Saborear os clássicos (IX)

“Demónios”, de Dostoiévski: Polifonia de vozes e caracteres

| 17 Jun 2022

“As raízes da cultura estão naquelas obras chamadas clássicas, obras cuja mensagem se não esgotou e permanecem fontes vivas do progresso humano.”
Fiódor Dostoiévski, Demónios,
Editorial Presença 

“O verdadeiro profeta do século XIX foi Dostoiévski, não Karl Marx.”
(Albert Camus)

 

Dostoiévski pintado por Vasily Perov em 1872

Dostoiévski pintado por Vasily Perov em 1872.

Comemoraram-se em 2021 os duzentos anos do nascimento de Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Segundo James Joyce, ele criou, mais do que qualquer outro, a prosa moderna; Nietzsche considera-o “o único psicólogo… do qual tive algo a aprender”. Na escrita de Dostoiévski, denominada “polifónica ou dialógica” [1], as personagens entram em contínuo diálogo, confrontando ideias, opiniões e por esse motivo parece estarmos perante um texto dramático.

Demónios, uma das suas grandes obras-primas, talvez menos conhecida, revela grande actualidade nos séculos XX e XXI. O objectivo da obra é a crítica às ideologias que pretendem ultrapassar a condição humana, encontrando-se aí as raízes do terrorismo, das ditaduras.

No caso desta obra, dever-se-á ter em consideração dois factores: o contexto da época na Rússia – houve um certo aligeiramento da repressão; os servos foram libertados, iniciando-se esse processo com um discurso do czar Nicolau I em 1847; a vida do escritor, em especial a sua actividade revolucionária e condenação.

 

Prisão, execução simulada e trabalhos forçados

Frequentando os meios intelectuais de São Petersburgo, Dostoiévsky adere naturalmente a um Grupo de amigos reunindo-se em casa de Biéketov, considerado “a personificação da bondade e da rectidão” [2]. Os dois irmãos Biéketov eram seguidores de Fourier, teórico do comunismo utópico. O autor tornou-se amigo de Pleschéiev, conhecido poeta e frequentador do grupo, pois ambos propunham uma imagem de um Cristo socialista utópico, contra a opressão e a injustiça.

O grupo dispersou-se e, em 1847, Dostoiévsky passa então a ir às reuniões do Círculo de Petrachévski, bastante diferente do grupo anterior. “Pelas bebidas grátis… Quem de nós, mortais, não gosta de brincar ao liberalismo?” [2] – justificava assim, ironicamente, o autor, a sua presença naquele Círculo. Petrachévski era um jovem de 26 anos, “nobre, insubmisso e opositor da autoridade” [2]. A sua grande biblioteca com muitos livros “proibidos” era uma grande atracção para os intelectuais de São Petersburgo. Os intelectuais deste Círculo reuniam-se para trocar ideias que vinham nas revistas literárias, conversar; era também uma reunião social. Mas Dostoiévski não gostava da personalidade de Petrachévski devido “ao seu ateísmo hegeliano de esquerda, falando da religião com sarcasmo frio e hostil” [2]. Entretanto, surgem notícias de uma Europa em ebulição, em 1848, pondo em causa monarquias absolutistas, vendo-se o desfraldar de bandeiras revolucionárias, democráticas e liberais.

Estes acontecimentos causaram o pânico nos dirigentes russos e o Círculo de Petrachévski começou a ser investigado pela polícia secreta; em 1849, os seus membros foram presos. Uma pessoa que se destacava pela sua origem de classe – nobre, rico, grande estudioso das ideias socialistas em voga, em Paris, garboso, bonito (todas as mulheres ficavam encantadas com ele) – era Spiéchniev, que defendia a tomada do poder pela violência, tendo organizado um grupo secreto dentro do Círculo. Há uma personagem em Demónios, Nikolai Stavróguin, que tem características semelhantes com ele ou com o anarquista russo Bakúnin, que o autor conheceu no estrangeiro: “O anarquista apelava à nova geração que promovesse ‘aquele fervor ferozmente destrutivo e friamente apaixonado que congela a mente e obstrui o sangue nas veias dos nossos adversários’” [2]

 

Estar com Cristo ou um punhado de pó
Execução simulada-ilustração de B. Pokrovsky

Execução simulada. Ilustração de B. Pokrovsky.

