Debate: E se deixassem Notre-Dame em ruínas?

| 28 Abr 19

O interior de Notre-Dame depois do incêndio. Foto reproduzida da página da presidente do município de Paris, Anne Hidalgo, na rede social Twitter (https://twitter.com/Anne_Hidalgo)

 

Ainda os bombeiros faziam o rescaldo do fogo e já os milhões de euros se contabilizavam às centenas para a reconstrução da catedral de Notre-Dame de Paris. Nada a opor à mobilização de famosos e anónimos, particulares e empresas, estados e até organizações como o Comité Olímpico Internacional, visto os Jogos Olímpicos estarem marcados para Paris em 2024, para a reconstrução do edifício que é dos mais visitados do mundo e um símbolo da Europa.

Provavelmente, nenhum outro acidente motivou tanta generosidade, mesmo que muita dela tenha como objetivo a publicidade, a vaidade pessoal ou o desejo de ver o nome próprio eternizado na placa dos benfeitores.

Porque me espantou a angariação repentina de milhões para esta boa causa, não deixa de me interrogar a dificuldade de arranjar financiamento para outras ainda melhores. Não penso apenas nas vítimas do ciclone Idai, que precisam de cerca de mil milhões (que a reconstrução de Notre-Dame já tem) e têm menos de um quarto desta quantia, por altura desta Páscoa. Penso na relativa facilidade em arranjar dinheiro para templos de pedra, em comparação com a escassez de dinheiro para projetos de desenvolvimento ou simplesmente para dar pão a quem tem fome.

Notre-Dame é muito mais do que uma igreja cristã? Certamente. É cultura, é história, é símbolo de uma identidade. Mas não nos esqueçamos que a Senhora a quem é dedicada a igreja é Maria de Nazaré, aquela que disse que Deus “derrubou os poderosos de seus tronos / E exaltou os humildes / Aos famintos encheu de bens / aos ricos despediu de mãos vazias” (Evangelho de Lucas 1).

Se Notre-Dame de Paris e Nazaré pudesse ser consultada, gostaria de ver a sua casa reconstruída com o dinheiro de marcas de luxo e de petrolíferas? Ou quereria antes que todos os grandes se juntassem para, de uma vez por todas, acabar com a fome, o analfabetismo, a mortalidade infantil, a insustentabilidade ambiental?

Perguntas como estas podem ser acusadas de demagogia. Aliás, sempre que alguém, em ambiente cristão – numa comunidade, numa paróquia, numa diocese –, faz perguntas deste género perante gastos mais dados para a ostentação (como certos objetos litúrgicos ou o fogo de artifício numa festa popular cristã) e para a duração no tempo (como igrejas, esculturas ou um órgão de tubos, por exemplo), leva sempre com o chavão de que as “coisas não se excluem” e com a resposta que Jesus deu a Judas quando este sugeriu que se vendesse o bálsamo de trezentos denários para dar o dinheiro aos pobres: “De facto, os pobres sempre os tendes convosco, mas a mim não me tendes sempre.” Pouco adianta argumentar que, segundo o evangelho de João (Jo 12, 5-8), não só Judas desviava o que se colocava na bolsa, como estávamos no tempo anterior à presença de Jesus através do Espírito Santo, da Igreja, da Palavra, dos sacramentos e principalmente dos seres humanos, irmãos.

Talvez nenhum versículo tenha tido tantas consequências culturais ao longo da história como o “pobres sempre os tendes convosco”. Um pequeno versículo apaga muitos outros que empurram em direção ao próximo, como as Bem-Aventuranças (Mt 5 e Lc 6), a Parábola do Bom Samaritano (Lc 10, que é sobre o amor a Deus e ao próximo), ou as ações que dão direito à “herança do reino” (Mt 25).

As alternativas – reconstruir o templo e investir no desenvolvimento de pessoas – não se excluem. Mas alguns ficam sempre excluídos. Quantas obras dedicadas a Deus ou a Nossa Senhora deixaram de se fazer para resolver um problema de humanidade?

A questão, num tempo em que o Papa apela ao cuidado com os pobres, os migrantes e a casa comum, tem de se pôr, mesmo que a resposta já se saiba: não seria um sinal profético adiar a reconstrução de Notre-Dame? As ruínas do templo mais visitado não constituiriam um sinal eloquente das prioridades de um mundo mais fraterno? A proposta de um adiamento da reconstrução não poderia provocar uma discussão sobre o que realmente importa no mundo, nomeadamente a questão da pobreza e a da proteção da casa comum?

Neste contexto, alguns poderiam a seguir lançar a questão: “E os tesouros do Vaticano, não deveriam ser vendidos para financiar projetos de desenvolvimento?” Consta que Paulo VI terá contactado um marchand para vender algumas obras de arte do Vaticano. E o marchand terá dito que não queria ser um novo Judas. Mas a questão deveria estar em aberto e para muitos cristãos está, porque a Igreja deve ser a que cuida dos famintos e se preocupa com a justiça e não a que conserva obras de arte.

A própria Basílica de S. Pedro, tendo sido construída à custa do financiamento do muito católico Jakob Fugger e das indulgências que pagaram o empréstimo, não pode deixar de ser vista como um fruto do dinheiro mal aplicado em nome de Deus. Nenhum Papa estaria disposto a converter estátuas de Miguel Ângelo em arados ou alicates e pinturas de Rafael em foices ou computadores? Não tenho tanta certeza disso.

O teólogo preferido de João Paulo II e de Bento XVI, Hans Urs von Balthasar, escreveu em 1971 que, para acabar com o “escândalo inútil”, seria bom que o Papa “transformasse o Vaticano num museu e se transferisse para a entrada de Roma” (Punti fermi, pág. 326). Francisco ainda não é suburbano, mas já mora em Santa Marta. As coisas podem mudar.

 

Jorge Pires Ferreira é jornalista e diretor-adjunto do Correio do Vouga – semanário da diocese de Aveiro; sobre o mesmo tema, o 7MARGENS publicou já textos de José Brissos-Lino e de Manuel Alte da Veiga

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