O alerta soou três dias depois de terem começado os ataques contra o Irão: mais de 200 militares de todos os ramos das Forças Armadas norte-americanas – incluindo os fuzileiros navais, a Força Aérea e a Força Espacial – apresentaram queixa à Fundação para a Liberdade Religiosa Militar (MRFF, na sigla em inglês), denunciando que os seus comandantes estavam a invocar uma retórica cristã extremista para justificar o envolvimento das tropas no conflito.
“Esta manhã, o nosso comandante iniciou a reunião sobre o estado de prontidão para o combate, instando-nos a não termos medo do que está a acontecer com as nossas operações de combate no Irão neste momento. Pediu-nos que disséssemos às nossas tropas que tudo isto fazia parte do plano divino de Deus e citou especificamente diversas passagens do Livro do Apocalipse referentes ao Armagedão e ao iminente regresso de Jesus Cristo. Disse que o presidente Trump foi ungido por Jesus para acender a chama do Armagedão no Irão e marcar o seu retorno à Terra”, pode ler-se numa das denúncias divulgada pela própria MRFF, uma organização sem fins lucrativos dedicada a defender a liberdade religiosa dos membros das Forças Armadas dos EUA.
“Não se trata apenas da separação entre Igreja e Estado” que deixa de ser cumprida, assinala o mesmo sargento. “Trata-se do facto de que o nosso comandante se sente totalmente apoiado e justificado por toda a cadeia de comando para impor a sua visão apocalíptica de um ataque ao Irão a todos nós que estamos abaixo dele na hierarquia”.
Dado relevante: o sargento assume-se ele próprio como cristão, e refere que apresenta esta denúncia em nome de 15 soldados, dos quais dez também se identificam como cristãos, um como muçulmano e outro como judeu.
De acordo com um comunicado do presidente da MRFF e veterano da Força Aérea, Mikey Weinstein, denúncias como esta chegaram de mais de 40 unidades diferentes, espalhadas por pelo menos 30 instalações militares, e todas elas têm um denominador comum: os denunciantes “relatam a euforia irrestrita dos seus comandantes”, que encaram esta guerra como “o sinal inegável da aproximação expedita do ‘Fim dos Tempos’ cristão fundamentalista”.
Uma guerra promovida pelo suposto “ungido por Jesus”, que se autodenomina o “Presidente da Paz” e reclama para si o respetivo Nobel porque segundo ele já “pôs fim” a oito conflitos desde que regressou à presidência dos EUA. A verdade é que nem todos esses acordos de paz sobreviveram, em alguns teve apenas um papel marginal, e vários deles continuam a agravar-se. Paralelamente, e apesar de ter prometido acabar com o hábito dos EUA de se envolver em “guerras intermináveis”, ao longo do primeiro ano no cargo Donald Trump ordenou o bombardeamento de sete países, e agora, em conluio com o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, está a atacar o Irão, com a justificação de que era preciso impedir o país de desenvolver novos mísseis, e tendo já avisado que esta “guerra preventiva” poderá durar mais do que o inicialmente previsto.

Donald Trump e funcionários do governo norte-americano monitorizam as operações militares dos EUA no Irão na Operação Fúria Épica. Foto © The White House/Daniel Torok
Também Netanyahu, em declarações à imprensa no passado domingo, quando visitava o local atingido por um míssil iraniano, sugeriu que esta é uma guerra religiosa. O primeiro-ministro israelita fez referência à Torá, o livro sagrado do judaísmo, comparando o Irão a um antigo inimigo bíblico, os amalequitas, conhecidos na tradição judaica como representantes do “mal absoluto”. “Na porção da Torá desta semana, lemos: ‘Lembrem-se do que Amaleque vos fez’. Nós lembramo-nos – e agimos”, afirmou.
Já no dia seguinte, numa conferência de imprensa no Pentágono, o secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, enfatizou: “Regimes insanos como o Irão, obcecados por delírios proféticos islâmicos, não podem ter armas nucleares.”
