Deitar a toalha ao chão – ou ajuda mútua

| 6 Fev 21

“Emergem, por outro lado, no momento em que estamos, gritos desolados.” (Foto © Erik Mclean / Unsplash)

 

Este último mês tem sido, realmente, mesmo especial. Nunca a minha profissão foi tão dura de exercer. As pessoas estão angustiadas, ansiosas, deprimidas, cansadas.

Cansadas de ter de lutar em prol de não sei quê e contra um invisível que pode tornar-se avassalador; cansadas de fingir que acreditam no futuro; cansadas de ter de fazer de conta que conseguem ser felizes; cansadas de serem incompreendidas na sua dor; cansadas de não serem escutadas nos seus apelos; cansadas de disfarçar os seus reais problemas; cansadas de ver desonestidades e incompetências de alguns com consequências nefastas para quase todos. Em suma, muito cansadas.

Parece incrível não ser resiliente. É obrigatório mostrar que se é capaz, demonstrar que se consegue, que se tem ideias especiais, originais e diferentes de todos, quando alguns já as partilharam, mas isso disfarça-se bem.

Ser fraco. Ninguém gosta de ser fraco. Só que há um pequeno detalhe. Esta fraqueza é de quase todos. No atual cenário há poucos heróis.

Tem, ainda assim, de ser dito que as pessoas que, previamente, tinham mais limitações, se sentem agora mais iguais a todas as outras e, por isso, talvez surpreendentemente ou não, são aquelas que se encontram melhor, mais equilibradas, mais serenas.

E porque será assim?

Porque fazemos comparações. E as comparações são verdadeiramente inúteis. Inúteis porque põem em perspetiva seres diferentes em contextos diferentes, como se tudo fosse igual; porque exibem cenários reais frente a frente com cenários fictícios; porque despertam necessidades naqueles que, antes de as terem, eram mais felizes, já que aceitavam o que possuíam e usavam a inteligência para se fazerem gostar do que a vida lhes oferecia.

Emergem, por outro lado, no momento em que estamos, gritos desolados. Se fizermos um levantamento do que sai na comunicação social, em testemunhos, artigos, reportagens, maiores ou menores, encontramos as pessoas desesperadas. E são justamente essas, que falam por si e por outras, que podem favorecer o deitar da toalha ao chão.

Gostava imenso de me sentir legitimada a pedir que ninguém desista. Ainda que a mesa da casa de jantar seja também escritório e escola; ainda que o quarto de dormir vire lugar de reuniões virtuais; ainda que a criatividade não desperte porque o quotidiano asfixia e a lógica tem de estar sobreativada para evitar más, pequenas ou grandes, decisões; ainda que a paciência falte para ouvir os filhos discutirem ou para os desviar serenamente do contínuo uso de jogos eletrónicos.

Sim. Nem todos temos casas enormes, onde cada qual possa ter o seu domínio bem limitado e definido; nas quais os jardins sejam amplos e se possa apanhar sol; com lugar de ginásio, de cinema, de música, de jogos… Mas não faz mal. Não é, seguramente, tão fácil viver mais confinado, mas não sobra alternativa e é, por isso, que a nossa escolha se coloca entre aceitarmos ou revoltarmo-nos, sabendo que se formos pela segunda opção vamos ficar ainda muito pior.

Li recentemente um artigo que, em particular, me chamou a atenção por ser expressão de saturação e por não passar de um desabafo de quem não está a aguentar mais. Contudo, quem assim se sente, fará melhor se pedir ajuda e se confiar que pode ser ajudado, do que gritar para uma vasta plateia a dor que tem na alma. Somos responsáveis por “medir” a influência que temos. Nos tempos que correm não podemos piorar o que já é pior do que a imaginação humana, há menos de um ano, poderia chegar a prever.

Estamos em dor emocional, mas, tanto quanto de nós dependa, não podemos agir no sentido de a deixar contaminar, qual pandemia paralela, mas igualmente incapacitante.

Tive uma ideia e, ainda que estejamos todos fartos de teams e de zooms, nesta fase, creio que pode funcionar e prolongar-se quando as circunstâncias permitirem que sejamos presença uns junto dos outros. Quem sabe, por largos tempos, continuará a ser útil: começar a criar grupos de autoajuda, ou de ajuda mútua, para a pandemia da saúde mental decorrente da pandemia covid-19.

Nestes fóruns trocam-se ideias, ouvem-se testemunhos, reconhece-se que ninguém está só, encontram-se caminhos novos que podem, com grande benefício, passar a ser percorridos. E não é preciso nada, a não ser iniciativa e algumas regras. Não tem custos. É, isso sim, para isto que mais serve a tecnologia – aproxima os que estão longe.

 

Margarida Cordo é psicóloga clínica, psicoterapeuta e autora de vários livros sobre psicologia e psicoterapia.

 

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