 

No seu depoimento na prisão, Dostoiévski diz que lera livros sobre o socialismo “porque foram escritos de forma inteligente, com fervor… com amor genuíno e eu tenho curiosidade… mas não sou adepto de nenhum desses sistemas sociais” [2]. Para ele, o mais importante era a situação do povo russo, em particular a servidão dos camponeses. Em 1849, após o processo judicial relativo aos membros do Círculo, Dostoévski e outros – mais de metade – foram condenados à morte. No preciso momento que antecede a execução, exclamou Dostoiévski ao companheiro mais próximo:

“Estaremos com Cristo”. Mas Spiéchniev respondeu-lhe “com um sorriso torto”: “um punhado de pó” [2].

Feito todo “o cerimonial” desta farsa macabra, veio no momento crucial o perdão do czar e as sentenças verdadeiras: para o escritor, desterro na Sibéria em trabalhos forçados durante quatro anos (1850-54).

Após esta experiência na prisão e de quase morte e as condições duras no desterro, a sua escrita transformou-se numa profunda análise da psique humana. Manuseia as personagens, como títeres, descrevendo com minúcia e sub-repticiamente diversas personalidades, fazendo e desfazendo laços, numa constante tragicomédia que se vai tornando num crescendo trágico. Tocando o mais baixo do ser humano, mas também a possibilidade de redenção, na figura e no rosto de Cristo.

 

“Demónios”
Demónios-capa de uma das edições da obra em Portugal

“Demónios”, capa de uma das edições da obra em Portugal.

A acção passa-se nos meados do século XIX, numa cidade provinciana. Sobressaem algumas personagens da sociedade – Várvara Petrovna, viúva, ricaça que protege, mas exercendo apertado controle sobre Stepan Trofímovitch Verkhovenski: um intelectual vaidoso da sua sabedoria, medroso, tendo a mania da perseguição política, mas no fundo de extrema bondade [3] [em itálico, citações de Demónios].

O Grupo era uma tagarelice intelectual tipicamente russa… uma oportunidade de beber champagne.

Frequentava o grupo, por exemplo, Lipútin: liberal, funcionário público, com fama de ateu. Mexeriqueiro notório [3]. Chátov: o pai tinha sido servo de Várvara e esta não lhe perdoava o seu orgulho; Chátov fora estudante, estivera casado no estrangeiro, mas a mulher de livre pensamento – feminista seria a palavra certa nos tempos de hoje – deixara-o. Ele regressara à sua terra, deixou de ser socialista, vivia sozinho, trabalhava no que arranjava. Era uma daquelas criaturas russas idealistas, comenta o narrador. Stepan Verkhovênski emprestava-lhe revistas e Chátov aparecia nas reuniões do grupo. Havia também Virguínski, possuía um coração de rara pureza. Lebiádkin: forasteiro, falso capitão, sabia apenas torcer o bigode, beber e dizer os piores disparates. Oportunista, sobretudo. Tempos depois, regressou com a irmã, mas essa é já outra história.

Proclamava Stepan Verkhovênski: tenho fé em Deus, mas distingamos, tenho fé numa criatura cuja consciência de si existe apenas em mim. Não sou cristão, sou antes um pagão antigo como o grande Goethe. Neste passo, Chátov, abespinhado, intervinha e dizia-lhe que esses intelectuais nunca conheceram o povo, nunca sofreram com ele. Citava nomes de escritores e intelectuais e a disputa aquecia: todos aqueles que vão deixando de compreender o povo, perdem a ligação com ele e vão perdendo a fé dos seus pais ou tornam-se ateus ou indiferentes. Mas Stepan, depois de ouvir o seu “adversário”, fazia as pazes com Chátov.

