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Deixem o vice-almirante em paz!

| 15/09/2021

Só há uma coisa de que as pessoas gostam mais do que de fabricar heróis, é deitá-los por terra na primeira curva da estrada. Se Gouveia e Melo cair na asneira de entrar na política vai arrepender-se depressa.

Gouveia e Melo. Marinha. Vice-almirante

“Aprendi a trabalhar num sistema menos hierarquizado, em que o processo de negociação é a essência, o que, em geral, não acontece nos militares.” Foto: Vice-almirante Gouveia e Melo ao comando da fragata NRP Vasco da Gama (2008) © Joseluisbolina / Wikimedia Commons

 

Na terra em que se desdenha permanentemente e por sistema de todos os que se dedicam à actividade política, coexiste uma pulsão no sentido de querer alcandorar ao estatuto de herói todo aquele que se distingue por alguma acção pública considerada positiva. Desta vez calhou ao vice-almirante Henrique Gouveia e Melo, o coordenador da task force da vacinação nacional contra a covid-19, uma das maiores operações de emergência de sempre que se propunha vacinar massivamente a população portuguesa em tempo recorde.

O homem é militar com provas dadas, respeitado na Marinha pelos seus pares e subordinados e, desde que assumiu estas funções, revelou capacidade de planeamento, liderança e gestão de equipas, tendo cumprido a sua missão com todo o empenho e eficiência, tendo por isso sido reconhecido publicamente pelo Governo e condecorado pelo Presidente da República. Como bom profissional que é espera concluir a tarefa e regressar à Marinha, sete meses depois.

Mas vão-se ouvindo muitas vozes por aí que clamam pela sua entrada na política, apesar de o próprio já ter dito e repetido que não tem jeito para a política, não quer ser político e que o deixem continuar a carreira que escolheu nas forças armadas. E as vozes vão insistindo que não senhor, que tem que assumir as suas responsabilidades perante o país, blá, blá, blá. É tempo de dizer: deixem o homem em paz. Agradeçam-lhe e respeitem-no. Ponto.

Estes equivocados acham que o sucesso da operação se deve apenas ao simples facto de Gouveia e Melo ser militar. Nada mais errado. Foi por ser ele. Teve a capacidade de se adaptar à realidade e despir um pouco a farda de militar: “Aprendi a trabalhar num sistema menos hierarquizado, em que o processo de negociação é a essência, o que, em geral, não acontece nos militares. Aprendi a negociar até à exaustão porque essa negociação é a cola de toda a operação. Negociei e discuti ideias até haver quase consenso de grupo.”

O sucesso também não se deve a um homem providencial (lá está o sebastianismo à espreita!) mas a toda uma equipa. O estado-maior da task force juntou militares de elite como matemáticos, médicos, analistas e peritos em estratégia do Exército, da Força Aérea e da Marinha, a rondar os trinta elementos.

Os especialistas em liderança reconhecem-lhe as qualidades e a excelência do seu trabalho, a vocação, sentido de disciplina e grande controlo emocional, que há quem sugira ter origem nos anos em que “andou submerso em submarinos”. Esquecem uma coisa: é que, como bom militar, se limitou a cumprir a missão que lhe foi confiada.

Só há uma coisa de que as pessoas gostam mais do que de fabricar heróis, é deitá-los por terra na primeira curva da estrada. Se Gouveia e Melo cair na asneira de entrar na política vai arrepender-se depressa.

Há dois mil anos, o apóstolo Paulo viajava no mare nostrum quando sofreu naufrágio e foi dar à ilha de Malta. Os habitantes acolheram-nos na praia e o apóstolo foi procurar uns gravetos para fazer uma fogueira pois os náufragos estavam todos encharcados pelas águas e pela chuva. De repente uma cobra venenosa mordeu-o e os malteses começaram a dizer que Paulo seria criminoso: “certamente este homem é homicida, visto como, escapando do mar, a justiça não o deixa viver.” Mas Paulo sacudiu a víbora e não sofreu qualquer mal, para surpresa dos habitantes da ilha. “E eles esperavam que viesse a inchar ou a cair morto de repente; mas tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incómodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus” (Actos 28:6). Portanto, o apóstolo passou de “homicida” a “deus” num abrir e fechar de olhos. Este é um retrato eloquente da opinião pública e de como as massas são tão voláteis.

O país gosta de projectar expectativas elevadas sobre aqueles que saem da mediania; por isso querem transformar Gouveia e Melo em “herói”, mesmo contra a sua vontade, esquecendo a sua equipa, os profissionais de saúde que participaram neste esforço em todo o país, o apoio do Governo, da DGS e a postura da população.

Deixem o homem em paz. Cumpriu uma missão e fê-lo de forma brilhante pelo que foi condecorado em reconhecimento do bom trabalho realizado. Agora deixem-no seguir a sua carreira militar e, em vez de o querer atirar para a arena política, imitem-lhe o exemplo no vosso desempenho profissional.

 

José Brissos-Lino é director do mestrado em Ciência das Religiões na Universidade Lusófona, coordenador do Instituto de Cristianismo Contemporâneo e director da revista teológica Ad Aeternum; texto publicado também na página digital da revista Visão.

 

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