O Conselho de Relações Islâmico-Americanas (CAIR) condenou o uso dessa retórica pelo Pentágono, considerando-a “perigosa” e “anti-muçulmana”. “Os comentários depreciativos do Sr. Hegseth sobre ‘delírios proféticos islâmicos’, uma aparente referência às crenças xiitas sobre figuras religiosas que surgiriam perto do fim dos tempos, foram inaceitáveis. Assim como é inaceitável que comandantes militares dos EUA digam às tropas que uma guerra com o Irão é um passo bíblico rumo ao Armagedão”, pode ler-se na declaração do CAIR, organização que visa promover a compreensão do Islão e proteger os direitos civis dos muçulmanos nos Estados Unidos.
“Não nos surpreende ver Benjamin Netanyahu a usar mais uma vez a história bíblica de Amaleque – que afirma que Deus ordenou aos israelitas que assassinassem todos os homens, mulheres, crianças e animais de uma nação pagã que os atacou – para justificar o massacre de civis por Israel no Irão, assim como fez em Gaza. É ainda mais inaceitável que autoridades e comandantes militares dos EUA adotem uma retórica igualmente perigosa, que corre o risco de transformar esta guerra ilegal e mortal numa guerra religiosa”, acrescenta o texto, que incentiva todos os norte-americanos a contactarem a Casa Branca e os seus representantes no Congresso para exigir o fim da guerra “desnecessária, injustificada e inconstitucional” lançada pela administração Trump contra o Irão.
Quem também apelou ao fim imediato dos ataques foi Leão XIV. Na manhã de domingo, menos de 36 horas depois de o Pentágono ter lançado a chamada Operação Fúria Épica, o Papa disse perentoriamente perante os milhares de pessoas reunidas na Praça de São Pedro para o Angelus: “A estabilidade e a paz não se constroem com ameaças mútuas, nem com armas, que semeiam destruição, dor e morte, mas somente através de um diálogo razoável, autêntico e responsável”. E antevendo já a “tragédia de enormes proporções” que daqui pode advir, dirigiu às partes envolvidas “um veemente apelo para que assumam a responsabilidade moral de pôr um fim à espiral de violência antes que se torne um abismo irreparável”.
Um apelo do qual fizeram imediatamente eco os bispos católicos dos EUA, e que gradualmente foi sendo replicado pelas conferências episcopais um pouco por todo o mundo: na Europa, a Comissão das Conferências Episcopais da União Europeia (Comece) alertou para “um enfraquecimento da ordem internacional baseada em regras”, instando a União Europeia a redescobrir a sua “vocação original como projeto de paz”. Na Alemanha, o bispo Heiner Wilmer, que acaba de ser eleito presidente da Conferência Episcopal Alemã, expressou a sua “profunda preocupação” com a retomada dos combates, reiterando que a segurança de Israel continua a ser um direito fundamental, mas questionando se a escalada militar pode realmente trazer mais paz e liberdade à região. A Conferência Episcopal Irlandesa foi clara: “A guerra não é a resposta. Nenhum líder político tem autoridade para desencadeá-la à vontade”. Também a Federação das Conferências Episcopais da Ásia, reunida em Banguecoque, pediu a cessação imediata das hostilidades, lembrando que “a guerra afeta desproporcionalmente os mais vulneráveis: os pobres, os deslocados, as crianças e as gerações futuras”. E o arcebispo Timothy Costelloe de Perth, presidente da Conferência Episcopal Australiana, reafirmou o mesmo juízo moral: “A violência só multiplica o sofrimento; a guerra não é a resposta e é sempre uma derrota para a humanidade”.
Quanto aos bispos portugueses, nem um comentário, mas já nos fomos habituando à demora das suas tomadas de posição.

“A estabilidade e a paz não se constroem com ameaças mútuas, nem com armas”, disse o Papa Leão XIV no Angelus de 1 de março. Foto © Vatican Media
O secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, dizia numa entrevista publicada esta quarta-feira pelo L’Osservatore Romano que “o recurso à força deve ser considerado apenas como a última e gravíssima instância, após todos os instrumentos do diálogo político e diplomático terem sido utilizados”.
E deixava o aviso: “Se aos Estados fosse reconhecido o direito à ‘guerra preventiva’, segundo critérios particulares e sem um arcabouço jurídico supranacional, o mundo inteiro correria o risco de acabar em chamas”. Manifestamente preocupado com o que considera ser o “desaparecimento do direito internacional”, Parolin lamentou: “A justiça foi substituída pela força, a força do direito foi substituída pelo direito da força, com a crença de que a paz só pode nascer após a aniquilação do inimigo”.