É este o retrato da geração dos liberais-idealistas. Mas a geração que se seguiu, de 1870, é a que o autor pretende verdadeiramente representar. A primeira geração referida não soube educar os filhos, saídos de famílias pouco estruturadas. O filho de Stepan Verkhovênski, Piotr Stepanóvich  Verkhovênski, fora abandonado pela mãe, a primeira mulher de Stepan: A criança fora entregue a umas longínquas tias da província, às sopas de Várvara Petrovna Stavróguina. O pai só vira o filho duas vezes na sua vida.

 

O príncipe Harry

Por sua vez, Stepan tomara o cargo de pedagogo do filho único de Várvara Petrovna: Nikolai Vsevolodich Stavróguin, chamado de príncipe Harry [4], que vivia só com a mãe, visto que o seu leviano pai deixara a mulher. Depois, Várvara enviuvara.

O tutor e pedagogo Stepan era incongruente no seu papel: acordava a criança de 10 anos, de noite, contava-lhe os seus problemas, um segredo da família e depois abraçavam-se os dois a chorar. Por sua vez, a mãe, Várvara, era fria com a criança, embora gostasse muito do filho. Dava-lhe demasiada liberdade. Recebeu uma educação que o modelou de um modo nefasto.

Acabado o curso, Nikolai Stavróguin não fazia nada, levava uma vida de jovem rico em São Petersburgo – não fazia nada; a mãe enviava-lhe avultadas somas de dinheiro e ele frequentava os salões da alta nobreza. Raramente escrevia à mãe e não aparecia na casa materna. Espadachim, fazia quase ao mesmo tempo dois duelos; por fim, Várvara soube que o filho se metia em pândegas com a escumalha sampetersburgueses. Mas ela tinha medo dele, não o repreendia. Nesses tempos com a escumalha, depois de uma noite de grande bebedeira, fez uma aposta com o falso capitão Lebdiákin e casou com a irmã dele, secretamente. Nikolai dar-lhe-ia um rendimento mensal que Lebdiákin gastava em bebedeiras. A rapariga, Mária Timoféevna, coxa, apaixonara-se por Nikolai, era “o seu príncipe”. É uma personagem marcada pela inocência, uma sonhadora, ingénua, intuitiva, com uma grave doença nervosa.

Nikolai apareceu finalmente na cidade e era muito bem recebido no clube e na sociedade: educado, elegante, era um jovem muito bem parecido… confesso que me impressionou, comenta o narrador, ironicamente. As mulheres, novas e velhas, adoravam-no. Dizia-se que vinha para a cidade, a mando do conde K, para uma missão secreta…  No entanto, notavam-se nele, por vezes, atitudes despropositadas. Um exemplo: arrastou um idóneo senhor do clube, pelos beiços, dando dois passos, assim, pela sala, porque ele repetia frequentemente: A mim ninguém me leva pelos beiços.

Os médicos disseram: O doente tinha uma espécie de delírio e embora continuasse a estar consciente, ficava privado da razão e da vontade. A mãe, Várvara, não o dominava, nunca o repreendera, era submissa e resignada em relação ao filho. Depois de muitas desculpas destes acontecimentos, Nikolai fez uma longa viagem pela Itália.

Em Paris, conheceu uma rapariga da alta sociedade russa Lisaveta ou Lisa Nikoláevna, que o amou até à loucura. Mas algo parecia não ter corrido bem. Lisaveta era uma personalidade invulgar: inquieta, nervosa… havia na sua natureza muitas aspirações maravilhosas e os desejos mais justos; mas era como se tudo nela andasse eternamente à procura da sua medida, sem a encontrar, como se tudo fosse caótico, emocionado. Talvez tivesse exigências demasiado rigorosas para consigo mesma e não conseguisse encontrar forças interiores para atingir os seus fins. Era uma herdeira riquíssima; a mãe dela, viúva, possuía uma casa na nossa cidade e pensava instalar-se lá para sempre. Neste passo, afirma o narrador que se limita a apresentar os acontecimentos tal como se vão sucedendo, de forma exacta, e não tenho culpa se parecerem inverosímeis.

