Demissão das mulheres de “Donne Chiesa Mondo” provoca perplexidades e ameaça ideia de reforma

| 29 Mar 19

(Ilustração de abertura © Sara Naves)

Um espelho das lutas pelo poder no Vaticano? Mais um sinal de que a oposição interna ao Papa Francisco não o larga? Manifestações de idiossincrasias pessoais e incompatíveis? Um empurrão a alguém que os seus detractores dizem não ser pró-Francisco? Um sinal de que o Papa está a perder a batalha da reforma? Tudo isso e ainda outros factores escondidos? A demissão de Lucetta Scaraffia e da equipa editorial da revista Donne Chiesa Mondo (“Mulheres Igreja Mundo”) provoca várias perplexidades e pode não estar ainda completamente clarificada em todos os seus contornos.

 

Só a decisão sobre a continuidade da publicação de Donne Chiesa Mondo (DCM) e a constituição da equipa que substituirá as redactoras que agora saíram permitirão retirar conclusões mais acertadas sobre o caso que esta semana abalou a Santa Sé. É mesmo de prever que, no próximo domingo, ao regressar a Roma da viagem a Marrocos, o Papa seja confrontado com o tema e ajude a esclarecer mais algum pormenor.

Há sete anos (ainda com o Papa Bento XVI) que Donne Chiesa Mondo (DCM) agitava as águas do Vaticano e do jornal oficial, L’Osservatore Romano (L’OR), com o qual era publicada na primeira quinta-feira de cada mês. A historiadora, que dirigia a revista, era amiga pessoal e colega na Universidade do então director do L’OR, Giovanni Maria Vian,e o Papa Bento XVI aceitou a ideia da edição desta revista feminina.

Desde o início, a nova publicação destacou-se como uma pedrada no charco da “neutralidade” cinzenta com que muitas publicações católicas são escritas e produzidas. Como dizia a ex-directora na carta de demissão que dirigiu ao Papa, ali se tratavam questões como a ciência, a política ou o papel das mulheres na sociedade. Também houve textos sobre o contributo de mulheres para a teologia – Hildegarda de Bingen, Teresa d’Ávila, Juliana de Norwich ou Edith Stein, por exemplo; acerca do papel feminino no anúncio cristão ou nas acções de pacificação no mundo; sobre as pensadoras religiosas muçulmanas que a tradição islâmica esqueceu; ou textos deinterpretação bíblica, que deram origem a três livros acerca do papel das mulheres referidas no Antigo Testamento, nos Evangelhos e nas cartas de São Paulo.

Apesar de tudo isso, foi quando tocou em questões de poder que DCM terá agitado demais algumas águas inquinadas: a revista publicou vários artigos sobre a exploração sexual de freiras por membros do clero e acerca do trabalho não remunerado de muitas religiosas em estruturas eclesiásticas ou como funcionárias de padres e bispos.

“Nestes sete anos, o nosso objetivo foi dar voz às mulheres que, como Igreja, trabalham na Igreja e pela Igreja, abrindo-se ao diálogo com mulheres de outras religiões”, escrevia Lucetta Scaraffia na carta que escreveu ao Papa anunciando que ela e a sua equipa tinham decidido “atirar a toalha ao chão”. Apesar disso, a ex-editora do suplemento do L’OR destaca que a equipa trabalhou “no coração do Vaticano e da comunicação da Santa Sé, com inteligência e coração livres, graças ao consentimento e apoio de dois papas”.

 

“Clima de desconfiança”

Lucetta Scaraffia

 

Agora, no entanto, as mulheres de DCM sentiram-se “cercadas por um clima de desconfiança e deslegitimação progressiva”, escrevia ainda na carta dirigida ao Papa, queixando-se do actual director do L’OR, Andrea Monda. Este, no cargo desde Dezembro, não apoiou a linha do suplemento, queixa-se Scaraffia, e lançou iniciativas que pareciam competir com o suplemento, para “colocar as mulheres umas contra as outras”.

