Dentro de muros (I)

Uma fronteira que entra pelo mar dentro: o muro de separação entre os EUA e o México, em Tijuana. Foto © Amnistia Internacional.
Escrevo estas palavras em tempo de confinamento, dentro de muros que me separam fisicamente do mundo. São as ideias que nos devem libertar e unir.
Mesmo antes do estado de emergência começar, estive junto a um muro separador. Foi na fronteira de Tijuana, entre o México e os Estados Unidos da América (EUA). Estive no lado de dentro, mas também no lado de fora, dependendo de como vemos a realidade, estive dos dois lados da fronteira, entre o México e os EUA. E que privilégio esse, de saltar fronteiras, como se o muro a alguns nada fizesse. O problema é que faz a outros. É discriminador, ele.
Tijuana fica no norte do México, junto ao Oceano Pacífico. É limitada por uma muralha de ferro que entra mar adentro e separa a cidade e o outro lado, vazio, cheio de arame farpado e uma passagem fronteiriça altamente vigiada e com o buliço de tudo o que é charneira e fronteira de alguma coisa. A passagem é uma quaresma, com longas filas de carros, pessoas a pé e vendedores ambulantes. A praia, junto ao Pacífico, no lado mexicano, é de alegria contagiante, de comida acessível, de famílias a passear em dia de descanso. No lado do sonho americano, um deserto, terra vazia entre os quilómetros que separam o muro e a cidade de San Diego.
Ia com a dúvida angustiante de onde vivem e como estarão os milhares que peregrinam fugindo das condições de miséria e ameaça em que vivem. A imprensa falou deles intensivamente há pouco mais de um ano, mas neste tempo de soundbytes tudo se esfuma rapidamente como se os problemas desaparecessem. A dúvida dissipou-se quando vi milhares de barracas que se alongam sem fim de vista nas colinas que ladeiam Tijuana. A miséria continua. Mas caiu no esquecimento.
O isolamento social em habitação frágil e temporária é muito difícil. Esta é uma verdade tão factual em Tijuana, como em Portugal, em meios suburbanos ou na interioridade rural e esquecida.

“Bairro de lata” em Tijuana (México), onde moram pessoas que querem atravessar a fronteira para os Estados Unidos. Foto © Aministia Internacional.
Por cá, a falta de eletricidade nestes tempos é um problema que dificulta tudo: o estudo em casa, a capacidade de armazenamento de comida num frigorífico, a dificuldade em garantir água quente para a higiene. Tudo coisas adquiridas para tantos de nós, mas que a tantas famílias falta e é necessidade gritante neste tempo de recolhimento que silencia estas carências.
António Mexia, CEO da EDP e gestor premiado pelo desempenho da empresa com monopólio de mercado durante vários anos, apressou-se a anunciar em televisão a responsabilidade social da companhia, publicitando a doação que iam fazer de ventiladores a hospitais. Tudo isto é válido, mas a responsabilidade social é sobretudo em relação ao produto que vendem e disponibilizam. E neste tempo de pandemia o que se pede às empresas de produção e distribuição elétrica é isto: eletricidade acessível e estável a todas as pessoas durante o período de confinamento e isolamento social.
Os problemas de pobreza que existiam antes, continuaram e agora mais exacerbados. Saibamos endereçar estes problemas, mas não apenas exigindo ao Governo. Todos nós, as maiores empresas especialmente, têm de contribuir para a solução dos seus problemas com aquilo para que estão melhores preparadas: disponibilizar os seus produtos, nestes tempos excepcionais, em circunstâncias excepcionais e a quem mais necessita.
Pedro A. Neto é diretor-executivo da Amnistia Internacional Portugal
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