Piotr Stepánovitch Verkhovênski: A última vez que vira o pai, Stepan, fora há cerca de dez anos, em São Petersburgo, como estudante universitário. Agora, vinha ter com o pai para tomar posse de uma propriedade que, entretanto, o pai arruinara no jogo. Stepan sabia que ele vagueara por San Petersburgo; depois fora para Genebra, na Suíça, para se evadir de uma proclamação ilegal – o que surpreendera muito o pai que comentou com o narrador:

Meu Deus! o Petrucha propagandista! Que tempos nós vivemos… Porque será, continuava Stepan, confidenciando com o narrador, que todos estes socialistas e comunistas convictos são… uns forretas e uns proprietários incríveis… quanto mais socialistas, mais paixão têm pela propriedade… As cartas – raríssimas, mas agora mais numerosas por causa da propriedade – que o filho escrevia ao pai, agora tratando-o por tu, pareciam ao narrador as disposições que antigamente os senhores mandavam das capitais aos seus servos caseiros encarregados da gestão das propriedades.

Muitas personagens se sucedem no livro, cruzam-se, dialogam entre si, discutem com calor, mostram-se e disfarçam-se perante o leitor, de tal modo são complexas as suas personalidades. O narrador acompanha os nossos, é o confidente de Stepan e aconselha-o. A obra é uma espécie de tragicomédia, quase aberrante, mas real, objectiva que perfura o íntimo das personalidades até à medula. Aconteceu na nossa cidade, como repete o narrador, no nosso grupo.

 

Mexericos

Têm um papel muito importante ao longo da acção. Através deles, intensifica-se o clima de mordacidade, vingança, poder, insensatez, perjúrio, loucura, assassinatos, suicídios.

Lipútin, o mexeriqueiro, leva e traz de uns e de outros. Fala do regresso de Lebdiákin que saíra da cidade por falsificar notas e vem agora acompanhado com a irmã, Mária Timoféevna: a mana – explica Lipútin – tem uns ataques quaisquer, guincha e ele mete-a na ordem com um azorrague… além de maluca, é coxa. Foi desonrada por um sedutor que cobra a Lebdiákin uma avultada quantia todos os anos… mas a meu ver estava bêbado, porque estas coisas saem sempre muito mais baratas. Mas que ele tem dinheirinho, lá isso tem… vi-lhe centenas de rublos nas unhas. Quando Lebdiákin está bêbado – o que acontece vulgarmente – proclama bem alto pela cidade a sua desgraça: a honra perdida de uma menina, o seu autor e outras coisas mais, para gáudio dos que o ouvem.

O “homem de acção”, o charlatão Piotr, submisso a Nikolai: Piotr é mentiroso, trapaceiro, bajulador, vingativo, assassino. É submisso ao poderoso Nikolai que regressou a casa da mãe. Piotr vai-o informando. Dá-lhe o primeiro lugar no Grupo que orienta porque sabe que ele tem poder e dinheiro. Nikolai é considerado no Grupo como uma personagem misteriosa, importantíssima, proveniente dos círculos secretos estrangeiros. Piotr rodopia à volta dele, informa Nikolai Stavróguin de um tal Fedka Grilheta, foragido do desterro que poderá servir-lhes para os seus terríveis desígnios políticos; convida-o para ir à reunião do Grupo em que Piotr faz de dirigente, grande agitador político, a fim de criar respeito e poder sobre o Grupo, embora os despreze a todos. Comenta com Nikolai que está a fazer um bom trabalho com eles: anunciara-lhes que há milhares de grupos espalhados por toda a Rússia e incita-os à violência, às acções rápidas, para alterar o mais depressa o sistema… o mais importante, o cimento que liga tudo, comenta Piotr, é a vergonha de ter uma opinião pessoal. É uma força maravilhosa! Nikolai Stavróguin responde-lhe que está certo, mas há algo que os une mais: – instigue quatro membros de uma célula a que matem o quinto, sob o pretexto de que ele pode delatar; pois bem, com o sangue derramado ata-os a todos como num molho. Ficarão seus escravos

