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O Papa Francisco à entrada do avião que o levou até Jacarta, 2 setembro 2024. Foto Vatican Media

Papa no Luxemburgo e na Bélgica

Depois da viagem mais longa de Francisco, vem aí a mais desafiante?

| 25/09/2024

O Papa Francisco à entrada do avião que o levou até Jacarta, 2 setembro 2024. Foto Vatican Media

O Papa Francisco à entrada do avião que o levou até Jacarta, no passado dia 2 de setembro. Esta quinta-feira, volta a embarcar, agora rumo ao Luxemburgo. Foto © Vatican Media

Menos de duas semanas depois de ter regressado da sua viagem apostólica mais longa (e uma das mais longínquas) de sempre, Francisco parte esta quinta-feira, 26 de setembro, rumo ao Luxemburgo e à Bélgica. Sintomas gripais fizeram-no cancelar os compromissos que tinha em agenda no início desta semana, mas a 46ª viagem apostólica do seu pontificado vai mesmo concretizar-se… e adivinha-se desafiante.

Apesar de a motivação inicial da viagem ter sido a celebração do 600º aniversário da Universidade Católica de Lovaina, e de esse ser um dos momentos centrais da agenda do Papa [ver 7MARGENS], vários analistas católicos têm manifestado receios quanto ao que espera Francisco naqueles que são dois países secularizados, onde estão sedeadas importantes instituições administrativas e financeiras de uma Europa abalada pela guerra e pela dificuldade em gerir o acolhimento aos migrantes, e feridos pelos escândalos de abusos sexuais de menores no seio da Igreja.

Os desafios que a Igreja enfrenta são particularmente evidentes na Bélgica, onde Francisco estará a maior parte do tempo. Recorde-se que este é um dos poucos países onde a eutanásia é legalmente permitida não apenas em casos de doenças terminais, mas também quando existe um “terrível sofrimento psicológico” devido a doenças mentais, e que foi o primeiro a legalizar a eutanásia para crianças, sem exigência de uma idade mínima. A Bélgica esteve, também, na linha da frente da legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, em 2003.

E se em 1900 a estatísticas do país afirmavam que 99 por cento da população era católica, hoje o valor não vai além dos 57% e a taxa estimada de participação na missa dominical está, oficialmente, entre os seis e os dez por cento. No entanto, uma contagem efetiva feita no terceiro domingo de outubro de 2022 encontrou apenas 172.968 pessoas nos bancos das igrejas católicas, o que se traduz numa taxa real de apenas 2,6 por cento, assinala o vaticanista e editor do Crux, John L. Allen Jr.

Se a contagem tivesse sido feita do domingo passado, talvez a taxa fosse ainda menor, tendo em consideração o elevado número de pessoas que vêm pedindo a anulação do seu batismo, particularmente desde a transmissão, no ano passado, do documentário Godvergeten (Os Esquecidos de Deus), com testemunhos de inúmeras vítimas de abusos sexuais da parte de membros do clero, e depois do desfecho do caso do bispo emérito de Bruges, Roger Vangheluwe, que foi laicizado pelo Vaticano em março. As acusações contra o prelado remontavam a 2010, mas só este ano, quando surgiram “novos elementos graves”, o processo foi reexaminado e a documentação apresentada ao Papa, que aprovou a pena proposta. Vangheluwe terá admitido alguns abusos praticados, incluindo contra dois dos seus sobrinhos.

Francisco não deverá, pois, fugir ao tema dos abusos durante esta viagem. De resto, é sabido que irá encontrar-se com 15 sobreviventes deste crime enquanto estiver na Bélgica. Ou melhor: com 14, visto que um deles, Alain Cheval, já fez saber que não irá comparecer.

