Deixar-se atrair pelo “piscar de olhos” literário

| 18 Jun 2024

Livros. Olho

Imagem gerada no DALL-E (programa de inteligência artificial que cria imagens a partir de descrições textuais) com prompt de Miguel Panão.

Um mar de gente passeava pelo meio de uma imensidão de livros. Aqui e ali viam-se famílias, amigos ou pessoas em solitude. Mais do que uma Feira do Livro, aquele espaço tornava-se numa experiência de encontro com a intemporalidade das palavras e ideias que alimentam a nossa mente. Este ano procurei fazer uma experiência diferente. Em vez de procurar um livro que despertasse o meu interesse, pensei em deixar que o livro me procurasse e eu pudesse despertar o seu interesse. Uma experiência estranha.

Um livro é um mero objecto. A única forma que tem de me procurar é abandonar-se ao evento contingente do encontro entre a forma que lhe deram e o meu olhar. Deambulei para cima e para baixo. Não fui inteiramente fiel ao meu propósito, abeirando-me dos “livros do dia” por serem mais baratos a ver se me “piscavam o olho”. Nenhum se dignificou a fazê-lo. Com as pernas desgastadas pelo “pára-arranque”, a um dado momento não sabia por que razão me sentia isolado no meio da multidão de livros. Foi nesse impasse interior que me apercebi de não ser o único a viver aquela espécie de isolamento, mas também diversos autores, sozinhos, sentados e de caneta em punho, aguardando que o seu livro “piscasse o olho” a alguém. O receio começou a nascer no meu coração.

Dois dias depois, seria eu a estar na posição daqueles escritores quando fosse a ocasião da minha sessão de autógrafos. Será que o meu “Tempo 3.0” também se recusaria a “piscar o olho” a alguém? Nesse sentido, fui prevenido. Comigo levava um pequeno caderno onde poderia escrever as palavras que a multidão escreveria com o seu passear. — «Passam. Observam. Pensam. Ponderam. Continuam o seu caminho. É difícil interagir com quem desconhecem.» — Felizmente não escrevi muito graças à presença e apoio da família e dos amigos que animaram aqueles 45min que poderiam ser de verdadeira solidão.

Os livros são como peças de joalharia literárias. Uns com edições mais cuidadas, outros mais descuidadas, mas dentro de si contêm o tesouro da experiência que o escritor oferece através das palavras. Aliás, quando perguntei à minha colega autora que assinava livros ao meu lado, se o seu livro era de ficção, ela respondeu que sim embora contivesse vários episódios da sua história pessoal. Não importa se o livro que lemos é de ficção ou de não-ficção, dentro de si estará sempre um pouco do autor na esperança de que a sua vida faça eco na vida dos outros.
O mar de gente que flui pelas encostas literárias é o sinal de que, na Era Digital, os livros ainda fazem parte da vida das pessoas. Poderão ser muitos e variados os motivos pelos quais nos predispomos à fadiga nas pernas, esperando que um título, autor, capa ou preço nos “pisque o olho”, mas a finalidade do acto é a convicção de que ler é bom para nós, edifica-nos e faz-nos experimentar o tempo através da imaginação despertada pelas palavras.

Durante o ano, as pessoas tendem a queixar-se de não ter tempo para ler, mas o que assistimos na Feira do Livro contradiz essa impressão. Ler não é uma questão de gosto ou tempo, mas de visão e treino.

Um livro abre novos horizontes se deixarmo-nos interpelar por ideias que mexem connosco. Por vezes, o livro oferece-nos visões diferentes da compreensão que temos da realidade que nos rodeia e nos afecta profundamente. Só se desenvolve a capacidade para a leitura se treinarmos e “cortarmos na gordura”. Por gordura entende-se todo o tempo perdido em swipesscrollslikes e posts. Quando comecei a pensar melhor sobre o modo como experimentava o tempo, dei-me conta de que muito do tempo passado em ambientes digitais consumia mais vida do que pensava. Quando reduzi substancialmente a presença nesses ambientes digitais, reencontrei aquele cheiro de papel impresso que me ajuda a tocar naquela estranha fronteira entre o mundo físico e o imaginário.

Dizem que a vida passa por nós num abrir e fechar de olhos, ou seja, num piscar. Porém, quando interiormente abrimos espaço atencional para que um livro nos “pisque o olho”, sem termos essa intenção, faremos a experiência de como cada livro devolve a nossa atenção à vida física e pode ajudar-nos a tomar mais consciência da necessidade de um maior equilíbrio entre os ambientes físico e o digital.

No meio da multidão, senti que através daqueles simples objectos de papel, as pessoas encontram-se, convivem, conversam e transformam-se reciprocamente. Algo de semelhante à experiência da própria leitura, onde o tempo e o espaço tornam-se realidades maiores do que as palavras escritas em páginas que não cessam de nos “piscar o olho”.

 

Miguel Panão é professor na Universidade de Coimbra, autor do livro  Tempo 3.0 – Uma visão revolucionária da experiência mais transformativa do mundo” (Bertrand, Wook). Para acompanhar o que escreve pode subscrever a Newsletter Escritos em https://bit.ly/NewsletterEscritos_MiguelPanao

 

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