De Zanzibar a Abu Dhabi – os desafios enormes do Diálogo Inter-Religioso

| 11 Fev 19

Zanzibar é uma ilha da Tanzânia que tem 99 por cento de muçulmanos. Abu Dhabi é a capital dos Emirados Árabes Unidos, um dos muitos países islâmicos do Golfo Pérsico. Ambos os lugares, em tempos e modos diferentes, foram palco de eventos com o carimbo de ‘diálogo inter-religioso’. Esta é uma onda imparável para a história da humanidade porque, como disse o Papa Francisco, ‘ou construiremos juntos o futuro ou não há futuro!’. Este é o desafio: o futuro da humanidade está em jogo, está em causa. Ou melhor, está nas nossas mãos.

Museu da Escravatura, em Zanzibar (Foto © Tony Neves)

Zanzibar, dezembro 2018

Vamos até esta ilha paradisíaca, cheia de ‘resorts’ com turistas vindos do mundo inteiro. A água do Índico é quentinha e o povo simpático e acolhedor, até porque vive do turismo. A sua história – que os turistas revisitam – é manchada pelo tráfico dos escravos. Mas o momento atual tem uma imagem de marca que fascina: 99 por cento da população insular é muçulmana, mas as minorias são respeitadas e consideradas. Por isso – e porque o bispo católico de Zanzibar é membro da Congregação dos Missionários do Espírito Santo –, os Espiritanos decidiram realizar ali o Fórum sobre Diálogo Inter-Religioso (DIR), de 3 a 9 de dezembro passado.

Como o DIR está no âmbito das minhas novas funções em Roma, participei na coordenação do encontro. Foi um momento marcante para a história da Missão Espiritana. Na altura, escrevi: “Que têm de comum um espiritano que trabalha no coração da guerra na República Centro-Africana e outro que está no bairro de Moleembeck, nas periferias de Bruxelas, tristemente conhecido por ser o ‘ninho’ do terrorismo na Europa? E um espiritano que trabalha no Paquistão e outro que vive no norte dos Camarões? E ainda um que está na Mauritânia e outro que trabalha na Índia? Um que trabalha no norte do Congo e outro que está nas Filipinas? A resposta é simples: estes e muitos outros espiritanos trabalham em contextos onde o DIR é absolutamente fundamental para a sua Missão”.

Vinte e seis missionários espiritanos, dos cinco continentes, partilharam, reflectiram, rezaram e tentaram rasgar alguns caminhos novos de futuro para a Missão no século XXI. A mensagem final do encontro está cheia de alegrias, alertas, partilhas felizes, esperanças, mas também angústias. Alegria e esperança porque há cada vez mais pessoas a trabalhar em contextos de DIR e um longo caminho foi já percorrido. Angústias e medos porque a perseguição aumenta, as guerras e violências invocando o nome de Deus são cada vez mais frequentes, o fechamento de alguns países aos missionários é real… Mas este caminho não tem alternativa e há que ir por aí, mesmo que, em muitos contextos, pareça que só os cristãos estão abertos ao diálogo.

O xeque de Zanzibar no encontro dos missionários espiritamos em dezembro, em Zanzibar (Foto © Tony Neves)

Abu Dhabi, Fevereiro 2019

Pouco tempo depois de Zanzibar, Abu Dhabi veio reforçar a convicção da Igreja acerca da importância decisiva do DIR. O Papa Francisco recebeu o convite para o encontro sobre a Fraternidade Humana e não pensou duas vezes: fez as malas e arriscou ser o primeiro Papa a pisar e celebrar em terras do Golfo da Arábia.

O objetivo do xeque Amad Al Tayyeb era apelar a um islão mais moderado, capaz de se abrir ao resto do mundo e dialogar com franqueza acerca dos grandes valores da humanidade. O Papa Francisco foi lá e, na sua conferência, ressaltou os valores da paz, da justiça, da tolerância, de uma educação aberta, da construção de pontes em vez de muros. Não teve medo de denunciar a guerra no Iémen, na Síria, na Líbia e no Iraque. Pediu liberdade e reconhecimento para as minorias religiosas estrangeiras. E, no fim, assinou a Declaração de Abu Dhabi onde estes valores ficam escritos. Foi muito interessante ver sentados à mesma mesa líderes cristãos, muçulmanos, hindus, budistas e judaicos.

Um Francisco 800 anos depois de outro… Francisco de Assis foi, há 800 anos, ao encontro do Sultão do Egipto. O Papa Francisco foi ao encontro destes líderes religiosos que estão disponíveis (pelo menos, em teoria) para conversar sobre as grandes questões da humanidade.

Os resultados não estão à vista nem serão fáceis de obter. Mas há gestos que valem por si e podem rasgar caminhos novos: a visita histórica de um Papa; a assinatura da Declaração de Abu Dhabi; o lançamento da primeira pedra de uma nova igreja e de uma nova mesquita pelo xeque, pelo Papa e pelo príncipe herdeiro; a participação de quatro mil muçulmanos na Missa; a declaração do xeque de que os cristãos fazem parte daquela nação; a afirmação do Papa de que os terroristas não são crentes verdadeiros e de que a guerra só gera morte e miséria; a afirmação de que as religiões têm de se unir para garantir a paz e a liberdade; a convicção partilhada e dita de que as religiões devem ajudar as sociedades a amadurecer a capacidade de reconciliação, a visão da esperança e os itinerários concretos de paz.

Mediatização da visita papal

Os media dedicaram largo espaço a esta visita. A título de exemplo, os três jornais britânicos católicos deram honras de primeira página e larga cobertura. O Catholic Herald citou a importância da declaração de Abu Dhabi, alertando para a ambiguidade da aplicação no terreno. Diz este semanário que a visita papal foi marcada pela diplomacia e pela coragem. O The Catholic Times destacou o facto simbólico desta ter sido a maior celebração cristã de todos os tempos na Península Arábica. O Catholic Universe comparou a visita de Francisco à outra visita do outro Francisco (o de Assis), realizada oito séculos antes. Na primeira página coloca a foto do abraço do Papa e do xeque Al Tayyeb com o título gordo: “Meu irmão Muçulmano”.

Missão cumprida?

Duas adolescentes em Zanzibar a jogar damas: o dialogo inter-religioso deve jogar-se em todos os tabuleiros (Foto © Tony Neves)

O objectivo do Papa ao aceitar este convite era, disse-o, melhorar as relações com o mundo islâmico. E, claro, encontrar-se e fortalecer a fé do milhão de cristãos que vive nos Emirados. Já em Roma, na audiência da quarta feira, afirmou que a visita tinha ajudado a escrever uma nova página nas relações entre cristãos e muçulmanos. E o Papa vai continuar esta Missão com a visita, daqui a um mês e meio, a Marrocos. Sempre com a convicção de que a oração e o diálogo devem derrotar a guerra, o armamento, os muros e a miséria dos povos. E mais: só o respeito e a tolerância abrem caminhos ao amadurecimento espiritual que beneficia toda a sociedade. A partir da fraternidade humana e da fé, é possível construir um mundo com mais justiça, paz e respeito pelos direitos das pessoas. Zanzibar e Abu Dhabi são apenas nomes geográficos, mas os encontros que lá se realizaram deixarão marcas para o futuro da humanidade.

Tony Neves é padre católico e responsável do Departamento da Justiça e Paz dos Missionários do Espírito Santo (Espiritanos), de cuja congregação é membro.

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