Monda reagiu negando as acusações e afirmando que garantiu ao DCM a mesma “autonomia e liberdade” que caracterizaram a publicação desde o início, recusando interferir na sua linha editorial e limitando-se a sugerir temas e pessoas para os abordar. O director do L’OR afirma ainda que manteve o orçamento, que incluía a tradução para as diferentes edições estrangeiras: em espanhol, com a revista Vida Nueva; em francês, com La Vie; e em inglês, numa versão digital. E acrescenta que procurou sempre uma linha de abertura e debate, na linha do magistério do Papa Francisco: “Posso assegurar que o futuro do suplemento mensal do L’Osservatore Romano nunca esteve em discussão; e por isso, que a sua história continuará ininterrupta. Sem clericalismo de qualquer espécie”, conclui.

Numa análise publicada no Il Fatto Quotidiano e traduzida no Brasil pela Unisinos, o jornalista Marco Politi chama a atenção para o facto de episódios como este poderem ajudar a espalhar a ideia de que as reformas preconizadas pelo Papa não avançam. “Não há razão para acreditar que o novo diretor, Andrea Monda, queira retroceder em relação à linha do Papa Francisco sobre a promoção do papel feminino na Igreja. Mas é preciso ficar com os ouvidos abertos” quando a historiadora diz o que disse ao Papa. Sente-se a reacção “da Cúria profunda, que nunca tolerou a independência do caderno feminino e entrou em alerta quando, no DCM apareceu a denúncia aberta dos abusos de poder cometidos na Igreja contra as mulheres”, escreve.

 O analista do Vaticano acrescenta: “Scaraffia, que sempre foi uma moderada, enfatizou fortemente nos últimos meses que as mulheres na Igreja não importam e não são ouvidas. E muitíssimas católicas – até mesmo teólogas de orientações diferentes da sua ou fiéis comprometidas em atividades eclesiais – pensam como ela. O ano de 2019 realmente não começou nada bem.”

 

Uma “reaccionária” na bioética

É precisamente sobre a “moderação” de Scaraffia que surgiram outros contornos na história: várias fontes romanas contactadas pelo 7MARGENS apontam a Scaraffia uma linha moral conservadora. Recentemente, no DCM, a historiadora publicou um texto defendendo a encíclica Humanae Vitae, de Paulo VI, que marcou a ruptura silenciosa de muitos católicos com a instituição. E por várias vezes Scaraffia afirmava a sua oposição ao sacerdócio das mulheres, como fez de novo, já depois da demissão, em entrevista ao Corriere della Sera.

Um investigador católico italiano é muito crítico para com Scaraffia. Num depoimento enviado ao 7MARGENS, ele recorda que a historiadora era uma das mais fortes apoiantes de posições católicas intransigentes, por vezes mesmo “reacionárias”, no campo da bioética, além de ser crítica da “revolução sexual” da década de 1960 e do feminismo.

Há outros pormenores: várias fontes asseguram também que o actual director do L’OR é próximo do padre jesuíta Antonio Spadaro, que tem sido um conselheiro do Papa na área da comunicação. Mas, apesar de Spadaro, esta área tem estado sujeita a convulsões várias, com demissões e mudanças sucessivas na Sala Stampa, na Rádio Vaticana e no Conselho Pontifício da área, sem se perceber porque não acertam os responsáveis do Vaticano (e o Papa) nas nomeações feitas.

Em Portugal, a irmã Luísa Almendra, das Religiosas do Sagrado Coração de Maria, tomou conhecimento da demissão “com surpresa e tristeza”. Professora de Sagrada Escritura na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, Luísa Almendra escreveu um texto para o DCM em Março de 2017, num convite feito por uma das pessoas da redacção. “Foi então que tomei conhecimento deste suplemento e passei a ler sempre com muito interesse a publicação mensal”, diz ao 7MARGENS. A revista “oferecia-nos um rosto feminino, que percorria diversos âmbitos: social, bíblico, eclesial, histórico… e demarcava-se pela oportunidade e diversidade temática, e ainda pela colaboração que solicitava a mulheres de Igreja oriundas de diversas partes do mundo”, acrescenta. Agora, a religiosa portuguesa espera que a publicação continue, sem perder a riqueza de perspetiva que ofereceu até ao momento. 

