsas, por isso não o ouvi. De repente pensei, Ups, distrai-me.
Ele deve ter percebido que eu acabara de acordar de uma ilusão qualquer porque sorriu aquele sorriso que quer dizer aquilo que eu quero que diga.
De repente já não me doíam os sentidos, que alívio, tinha finalmente saltado para o lado mais confortável – e menos assustador – de mim.
Foi então que percebi que ele não é nem meu médico, nem meu amigo. Ele é um milagroso domesticador de cérebros.
Ana Sofia Brito começou a trabalhar aos 16 anos em teatro e espetáculos de rua; depois de dois anos na Universidade de Coimbra estudou teatro, teatro físico e circo em Barcelona, Lisboa e Rio de Janeiro. Autora dos livros “Em Breve, Meu Amor”, “O Homem do Trator” e “A Menina Dança em Dezembro”, publicado em maio 2024. Lançou em 31 de janeiro o livro de poesia “Tempo”. É autora de um podcast, “Direito ao Grito“, da Fnac e assina a rubrica mensal “E por falar em livros…” no jornal “Sul Informação”.