Desenganem-se os que veem esta oposição ao ataque dos EUA e Israel ao Irão como apoio ao atual regime iraniano. Reconhecendo que “as aspirações dos povos devem ser levadas em consideração” e que as manifestações de rua massivas do povo iraniano nos últimos meses não podem ser esquecidas, Parolin levantou no entanto aquela que é a grande questão: “realmente acreditamos que a solução possa ser alcançada por meio do lançamento de mísseis e bombas”? Não é preciso recuar muitos anos às intervenções no Iraque e no Líbano, para perceber que as promessas de uma resolução rápida e de mudança de regime invariavelmente se transformaram em décadas de caos e sofrimento.
E não, os cristãos não podem acreditar nessa “solução”, porque, como também lembrou o cardeal secretário de Estado, “confiam no Deus feito Homem, que no Getsêmani ordenou a Pedro que guardasse a espada e que na Cruz experimentou em primeira pessoa o horror da violência cega e insensata”.
A teoria da guerra justa — desenvolvida por Agostinho de Hipona e refinada por Tomás de Aquino — exige que a guerra seja o último recurso, que proteja os inocentes e que a violência infligida não exceda a ameaça. Com o Concílio Vaticano II, houve um repensar desta teoria, e aquilo que diz o Catecismo da Igreja Católica é que já não se pode sequer falar de “guerra justa”, apenas apoiar a legitimidade de uma nação defender-se militarmente se for atacada. O Papa Francisco, na sua encíclica Fratelli Tutti, veio confirmar isto e foi ainda mais longe, afirmando que a mera posse de armas nucleares para dissuasão é já, por si própria, imoral.
Como se pode então justificar uma “guerra preventiva” que em menos de uma semana já fez mais de 1.200 mortos, entre eles 85 meninas em idade escolar?
Guerra essa que, como já veio alertar a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) “pode vir a ter consequências devastadoras” para as próprias comunidades cristãs no Médio Oriente, “empurrando-as para lá do ponto de sobrevivência”. É o caso da comunidade de Gaza, onde a situação humanitária continua catastrófica e qualquer perturbação adicional que possa ocorrer na entrega de ajuda humanitária poderá colocar em risco a sobrevivência da pequena paróquia católica que resiste na região e dos milhares de pessoas que dependem da sua assistência.
É também o caso da comunidade da Cisjordânia, onde muitas famílias cristãs esperavam finalmente um aumento no número de peregrinos e visitantes durante a época da Páscoa. Mas o regresso da instabilidade volta a ameaçar os seus meios de subsistência, pois o turismo continua a ser a principal fonte de rendimento.
Que Deus planearia tal coisa?
Leão XIV já previa que este fosse o rumo tomado pelos homens, apesar de não poder nunca ser o plano de Deus. Desde os primeiros meses de pontificado, a paz tem estado no centro da sua mensagem. Ele que, quando surgiu pela primeira vez à varanda basílica de São Pedro, pediu logo “uma paz desarmada e desarmante, humilde e perseverante”, uma paz que “vem de Deus”. E assegurou: “Deus ama-nos, Deus ama-nos a todos, e o mal não prevalecerá!”.
Já Donald Trump faz messianismo de conveniência, procurando criar uma ilusão perigosa: a de que a guerra não é uma escolha humana de quem tem sede de poder, mas um destino divino inevitável.
No caso do Irão, a religião torna-se uma faca de dois gumes. De um lado, vemos uma teocracia que usa o dogma como controlo; do outro, uma liderança externa que recorre ao messianismo político para justificar o injustificável.
É urgente questionar este sequestro da fé. Se as religiões defendem a paz, como podem ser o combustível da guerra? Como pode Deus estar presente nos discursos de ódio e nas estratégias de bombardeamento? O Bem não virá de quem se diz escolhido por forças divinas para destruir o outro, mas de quem tem a coragem humana de baixar as armas e deixar, finalmente, Deus e o mundo em paz.