Na próxima quinta-feira, 4 de Abril, estará na rua o número 78 de Donne Chiesa Mondo, o último dos dirigidos por Lucetta Scaraffia. O futuro?…

Artigos relacionados

Apoie o 7 Margens

Breves

Cardeal Tagle propõe eliminar a dívida dos países pobres novidade

O cardeal filipino Luis Antonio Tagle, prefeito da Congregação para a Evangelização dos Povos, propôs a criação de um Jubileu especial em que os países ricos perdoem a dívida dos países pobres aos quais concederam empréstimos, de forma a que estes tenham condições para combater a pandemia de covid-19.

Oxfam pede “um Plano Marshall de Saúde” para o mundo novidade

A Oxfam, ONG de luta contra a pobreza sediada no Quénia e presente em mais de 90 países, pediu esta segunda-feira, 30, “um plano de emergência para a saúde pública” com a mobilização de 160 biliões de dólares. Este valor permitiria duplicar os gastos com a saúde nos 85 países mais pobres, onde vive quase metade da população mundial.

Peter Stilwell deixa reitoria da única universidade católica da R.P. China

O padre português Peter Stilwell será substituído pelo diácono Stephen Morgan, do País de Gales, no cargo de reitor da Universidade de São José, em Macau.  A mudança, que já estava a ser equacionada há algum tempo, está prevista para julho, depois de um mandato de oito anos naquela que é a única universidade católica em toda a República Popular da China.

Governo português decreta que imigrantes passam a estar em situação regular

O Governo português decretou que, a partir de 18 de Março (dia da declaração do Estado de Emergência Nacional), todos os imigrantes e requerentes de asilo que tivessem pedidos de autorização de residência pendentes no Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) passam a estar em situação regular, com os mesmos direitos que todos os outros cidadãos, incluindo nos apoios sociais.

Inscreva-se aqui
e receba as nossas notícias

Boas notícias

É notícia

Entre margens

As circunstâncias fazem os grandes líderes. Cá estão elas.

Faço parte de uma geração que reclama grandes líderes. Não tenho muitas dúvidas que esta reclamação é de quem vive num certo conforto. Não tive um Churchill porque não passei por uma grande guerra. Não tive um Schuman porque não era vivo quando a Europa esteve em cacos. Não tive um Sá Carneiro, Freitas do Amaral ou Mário Soares porque não era vivo quando Portugal ainda só sonhava com uma Democracia plena e funcional.

Cultura e artes

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Júlio Martín, actor e encenador: O Teatro permite “calçar os sapatos do outro”

O actor e encenador Júlio Martín diz que o teatro permite fazer a experiência de “calçar os sapatos do outro”, mantém uma conversa em aberto e, tal como a religião, “faz religar e reler”. E permite ainda fazer a “experiência de calçar os sapatos do outro, como os americanos dizem; sair de mim e estar no lugar do outro, na vida do outro, como ele pensa ou sente”, afirma, em entrevista à agência Ecclesia.

Uma tragédia americana

No dia 27 de Julho de 1996, quando decorriam os Jogos Olímpicos, em Atlanta, durante um concerto musical, um segurança de serviço – Richard Jewel – tem a intuição de que uma mochila abandonada debaixo de um banco é uma bomba. Não é fácil convencer os polícias da sua intuição, mas ele é tão insistente que acaba por conseguir.

Sete Partidas

Um refúgio na partida

De um lado vem aquela voz que nos fala da partida como descoberta. Um convite ao enamoramento pelo que não conhecemos. Pelo diferente. Um apelo aos sentidos. Alerta constante. Um banquete abundante em novidade. O nervoso miudinho por detrás do sorriso feliz. Genuinamente feliz. O prazer simples de não saber, de não conhecer…

Visto e Ouvido

Aquele que habita os céus sorri

Agenda

Parceiros

Fale connosco