Jacques Delors

Uma vida política inspirada pela mensagem cristã

| 28 Dez 2023

Jacques Delors cumprimenta o papa Bento XVI, no collége des Bernardins, a 12 de setembro de 2008. Foto Vatican Media

Jacques Delors cumprimenta o Papa Bento XVI, em Paris, a 12 de setembro de 2008. Foto © Vatican Media

 

Ator e testemunha de um século vibrante e dramático, Jacques Delors faleceu esta quarta-feira, 27 de dezembro, no seu apartamento parisiense, com a idade de 98 anos, depois de uma vida intensa, marcada pela construção europeia e pela dimensão social e inspirada pela sua fé cristã.

A sua projeção no relançamento da Comunidade Europeia, no seu alargamento e consolidação foi de tal forma marcante que, além de ser conhecido pelo “Sr. Europa”, passa, para muitos, como tendo sido um dos fundadores do projeto europeu.

Nos dez anos em que foi presidente da Comissão Europeia, entre 1985 e 1995, os seus três mandatos ficaram para sempre associados a iniciativas e acontecimentos que possibilitaram a transformação do espaço europeu de uma comunidade económica em uma União (nem sempre muito unida). Nesse período, assistiu-se à queda do Muro de Berlim, à derrocada do regime soviético, à reunificação da Alemanha, à guerra nos Balcãs, entre outros relevantes acontecimentos de particular incidência nas políticas europeias.

Jacques Delors nasceu em Paris, em 1925, filho único de uma família pequeno-burguesa com raízes na província, que vivia do seu trabalho. Enquanto criança pôde brincar e conviver com companheiros de escola oriundos de famílias de trabalhadores, podendo, ao mesmo tempo, em período de férias, contactar com a vida rural.

A fé cristã, que foi, no dizer de Isabelle de Gaulmyn, editorialista do jornal La Croix, “o fio vermelho” de toda a sua vida, veio-lhe sobretudo pelo lado da mãe. Entrou na Ação Católica ainda adolescente, na altura em que se desencadeava a Segunda Guerra Mundial, filiando-se da Juventude Operária Católica (JOC), uma ligação que, como refere nas suas Mémoires (Ed. Plon, 2004), permaneceu ao longo de toda a vida.

Tanto esta militância, como a que, com a esposa, viveram na direção do movimento Vie Nouvelle (Vida Nova), nascido do escutismo católico, decorreram sob a inspiração do personalismo cristão de Jacques Maritain e Emmanuel Mounier. Assente nas dimensões pessoal, religiosa e cívica, a formação e ação comunitária valorizavam a intervenção na vida da Igreja, o ecumenismo e a vivência da pobreza evangélica, o que lhes chegou a trazer tensões com os responsáveis eclesiásticos.

Quando, no final da guerra, Delors se defrontou com a necessidade de escolher caminhos, em termos de formação académica, a tendência (e, de novo) a influência materna empurravam-no para o jornalismo ou o cinema, mas acabou por prevalecer o pragmatismo paterno, que o conduziu a fazer uma formação e, depois, a encontrar emprego duradouro no Banco de França. Ainda assim, nota-se, na análise do seu percurso quando jovem, uma inquietação que o levou a não se conformar com a vida profissional e a buscar formações complementares, nos campos cívico-político e artístico.

A dimensão dos valores – da verdade, da frontalidade, da exigência, da solidariedade – acompanharam-no, mais tarde, no seu percurso político, tornando-se uma figura marcante pela visão e pelo testemunho. No entanto, como sublinhou, em 2022, Michal Matlak, conselheiro junto do Parlamento Europeu, num artigo publicado na revista Esprit, Jacques Delors será “talvez a figura mais paradoxal da história da integração europeia: um católico que defende a laicidade, um homem de esquerda que acompanhou o período da integração europeia mais orientado para o mercado livre, um membro do Partido Socialista que estava mais próximo da ideologia da democracia cristã do que a maioria dos democratas-cristãos”.

Desde o momento em que assumiu as funções de presidente da Comissão Europeia, Delors quis contactar as principais religiões presentes na Europa e promover um encontro entre os dirigentes de todas elas. Pela descrição que faz das dificuldades enfrentadas, isso não foi tarefa fácil e esse encontro só viria a concretizar-se poucos dias antes de terminar o terceiro mandato.

A sua perspetiva sobre o lugar da dimensão religiosa no projeto europeu não passava tanto por afirmar explicitamente ou oficialmente a identidade e as raízes cristãs da Europa, como pretendia, por exemplo, o Papa João Paulo II, mas antes pelo diálogo entre a Comissão e as diferentes igrejas, em torno de matérias para ele mais importantes, como sejam a luta contra a pobreza, o combate ao desemprego, as migrações ou o alargamento das comunidades europeias (note-se que Delors era um defensor da candidatura da Turquia).

João Paulo II no Conselho da Europa, em Estrasburgo, a 8 de outubro de 1988. Foto Vatican Media

João Paulo II no Conselho da Europa, em Estrasburgo, a 8 de outubro de 1988. Foto © Vatican Media

 

Na leitura de Malak, “os personalistas dos anos 40 e 50 não viam a necessidade de fazer do cristianismo uma ‘marca de identidade’, uma vez que o imaginário europeu era ainda em larga medida cristão. O facto de personalistas como Delors ou van Rompuy não considerarem o cristianismo como traço distintivo do projeto europeu reveste um significado diferente, numa Europa em boa medida pós-cristã”.

Para o antigo presidente da Comissão Europeia, mais do que uma “identidade oficial” de cunho cristão, importaria aprofundar valores de marca cristã que podem ser partilhados por outras confissões e até por não crentes. Por outro lado, o quadro de uma “Europa do Mercado Único” deveria ser equilibrado por uma “Europa Social”.

Que tenha conseguido dar passos significativos nessa direção é matéria que suscita reservas, apesar das iniciativas que tomou no sentido de “dar uma alma à Europa”, na qual as religiões deveriam ter o seu papel.

“Acreditem, afirmou Delors aos líderes religiosos em 1989, a Europa não será bem sucedida apenas com base em competências jurídicas ou económicas. […] Se, nos próximos dez anos, não tivermos conseguido dar uma alma à Europa, dar-lhe espiritualidade e sentido, a sorte estará lançada. É por isso que quero relançar o debate intelectual e espiritual sobre a Europa. Convido as Igrejas a desempenharem um papel ativo neste processo”.

Parece não haver dúvidas de que a ação desta incontornável figura europeia do século XX tenha sido inspirada e pautada pela fé cristã, ainda que Delors fosse mais adepto de pôr em prática as suas convicções do que de elaborar sobre os seus fundamentos. No dizer da articulista de La Croix, ele “faz parte de toda uma geração que, a partir da ação católica, por um lado, e do militantismo sindical, do outro, deu ao cristianismo de esquerda as suas cartas de nobreza”.

 

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