Definir a Europa das próximas gerações

| 24 Mai 19

Um sessão com jovens de todo o continente, no hemiciclo do Parlamento Europeu, em Estrasburgo. Foto © Maria Marujo

 

Como Crentes somos desafiados a seguir ideais.

Algo comum a todas as religiões, é que o espaço de aplicação desses ideais não se circunscreve à zona geográfica da igreja, templo ou mesquita, no exclusivo da nossa oração particular com Deus, mas em toda nossa vida: em casa, com a família, nos nossos relacionamentos, no nosso trabalho e, como não pode deixar de ser, também na vida cívica e em sociedade.

As eleições europeias são um serviço a que somos chamados a responder na base da fidelidade da nossa crença.

Não consigo falar de todas as crenças e seus ideias, posso falar da que conheço: a Bíblia. Não podemos dizer que este livro, ou “biblioteca”, é ideologicamente neutro.

Lembro-me em Direito que Jesus até era indicado na Ciência Política no manual do prof. Freitas do Amaral como sendo:o primeiro comunista da história. Pode não ser a melhor metáfora com o comunismo revolucionário e por vezes anti-liberdade que conhecemos, atendendo inclusivamente ao número de mortes que o comunismo causou como ditadura, neste caso de esquerda. Mas, conhecendo Jesus, percebo a ideia que Freitas do Amaral queria transmitir…

A etimologia da palavra comunismo, é uma derivação de tudo o que é comum, partilhado, em comunhão, pertencente a todos. Transporta-nos assim para uma partilha de vida em comunidade, na venda de bens e divisão de riquezas em prol de todos “segundo as suas carências”, e no modo de estar de Jesus e seus discípulos bem como dos primeiros cristãos (Actos 2, 42-47).

Assim, na nossa escolha eleitoral, podemos com certeza eliminar tudo o que for pertencente ao eu, acumular, não partilhar. Dificilmente estas podem ser escolhas cristãs. Desconfio que noutras crenças a mensagem poder ser idêntica.

Na Europa, há vários temas pendentes que nos puxam para o Eu, a propriedade e pertença daquilo que é meu e de mais ninguém: a crescente onda de populismo que eleva o nacional, a fronteira, o que me pertence e não pertence ao estrangeiro; os movimentos anti-Europa e anti-imigração que marcaram a campanha para as eleições para o Parlamento Europeu noutros países; a emergência climática que nos leva a abdicar de certos actos ou consumos meus em prol da partilha dos recursos da Terra; etc.

Portugal está entre os seis países da UE – juntamente com Irlanda, Luxemburgo, Malta, Reino Unido e Roménia – que nos seus parlamentos nacionais não têm partidos de extrema direita ou nacionalistas. Por este motivo, todos estes países nestas eleições europeias têm um maior peso no sentido de tentar contrariar a tendência populista. Esta tendência pode ser a terceira força política na Europa a sair destas eleições.

O apelo ao voto nunca foi tão intenso.

Várias instituições religiosas e não religiosas se têm pronunciado e mostrado preocupação com estas eleições para o Parlamento Europeu:

– No apelo à ida de todos os cristãos e jovens às urnas exprimindo o nosso sentir da Europa, nomeadamente o Copic (Conselho Português de Igrejas Cristãse Comissão Nacional Justiça e Paz.

– Na responsabilidade na luta contra o populismo, como lembrou a Pax Christi, publicando o manifesto “A Europa que queremos”, para estas eleições, e a Conferência das Igrejas Cristãs (CEC/KEK)  – que, além da produção de vários vídeos sobre as eleiçõespromove ainda a sua Escola Internacional de Direitos Humanos, pela primeira vez em Portugal, com o tema: “Liberdade de Expressão, Teologia e Populismo”.

– As organizações de acolhimento de refugiados, têm tido um papel importante e uma presença activa na campanha das eleições europeias, nas suas preocupações: o Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) interveio no debate, com uma campanha em vídeo que dizia que este voto tem o poder de resgatar famílias

e, por exemplo, a associação portuguesa Meeru-Abrir Caminholigada a um acolhimento próximo de todos que chegam ao nosso país tendo organizado uma série de debates e conferências em torno destas eleições.

– Sobre a emergência climática, que coloca em risco vários países do mundo e a espécie humana: segundo o WWF, se todos os países consumissem o mesmo que a Europa (sendo Portugal o exemplo contrário), todos os recursos mundiais teriam acabado dia 10 de Maio; e também a Quercus; e a Greenpeace colocou em Abril um cartaz gigante na fachada do edifício da Comissão Europeia, com a frase: “Bla bla bla Brexit. Parem o caos climático!”

Consigo perceber a divisão, são muitas causas, e uma Europa que queremos construir em unidade nesta fidelidade também com Deus. Votar é o primeiro passo, votar com procura de conhecimento o segundo.

O ideal seria a escolha de um partido que salvaguardasse todas estas causas.

Temos uma escolha colectiva e individual.

Seria errado dizer qual o melhor partido a votar. Mas posso apenas dar o meu testemunho na divisão de causas que também já ocupou o meu pensamento.

Tendo o dia na vida activa cerca de 12 horas, vi-me confrontada com a necessidade de ter de escolher ocupar a minha mente e tempo entre duas causas, uma social e outra ambiental. Custou-me bastante decidir, mas o meu pensamento foi o seguinte: daqui a uma década esta causa social pode ser atingida, mas que me adiantará se não houver planeta nessa altura?

Decidi nesse dia dedicar-me à sensibilização para as questões climáticas e como podemos combatê-las no dia-a-dia.

Mais tarde apercebi-me que não tinha de escolher pois as causas sociais e ambientais estão de tal maneira interligadas que não há possibilidade de separação. Basta olhar para os Objectivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para ver como ambas as áreas de actuação estão presentes e interligadas:

Por exemplo, como conseguiríamos atingir o ODS 1 (erradicação da pobreza) se houvesse caos climático (ODS 13)? Não há condições para os alimentos crescerem;

Se não cuidarmos dos oceanos (ODS 14), ficaremos sem peixe ou sem saúde, se o peixe não tiver qualidade (ODS 3), acabando por comer mais carne e voltando a contribuir para o caos climático (ODS 13).

O clima, por razões sociais, é uma das prioridades. Sonho com o dia em que poderei dedicar-me a outras causas que sinto no meu coração e me são tão queridas, mas para isso temos de cuidar desta emergência. Como na série Game of Thrones, em que todos se uniram para eliminar o exército dos mortos antes de andarem à guerra entre si para verem quem ganhava os 7 Reinos. Que adiantava reinarem se iam ser eliminados pelo exército dos mortos? Nas alterações climáticas é o mesmo cenário. Todos somos importantes nas atitudes diárias e também no nosso voto nestas eleições.

O Deus de Israel e do Cristianismo não é um Deus de escravos mas de homens e mulheres livres que o escolhem seguir. Somos chamados a escolher e ser fiéis aos ideais que nos moldam também na sociedade.

Dia 26 de Maio todos os Crentes cidadãos europeus estão no mesmo lugar a definir a Europa das próximas gerações.

Que Deus esteja com cada um nesse momento, oriente o vosso pensamento, sentir e oração.

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