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Eugénio Fonseca. Foto Agência Ecclesia MC
Eugénio Fonseca tinha assumido recentemente a presidência da Fundação D. Manuel Martins. Foto © Agência Ecclesia/MC

Reações à morte de Eugénio Fonseca

“Deixa-nos o sonho de uma Igreja pobre para os pobres”

 

As reações à morte de Eugénio Fonseca, falecido na manhã desta quarta-feira, 12 de agosto, destacam o seu papel determinante na Cáritas Portuguesa, a sua incansável luta na defesa dos mais pobres e a independência com que interveio no debate social. Ao 7MARGENS, várias personalidades que o acompanharam em diferentes momentos do seu percurso sublinham ainda a sua persistência, mesmo nas dificuldades, e a capacidade de estabelecer pontes para lá das diferenças.

É o caso de António Lage Raposo, que presidiu à Cáritas Portuguesa entre 1976 e 1982 e recorda aquele que assumiu o mesmo cargo 17 anos depois como “um homem de extraordinário valor dentro da afirmação e da contribuição da Igreja”. Um dos momentos decisivos do seu percurso, assinala, foi precisamente a chegada à presidência da Cáritas Portuguesa numa altura particularmente difícil para a instituição. Depois de uma crise financeira, Eugénio Fonseca “reconstruiu a casa”, e fez algo “que não é muito comum”, destaca Lage Raposo: “Ele foi capaz de trabalhar com os seus dois antecessores, eu e o Acácio [Catarino, que assumiu a presidência entre 1982 e 1999]”.

A sua ação ultrapassaria depois os limites da própria instituição. Como presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca tornou-se, na expressão de Lage Raposo, “uma figura nacional” e uma referência na denúncia e reflexão sobre os problemas sociais no país, assumindo-se como “a voz da Cáritas e da Igreja” nessa área.

Também Rita Valadas, que em 2020 sucedeu a Eugénio Fonseca na presidência da Cáritas Portuguesa, fala de alguém que permanece “central na história da Cáritas em Portugal”. A atual presidente conheceu-o não apenas enquanto dirigente da instituição, mas também através do trabalho conjunto e das muitas conversas que mantiveram ao longo dos anos. “Esse contacto com o Eugénio foi muito importante na forma como construí o meu próprio olhar sobre a realidade social e sobre a Igreja”, reconhece.

Rita Valadas considera que Eugénio “soube conduzir a instituição através das grandes crises sociais do seu tempo”, tomando iniciativas e procurando respostas para os mais vulneráveis. “Ninguém repete Eugénio Fonseca, mas podemos aprender com ele. E foi isso que eu procurei fazer”, afirma.

Já depois de ter deixado a presidência da instituição, Eugénio “continuou a procurar formas de permanecer ligado à rede social da Igreja e às respostas dadas no território”, conta a atual presidente. “E nunca tive dele uma palavra que não fosse de incentivo”, recorda Rita Valadas com gratidão.

 

“Uma voz que tem de continuar entre nós”

Gratidão é também o que sente Manuel Carvalho da Silva, antigo secretário-geral da CGTP, pela relação de “profundo respeito e amizade” que o unia a Eugénio Fonseca. Os dois encontraram-se repetidamente em torno de questões sociais e laborais e, juntos, travaram “combates, muitas vezes lado a lado, contra desigualdades, injustiças, em defesa da dignidade no trabalho, mas também na sociedade em geral”, recorda Carvalho da Silva em declarações ao 7MARGENS.

Na sua evocação, o antigo sindicalista destaca, em primeiro lugar, a profundidade das convicções de Eugénio Fonseca. As suas leituras da realidade religiosa, social e política eram sustentadas, afirma, por “um conhecimento” e uma “densidade de preparação” que lhe permitiam formular propostas e intervenções com consistência. Mas sublinha sobretudo a preocupação de Eugénio em preservar a independência. “Tinha as suas convicções e a sua leitura da sociedade e quis sempre ser livre e conseguia sê-lo”. Essa opção “tinha custos” e, recorda Carvalho da Silva, “houve discussões das quais saiu triste ou frustrado”. Mas “não se arrependia de pagar esse preço quando estava em causa a defesa dos direitos e dos valores das pessoas por quem lutava”.

Até porque uma das coisas que mais o preocupava era o facto de considerar a sociedade “excessivamente condescendente perante a pobreza”. Face a isso, Eugénio Fonseca procurava, em muitas ocasiões, “instabilizar as consciências”, expressão que Carvalho da Silva associa ao pensamento do primeiro bispo de Setúbal, Manuel Martins, figura particularmente próxima do antigo presidente da Cáritas.

E é precisamente essa dimensão de legado que Carvalho da Silva teme que se perca com a morte de Eugénio. “É uma voz que vai fazer muita falta. É uma voz que tem de continuar entre nós”, afirma. E deixa um apelo à continuidade: “Temos que tomar o seu exemplo, temos que tomar as suas convicções, temos que tomar as suas causas e continuá-las.”

