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[Entre Margens]

Décadas de quê? De atavismo

| 12/01/2026

 

Escrevo de rajada, e possivelmente menos bem, porque fui assaltado por uma certa urgência depois de ler o boletim de Janeiro da paróquia de Santa Isabel – Lisboa, aonde fui à missa antecipada. Nele vem anunciado o habitual ciclo de encontros de Janeiro sob o lema Discípulos de Jesus na Cidade.

Interessou-me em particular o quarto e último encontro no dia 29 de Janeiro, quinta-feira, com o atractivo título “Para uma pastoral urbana em Lisboa”, com o padre António Janela (sociólogo, ex-professor universitário).

De regresso a casa pus-me a pensar nesse tema órfão da pastoral urbana. Veio-me à cabeça uma multidão de tópicos, aparentemente sem relação, como se as sinapses se ligassem sem lógica. Mas havia uma lógica, mesmo que interna, pessoal, que tentarei explicar.

Encontros de Santa Isabel

Cartaz: Encontros de Santa Isabel 2026

Comecei por me lembrar que nos anos 70, entre a adolescência e o início da vida adulta, tive muitas daquelas naturais e inerentes angústias de fé, que eram agravadas pelo grande enjoo das missas de Santo Condestável, geladas, distantes, destituídas de tudo o que eu precisaria para prosseguir a minha caminhada. Felizmente redescobri Deus através da JEC. Muitas vezes, sem o confessar aos meus pais, e menos ainda ao padre, faltava às missas e ia deambular pela cidade, sempre fascinado com as ruas, os bairros, os transportes públicos, ou ia até ao Hospital de São José para ver as ambulâncias, uma eterna e patética paixão desde criança. Isso alimentou o desejo de me juntar às tropas de socorro da Cruz Vermelha. Passei então, enquanto voluntário, a frequentar bancos de urgências hospitalares e a prestar atenção aos já então consensuais motivos do seu entupimento crónico: déficit de cuidados de saúde primários e quase inexistência de atendimento permanente pouco diferenciado para não-urgências. Passaram mais de quatro décadas mas esses constrangimentos permanecem basicamente inalterados, embora agravados pelo sub-dimensionamento dos serviços face ao totalmente previsível aumento da pressão na cintura de Lisboa e à complexificação e envelhecimento da população e, noutro plano, por uma concorrência perversa do sector privado. A identificação das dificuldades nem sempre leva à sua superação. Mau grado os avanços, parece que o país não consegue resolver-se plenamente. Podemos encontrar incontáveis exemplos na insana e delirante legislação de contratação pública, na rede ferroviária, na adiada construção do novo aeroporto de Lisboa, na gestão medíocre de tantas autarquias, na ausência de políticas públicas sectoriais consequentes, nos atrasos absurdos das obras públicas, e por aí fora. O atavismo contamina tudo e todos, o sector privado não é menos imune do que o público, apenas é mais opaco na tragédia.

O mesmo ocorre com a Igreja – e agora aproximo-me do ponto. Decerto involuntária mas sempre decididamente, o aparelho institucional, em vez de viver e anunciar os evangelhos, insiste na ritualização da fé (trágica a página do Facebook do Patriarcado de Lisboa!), o que nos levará à mera significância simbólica bem mais cedo do que alguns vaticinam. O imobilismo é caracterial e identitário na Igreja, se bem que não em toda e em todo o lado. Porém, predomina. Tem sido assim com a denegação do carácter endógeno e sistémico dos abusos sexuais, tem sido assim com a passividade face à perda de fiéis, tem sido assim com a obstinação em não reconhecer à mulher a paridade que ela merece no seu seio, tem sido assim ao contrariar a sexualidade humana, tem sido assim com o clericalismo pétreo e inerente chauvinismo (ena, há quantos anos não usava esta palavra).

É mais longa a introdução que o texto substantivo que tinha pensado, um velho atavismo pessoal que – também eu – não tenho sabido resolver. De volta ao encontro “Para uma pastoral urbana em Lisboa”, julgo perceber que o título denuncia implicitamente esse atavismo de não-pensar e não-realizar que também penetra a Igreja. Objectivamente, o título diz-nos que não temos uma pastoral urbana, mas que precisamos de uma. Aliás, alargando o raio de observação, não parece que tenhamos muitas pastorais para além da vida paroquial, nomeadamente desde a falência e quase desaparecimento dos movimentos da Acção Católica, desinvestida que foi pelo aparelho institucional (tanto e tanto e tanto que nos anos 70 e 80 os militantes pediram assistentes, apoio e dinheiro, que nunca chegaram).

O padre Janela, então pároco da pequena e já muito esvaziada paróquia de São Nicolau, pedia uma pastoral urbana que não fosse territorial, mas temática, uma pastoral que se dirigisse às necessidades do urbanita, do nómada que vive e circula na metrópole segundo um ritmo que já nada tem com o da matriz cultural e vivencial das paróquias convencionais, desenhadas segundo um padrão rural e não-cosmopolita.” Foto: Cónego António Janela

Ora eu recordo-me muito bem que há quase meio século (volto a escrever meio século, para ter a certeza que é esta a medida) o padre Janela, então pároco da pequena e já muito esvaziada paróquia de São Nicolau, pedia uma pastoral urbana que não fosse territorial, mas temática, uma pastoral que se dirigisse às necessidades do urbanita, do nómada que vive e circula na metrópole segundo um ritmo que já nada tem com o da matriz cultural e vivencial das paróquias convencionais, desenhadas segundo um padrão rural e não-cosmopolita. O urbanita tem uma cultura e um modo de vida organizado na cidade enquanto entidade complexa e multifacetada. Portanto, creio que uma pastoral urbana precisaria de se adaptar ao seu estilo de vida, desde logo escutando-o onde ele está (e com toda a certeza não está na paróquia ou na missa dominical cuja lógica e estética não lhe é acessível e, quantas vezes, o repugna) para saber o que lhe propor, e como lhe propor.

Consequentemente, a paróquia urbana teria que ser reconceptualizada segundo um outro modelo feito de várias camadas, não só orgânicas mas sobretudo de pensamento. Entretanto, uma reforma “administrativa” da realidade paroquial não seria de desconsiderar. É toda uma revolução por fazer, relevante em particular numa diocese muito heterogénea, nos territórios, nas actividades, nas populações, nas culturas e nos interesses. Há, pois, toda uma reflexão por realizar que está atrasada 50 anos.

Em resumo, a minha interrogação é esta: como pode uma diocese cristalizada numa organização e cultura anacrónicas evoluir para responder às pessoas de hoje? Como desenhar, praticamente desde o princípio, uma pastoral urbana que faça sentido para os seus destinatários, os católicos que um destes dias o deixarão de ser (quantos miúdos permanecem na Igreja depois de finalizarem a catequese?), e todos aqueles que não tendo Cristo como referência poderão estar abertos, alguns talvez sem sequer o saberem, à Sua mensagem?

É por isso que aguardo com muita expectativa a sessão do padre Janela, que tem muito pensamento sobre o tema acumulado durante décadas. Espero que haja muitos católicos da cidade de Lisboa que o queiram ouvir. Eu certamente lá estarei.

 

Nuno Caiado

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