“Hoje vens visitar o meu país, a minha cidade, e pior: atreves-te a vir a um local de abuso de alguns desta legião, para prestar homenagem aos algozes […]; pensei em ir ver-te, em pedir-te contas, mas no final percebi que isso não me ajudaria em nada […]”, escreveu a vítima numa carta dirigida ao próprio Papa e partilhada no início desta semana pela cadeia francófona RTBF. 

Apesar de considerar que comparecer ao encontro seria “inútil” no seu caso, Alain Cheval aproveita a carta para deixar um apelo a Francisco: “Já não se trata de pedidos, mas de exigências, de ações e não de palavras, por mais bonitas que sejam. Age, reconhece, toma uma posição, é o teu dever como homem, como chefe deste empreendimento destrutivo que é a tua igreja”.

Já no Luxemburgo, onde quase metade dos residentes são oriundos de outros países – e os portugueses constituem cerca de 14,5% da população total – um dos temas incontornáveis será a discriminação de que são alvo muitos dos migrantes.

“Um grande tema que nós esperamos que o Papa nos confirme é a chamada pastoral intercomunitária neste país onde 48% são cidadãos estrangeiros”, diz o padre Rui Pedro, antigo diretor nacional da Obra Católica das Migrações, que já viveu em vários países como Itália, França ou Cabo Verde, e agora não esconde a alegria por acolher o Papa no Luxemburgo, onde está em missão.

Padre Rui Pedro, missionário scalabriniano no Luzemburgo. Foto ACN

O padre Rui Pedro, missionário scalabriniano, vive no Luxemburgo há cerca de uma década. Foto: Direitos reservados, via ACN

“Mas o que esperam as comunidades migrantes deste encontro com o chefe da Igreja Católica?”, perguntou-lhe a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre. “O que nós esperamos é que o Papa venha incutir esperança. Esperança nesta Igreja no norte da Europa, onde de facto a secularização é muito alta, e onde neste momento as comunidades mais vivas são as comunidades da imigração, portuguesas, italianas, africanas. São comunidades vivas que a Diocese tem sabido acolher”, afirma o missionário scalabriniano.

O padre português, que vive no Luxemburgo há cerca de uma década, fala num contexto novo, que resulta da separação recente entre Igreja e Estado, na adaptação à laicidade e ao modo de seguir as migrações. E lembra que a expetativa é grande também face ao que Francisco possa dizer aos cada vez menos padres e freiras. “Esperamos também que o Papa venha incutir profetismo às congregações religiosas aqui presentes. Não são muitas, mas atravessam também uma grande crise. Não há vocações e há congregações com grandes estruturas e instituições, mas falta vida, falta dinamismo. Na verdade, na vida consagrada no Luxemburgo, eu e outros somos estrangeiros e somos o rosto mais jovem da vida consagrada no Luxemburgo”, assinala.

O encontro com a comunidade católica vai acontecer na catedral de Notre-Dame do Grã-Ducado. Ao todo, estarão presentes cerca de 650 pessoas, sorteadas entre as mais de dez mil que manifestaram interesse em escutar o Papa. Três residentes no país irão falar e dois deles são portugueses: a Irmã Maria Perpétua dos Santos, da congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, que abordará a questão da vida dos não-luxemburgueses, e Diogo Gomes Costa, de 25 anos, que falará sobre os jovens.

O encontro com o Papa, diz ainda o padre Rui Pedro, poderá vir a ser determinante também para os mais jovens, com a memória fresca da Jornada Mundial da Juventude em Lisboa. “Penso que estes jovens possam receber da parte do Papa um novo ‘élan’, que esta visita do Papa possa encorajar estes jovens que são de várias culturas, de várias comunidades, a participar fortemente na vida da igreja”, assinala.

E se tiver oportunidade de trocar umas palavras com Francisco, o padre Rui Pedro já sabe o que lhe dirá: “Muito obrigado por ter no seu ministério, no seu magistério, sempre presente os migrantes e os refugiados. É quase um ponto fixo em tudo aquilo que o Papa faz e diz”, conclui.

 

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