Assim, na última parte da obra, Piotr acusa Chátov de ser um agente provocador e pressiona o grupo a assassiná-lo, o que vai acontecer. Nikolai Stavróguin não abre o jogo: é frio, não insulta ninguém. É mais perigoso do que Piotr, mas aproveita-se dele. Uma serpente, assim é chamado pelo narrador.

A única personagem que faz tremer a consciência de Nikolai é Chátov; informou-o secretamente que poderá ser vítima de um assassinato, facto que Chátov não leva a sério. Trocam confidências e Chátov, no fim da entrevista diz-lhe: Também não sei porque o mal é abominável e o bem é belo, mas sei que essa diferença se apaga e se perde para senhores como os Stavróguin… casou-se de um modo tão ignóbil… [referência ao casamento com Mária, fruto de uma bebedeira] porque a vergonha e o absurdo atingiam a genialidade. O senhor não está à beira do abismo, o senhor precipita-se nele de cabeça. Casou-se por ter a paixão de martirizar, a paixão dos remorsos, por causa da volúpia moral. [Nikolai Stavróguin empalidecia cada vez mais…] – beije a terra, [continua Chátov] molhe-a de lágrimas, peça perdão!… Oiça, ganhe Deus com o trabalho! Qual trabalho? – O de mujique. Vá lá, largue as suas riquezas… Stavróguin ficou pensativo. Então Chátov recomendou-lhe que fosse “ter com Tíkhon”.

 

O incêndio, os assassinatos, o caos
Monumento a Dostoiévski em Homburg foto karsten ratzke

Monumento a Dostoiévski em Homburg (Alemanha). Foto © Karsten Ratzke.

O caos intensifica-se e há um incêndio perpetrado pelo grupo, instigado pelos dirigentes. Morrem queimados e degolados Lebdiákin e a irmã – obra do desgraçado Fedka Grilheta, pago por Nikolai Stavróguin, anteriormente, num cenário dantesco: Rouba e mata, grita-lhe Nikolai, lançando notas ao ar, enquanto o antigo presidiário se esforça por apanhá-las.

Piotr dá a notícia das mortes de Lebdiákin e Mária Timoféevna a Nikolai, que está com Lisa, e esta interroga o antigo amante se foi ele que deu a ordem fatal. Este confessa que não os matou. – Mas sabia que eles seriam mortos e nada fiz para travar os assassinos. Lisa então corre como louca para junto dos cadáveres e do resto do incêndio, onde se aglomera uma multidão que olha espavorida para aquela visão macabra. O povo reconhece-a: – É ela, a do Stavróguin! A este grito, matam-na à pancada, os populares, incógnitos, ali reunidos.

A narrativa é tão intricada de pormenores que este comentário, já longo, é uma pálida ideia da obra. Para concluir, é importante referir o capítulo “Com Tíkhon”, importantíssimo, que foi excluído do texto do romance por insistência dos editores da revista em que Demónios foi publicado, entre 1871-72. Nikolai vai ao mosteiro Bogoródski, no extremo da cidade. Chátov aconselhara-o a falar com o arquimandrita. O prelado conhecia-o, visto a mãe visitar o monge com frequência e ser provavelmente benfeitora do convento. Após uma introdução, Nikolai confessa que tem alucinações e que às vezes via junto de si uma criatura maldosa, irónica e “inteligente”, com várias fisionomias, mas sempre a mesma e eu enraiveço-me sempre… interroga Tíkhon sobre o Diabo e este diz que acredita na sua existência.