 

Vieira da Silva: “Um compromisso com a solidariedade”

Eugénio Fonseca. Foto DR

O ex-ministro Vieira da Silva afirma que de Eugénio Fonseca irá guardar, sobretudo, um “olhar para a humanidade” feito de “não desistência”. Foto: Direitos reservados

Também o antigo ministro do Trabalho e da Solidariedade Social José António Vieira da Silva se cruzou várias vezes com Eugénio Fonseca, sobretudo durante as funções públicas que desempenhou. Ao 7MARGENS, recorda-o como uma pessoa de “forte empenhamento na defesa dos mais frágeis, na defesa da solidariedade” e profundamente comprometida com as questões sociais.

Vieira da Silva encontrou-o particularmente em contextos relacionados com o combate à pobreza e na procura de alternativas para reduzir o risco e a intensidade desse fenómeno. Da sua memória fica a imagem de “uma pessoa determinada, uma pessoa muito persistente”, que “nunca virava às costas” a um pedido e que se mantinha “muito firme nas suas opções”.

Era também, por isso, alguém com quem considerava fácil trabalhar: “Nós sabíamos qual era o tipo de resposta que podíamos esperar. Era uma resposta empenhada, uma resposta de compromisso com os valores da solidariedade”, refere o antigo governante.

Dele irá guardar, sobretudo, um “olhar para a humanidade” feito de “não desistência”: a convicção de que era preciso continuar sempre a procurar “um presente e um futuro melhor”.

 

“Vivo reconhecimento” dos bispos

Também a Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) manifestou, em comunicado divulgado ao final da tarde, o seu “profundo pesar” pela morte de Eugénio Fonseca, recordando o seu longo percurso de serviço às pessoas e famílias em situação de pobreza e exclusão.

Os bispos recordam que, por ocasião da cessação das suas funções enquanto presidente da Cáritas Portuguesa – função que exerceu por nomeação da CEP -, a Assembleia Plenária aprovou um voto de louvor e manifestou “vivo reconhecimento pelo serviço que prestou, com muita dedicação, durante sete mandatos”.

Os bispos portugueses sublinham ainda o testemunho dado por Eugénio Fonseca à Igreja e à sociedade através de um longo percurso de serviço, “particularmente aos que se encontram em situações de maior fragilidade”, e agradecem a Deus “o dom da sua vida e do seu testemunho”.

Na mesma linha, o patriarca de Lisboa, Rui Valério, evoca Eugénio Fonseca como “figura incontornável da ação social da Igreja em Portugal” e como testemunha de uma caridade entendida como proximidade, compromisso e defesa da dignidade humana.

Numa mensagem divulgada no sítio do Patriarcado, o bispo recorda as décadas de dedicação aos mais pobres e vulneráveis, a longa responsabilidade na Cáritas Portuguesa e o empenho no voluntariado e em diferentes áreas da pastoral social. Sublinha ainda que Eugénio Fonseca “não se limitou a falar dos pobres”: procurou conhecê-los, escutá-los e fazer com que a sua voz fosse ouvida.

Manifestando a sua proximidade à família, aos amigos, à Cáritas, à Confederação Portuguesa do Voluntariado e a todos os que partilharam com Eugénio Fonseca “tantos anos de serviço e compromisso”, Rui Valério recorda que a pobreza nunca foi, para Eugénio Fonseca, uma fatalidade diante da qual fosse possível resignar-se, mas uma interpelação à consciência e à responsabilidade coletiva. A sua intervenção pública, escreve, foi marcada pela defesa da justiça social e pela convicção de que o serviço aos mais frágeis pertence ao “próprio coração da fé cristã”.

 

Um legado e uma responsabilidade

D. Manuel Martins. Bispo. Setúbal

Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal. Eugénio Fonseca encontrava-se atualmente empenhado na preparação das comemorações do centenário do seu nascimento. Foto: Direitos reservados

De Setúbal, onde Eugénio Fonseca iniciou o seu percurso na Cáritas Diocesana e à qual permaneceu ligado até aos últimos meses, chega também a reação do cardeal Américo Aguiar. Numa nota episcopal, o bispo de Setúbal manifesta “profunda consternação” pela morte de Eugénio Fonseca e recorda a sua “dedicação incansável aos mais pobres, frágeis e esquecidos” e a promoção de uma cultura de solidariedade, proximidade e dignidade humana.

Américo Aguiar destaca ainda o facto de Eugénio ter assumido recentemente a presidência da Fundação D. Manuel Martins, mantendo assim a ligação à memória do primeiro bispo de Setúbal, com quem começara o seu percurso na Cáritas. Encontrava-se também empenhado na preparação das comemorações do centenário do nascimento de D. Manuel Martins, uma tarefa que, segundo o bispo de Setúbal, assumira “com entusiasmo, dedicação e profundo sentido de missão”.

“Tendo iniciado o seu percurso na Cáritas com D. Manuel Martins, primeiro bispo de Setúbal, encontrou no Papa Francisco o seu mote”, sublinha por seu lado o padre José Manuel Pereira de Almeida. Em declarações ao 7MARGENS, o vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa e assistente da Cáritas Portuguesa define-o como sendo “um homem de causas e de grandes entusiasmos”, e cujo legado é também uma responsabilidade nossa: “Deixa-nos o sonho de uma Igreja pobre para os pobres”. Resta saber se haverá capacidade para o concretizar.

 

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