O prelado fixou-o e disse-lhe que ele, Nikolai, não quereria ser apenas “morno” e que viera ali pois se apoderara dele uma intenção extraordinária, talvez terrível e que adivinhara pela cara do seu interlocutor. Então, muito nervoso, Nikolai apresenta-lhe umas folhas impressas intituladas “De Stavróguin”. Descreve a sua vida minuciosamente em S. Petersburgo, entregando-se à depravação na qual não encontrava prazer. Releva o caso de ter cometido pederastia com uma miúda de 14 anos, mas que tinha um aspecto ainda muito infantil. A mãe, como todas as mulheres do povo, batia-lhe desalmadamente. Após muitos episódios, a menina adoeceu, teve muita febre e passado algum tempo enforcou-se. Praticamente não fui incomodado – conclui Nikolai. Pensou em dar um tiro na cabeça, mas veio a história com a coxa Mária Timoféevna… e outros episódios são relatados, acontecidos no estrangeiro.

Tíkhon respondeu-lhe que o mundo está cheio desses horrores. E continua: – Ora, o senhor sentiu toda a profundidade do mal, o que raramente acontece com esta envergadura… se alguém lhe perdoar por isto… sentir-se-á aliviado ou indiferente? Nikolai respondeu “aliviado”. – Domina-o o desejo do martírio e do auto-sacrifício, comenta Tíkhon: – Supere esse desejo, desista das folhas, então, vencerá realmente tudo. Cobrirá de opróbio todo o seu orgulho e o seu demónio. Sairá vencedor e alcançará a liberdade. Indica-lhe o meio a fim de apaziguar a sua consciência atormentada, libertar-se do demónio que o persegue. Nikolai compreende o que Tíkhon quer dizer; mas vai embora e ao despedir-se do prelado, este comenta: Estou a ver como se fosse ao vivo… que nunca esteve tão perto, ó meu pobre rapaz perdido, do mais terrível crime do que neste momento… Nikolai Stavróguin cometerá, na verdade, o suicídio.

 

A tentação    

Vladimir Kant [5] considera que a tentação – afastar-se do caminho da verdade – é bem patente na obra de Dostoiévski. O autor escreve este romance em Dresden, (1871), sabe que em Paris se desencadeara um grande incêndio nos edifícios do estado, no palácio das Tulherias, cheio de obras-primas, propagado pelos partidários da Comuna de Paris, ao verem que a sua causa estava perdida. Surge também nesta obra um incêndio que significa destruição, morte, caos. Escreve então o autor, numa carta: “Quando há perturbações políticas, o povo é capaz de coisas terríveis” [5].

O autor coloca na folha introdutória desta obra o excerto do Evangelho de Lucas: 8, 32-37. Os demónios, em grande número, são expulsos do endemoninhado por Jesus e Este aceitou o pedido deles e meteram-se nos porcos que ali pastavam e depois os animais precipitaram-se no mar, afogando-se. Na obra, os demónios representam os que possuem ideologias totalitárias e a acção malévola que exercem sobre si e sobre o mundo.

O endemoninhado, agora livre, “assentado aos pés de Jesus”, inspira tal serenidade, que o povo também não o suporta, não o compreende e pede a Jesus que saia da sua terra.

Leia o livro devagar, senão transforma-se numa cacofonia.

 

Notas:
[1] – Filipe e Nina Guerra, “Da Rússia com (des)amor. Porque é que Dostoiévski continua a ser tão relevante?”, de Nina Guerra e Filipe Guerra.
[2] – Joseph Frank, Dostoiévski, um escritor em seu tempo – a biografia, ed. Companhia das Letras (Brasil).
[3] – Fiódor Dostoiévski, Demónios, Editorial Presença.
[4] – (NT) personagem da crónica Henry IV. Nesta peça de Shakespeare, o príncipe Harry, futuro rei Henry V, leva na juventude “uma vida leviana e
divertida…”
[5] – Vladimir Kant, “A Tentação como paradigma da cultura cristã”, in Revue Philosophique de la France et de l’ Étranger, 2013

 

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